*Era um fim de tarde bonito, daqueles que faziam a pessoa querer ficar em Londres. A temperatura amena convidava as pessoas a sair às ruas, e muitas delas pareciam haver aceito o convite. Entre todas aquelas figuras tipicamente inglesas, havia uma que destoava delas tanto quanto um grito súbito numa sala de concerto. Sua pele morena, os cabelos negros e o formato amendoado dos olhos deixavam clara sua origem estrangeira. Seu traço mais britânico, por assim dizer, era a cor azul das íris, herdada do pai. As roupas seguiam o estilo da cidade onde estava, mostrando que ela não destoava propositalmente das pessoas ao redor. Vestia um terninho cinza-chumbo, a blusa de seda branca aparecendo sob o blazer aberto. Carregava sob o braço direito uma pasta de couro negro e brilhante e, na mão esquerda, um tubo semelhante ao que os arquitetos costumavam carregar consigo. Andava sem pressa, os passos impulsionando-a suavemente por entre a multidão que ia em sentido contrário ao seu. Atravessou uma rua e finalmente chegou a seu destino - Kew Gardens. Os jardins estavam relativamente calmos, e a morena encontrou um banco para se sentar. Retirou um livro da pasta e começou a ler interessadamente. Não demoraria muito naquela agradável ocupação, no entanto. Depois de poucas linhas, parou o que fazia e olhou em volta. Um leve calafrio lhe desceu pela coluna. Respirou fundo, os olhos inquietos buscando alguém, ou algo. Não podia precisar exatamente de onde - ou de quem - lhe vinha aquela sensação, mas sentia claramente que alguém que não desejava nem um pouco ver estava por perto, e não por coincidência.*
*Era um fim de tarde bonito, daqueles que faziam a pessoa querer ficar em Londres. Mas para Seth, não era nada senão a queda do Sol naquela cidade imunda que fedia a excremento, inundada pelo falso moralismo e pela agiotagem - a atividade mais enriquecedora, na opinião de Seth, nos últimos séculos na velha ilha. O caos, em verdade, o agradava, mas ele só era belo se completo. A beleza do caos, a beleza da desordem consistia, pensava, no fato de que só através dela é que se compreendia a harmonia das coisas, o equilíbrio de tudo; era como a compreensão final que se obtinha ao empurrar a primeira peça de dominó quando alinhadas em fileira, em pé: a primeira derrubava a segunda e, numa reação em cadeia, derrubava todas. Só a destruição da perfeição revelava os mecanismos mínimos, por vezes invisíveis ao primeiro olhar, que constituiam aquela perfeição. A beleza da harmonia era o caos. Era nisso que Seth acreditava. E superados séculos desde que sua alma se equilibrara, abarcando o bem e o mal (incidente com Keifa, o Ceifeiro), essa concepção de destruição como fenômeno revelador da perfeição ainda persistia. E Londres... Londres fedia a caos, mas ainda mantinha aquela máscara hipócrita de civilidade. Não era um caos, pois, absoluto. E isso incomodava Seth. Até mesmo o terno o incomodava. Sentia falta da indumentária do Velho Reino, com a qual o corpo se acostumara, negra como a noite, larga o suficiente para correr, saltar e golpear. O terno era perfeitamente recortado, azul-marinho e nada parecido com a velha indumentária. E ainda havia a maldita gravata vermelha. Seth já decepara o órgão genital de seu servo pessoal mais por conta do desajuste de seu gosto com os do pobre responsável por sua vestimenta do que por conta da tradição de manutenção de eunucos no velho Egito. Agora, o fim de tarde londrino só lidava com a presença de Seth - e vice-versa - por força do que lhe dissera o velho intendente Omar. Seth não costumava duvidar do velho intendente, sobretudo por conta da instrução na velha feitiçaria egípcia a que Omar se submetera, mas é certo dizer que vislumbrar Ísis, sentada num banco de Kew Gardens e lendo um livro, acabou por surpreendê-lo. Não pôde deixar de sorrir, é claro, e foi sorrindo que se aproximou do banco, distraidamente, ainda que pudesse visualizar a aura iluminada de sua velha conhecida e que, certamente, por força da Reencarnação, de nada se lembrava, senão da medíocre vida mortal que levava - a que Seth havia sido aprisionado. Os cabelos úmidos jogados para trás tinham a mesma cor dos óculos escuros: um preto absoluto. O sorriso, ao contrário, de uma alvura notável, eram por demais simpáticos, simpáticos o suficiente para que a intromissão não parecesse insolente.* Acho que está esfriando... estou tendo calafrios! *E, tirando os óculos e revelando os olhos de um negro profundo, manteve o sorriso ao perguntar, evidenciando certo tom de ansiedade.* Você é a Dra. Mary Ann, suponho?
*A mulher se sentia incomodada pela presença daquele desconhecido. Por mais simpático que ele lhe parecesse, algo nele lhe parecia errado. Era como se todos os seus alarmes internos emitissem sinais de perigo a cada palavra que ele dizia. Provavelmente, foi esta a razão que a moveu a demorar tanto a responder à pergunta do estranho. Antes de dar qualquer resposta, submeteu-o a prolongado exame dos olhos azuis, os lábios obstinadamente fechados. Somente depois de concluir que o homem não trazia armas - não sabia de onde vinha a ameaça, e foi esta a primeira ideia que lhe cruzou a mente -, foi que se decidiu a dar a resposta que ele pedia.* Infelizmente, sua suposição está incorreta. *Respondeu, num inglês curiosamente desprovido do acentuado sotaque britânico.* Não sou doutora em coisa alguma, e da última vez que chequei, não me chamava Mary Ann... *Retrucou, num tom cuidadosamente neutro. Um pequeno sorriso, decorrente apenas da boa educação, apareceu nos lábios da mulher.* Se eu puder ajudar em alguma coisa, como, por exemplo, a achá-la... *Deixou a frase no ar. Não sabia porque saía de sua reserva habitual para oferecer ajuda a um completo estranho, ainda por cima um estranho que ativava seus alarmes de perigo. Uma força superior à de sua vontade, no entanto, a arrastou a fazer aquilo, não por querer realmente ajudá-lo a encontrar a tal Mary Ann, mas por querer manter aquela conversação por mais alguns minutos, apenas o tempo suficiente para se recordar de onde havia visto aquele homem antes, e que espécie de ameaça ele representava. Franziu a testa, incomodada por sua total incapacidade de recordar a fisionomia do desconhecido. Normalmente, tinha uma memória fotográfica. Esperou que ele voltasse a falar, no entanto, torcendo para que algo em sua resposta a esclarecesse.*
Ah... *Seth pareceu desapontado, embora em seu interior exultasse o fato de tê-la encontrado - não a Mary Ann, obviamente. Balançou a cabeça enquanto guardava os óculos escuros no bolso interno do paletó. A verdade é que Seth mais aparentava um executivo ou algum desses bonitões de alta renda da velha Bretanha do que um deus errante por conta do exílio. O que era bom, afinal.* Advogados. Nunca se pode confiar neles. Ela deveria estar aqui, bem onde a srta. se acha, mas nem sinal... *Olhou o relógio, pensativo.* E o pior é que ela não atende o celular. Se a srta. fosse advogada, eu a contrataria agora tão somente pela urgência da causa. *O sorriso se abriu ainda mais e Seth tentava, ainda que inconscientemente, ser o mais galante possível. Não que o fosse constantemente. Em geral, mantinha uma expressão severa e não se prendia muito às veleidade sociais. Tinha seus afetos, mas se podia contar nos dedos quantos eram. Mas Ísis era diferente. Eles tinham um passado. Uma história. Ainda que marcada pelo sangue e pela guerra, já foram, um dia, marido e mulher.* Incomoda-se se eu me sentar aqui para esperá-la? Acho que não tardará em chegar e eu não atrapalharei sua leitura por muito tempo... *Permaneceu em pé, esperando a resposta, como um verdadeiro e odioso cavalheiro britânico.*
*Samantha sorriu de maneira mais compreensiva quando o homem comentou que não se podia confiar em advogados, e concordou com um gesto de cabeça.* Vejo que o senhor não tem muita experiência com advogados... *Murmurou, alargando o sorriso.* Se me permite o conselho, sempre que marcar com um advogado às dez, apareça às dez e meia, e preparado para esperar. Eles sempre se atrasam. *Inclinou o rosto para o lado, os cabelos negros caindo sobre o braço direito.* Infelizmente não sou advogada. Sou uma simples decoradora. Mas, de qualquer modo, pode se sentar. O local é público, e é um país livre. Pelo menos é o que me dizem. *Completou, com uma certa dose de ironia na voz macia. Esperou que o homem se sentasse e colocou-se de lado no assento, de modo a poder ficar de frente para ele. Depois de alguma hesitação, estendeu a mão direita para ele. Suspirou brevemente, de forma desanimada, antes de se apresentar, em termos concisos.* Samantha Boyd. Desculpe a pergunta tão direta, mas acho melhor não fazer rodeios, que só gastam tempo precioso. *Os olhos se estreitaram, brilhando vivamente. Havia um mundo de atenção naquele olhar.* Eu não o conheço de algum lugar?
*O homem pareceu satisfeito e se sentou no lugar gentilmente cedido. Ísis era, afinal, sempre bela. Britânica, egípcia, mas sempre imortal. Sua beleza eterna só fazia perpetuar-se na carne que a revestia.* Pois é, esse é o problema deles. Eu já deveria saber. *Olhou para o relógio novamente com a hipócrita cara de decepcionado antes de fixar os olhos negros no azul da íris de Ísis. Ísis, não...* Samantha... *Repetiu à apresentação da deusa. Aquilo era por demais esquisito, pensou. Seria muito mais coerente logo demonstrar seu poder, explicar sua condição e fazer Ísis sua esposa novamente. Mas não podia. Ora, é óbvio que não podia. Samantha provavelmente sairia correndo, iria tomá-lo por louco e, na pior das hipóteses, sua memória não despertaria e sua condição imortal continuaria limitada à eterna reencarnação. Aquele jogo o cansava, mas sabia que não tinha escolha.* Ora, muito prazer. O meu nome é... *E isso ele nunca deixara de dizer, prazerosamente, dando à cada sílaba o devido peso.* Seth. Eu sei, eu sei. É esquisito, mas meus pais gostavam muito daquela coisa egípcia toda. *Empurrou os cabelos para trás, vez que lhe caíam sobre os olhos à medida que falava. Ponderou um pouco antes de responder, atento à ansiedade de Samantha pela resposta.* Hum... possivelmente. Ora, se é decoradora, certamente nos conhecemos. Eu sou um fanático do ramo imobiliário. E vivo contratando decoradores e lidando com eles, seja no trabalho seja por satisfação pessoal. Talvez tenha sido isso. Aliás... *Alargou um sorriso matreiro.* Se a srta. garantir-me um valor aceitável, contrato-a para um serviço que requer, digamos assim... um gosto refinado. E devo dizer que me parece ser algo que a srta. tem.
*Sorriu brevemente e sacudiu a cabeça quando Seth se apresentou.* Não é tão esquisito assim, não para mim. *Comentou, vagamente. E, sem saber porque, começou a falar sobre si, mais do que costumava fazer a qualquer pessoa.* Sou meio egípcia, e sei bem como a cultura é fascinante. Além do mais, quem sou eu para falar do seu nome, se minha mãe fez questão de enfiar um Ísis depois do meu primeiro nome? *Sorriu, fazendo uma expressão falsamente trágica. Depois sacudiu a cabeça. Aceitou provisoriamente a explicação de Seth sobre o possível conhecimento prévio que tinham.* O engraçado é que não consigo me recordar do seu rosto. Normalmente, sou uma boa fisionomista, mas talvez tenhamos feito apenas um serviço rápido juntos. *Concedeu, depois de alguma hesitação.* Quanto ao serviço, veremos. Não creio que meu gosto seja mais refinado que o de qualquer outra pessoa, mas eu me esforço. E, por alguma razão, sinto que gostaria de trabalhar para o senhor. Que tal me dizer exatamente quais são seus desejos, para que eu saiba se sou capaz de satisfazê-los adequadamente? *Sugeriu, sem se dar conta do sentido dúbio que aquela simples pergunta podia ter, em se tratando de Seth.*
*Os olhos negros demonstraram verdadeira surpresa, mas foi a expressão geral de Seth que exarou encantamento com cada palavra pronunciada por Samantha. Gradativamente, foi da admiração para o entusiasmo, abrindo e fechando a boca à medida que ela falava.* Ora essa! Ísis? Que coincidência adorável. É por isso que eu acredito em destino. Veja você, uma britânica com ascendência egípcia, tendo Ísis por segundo nome encontra um sujeito como eu de nome Seth que lhe oferece emprego... *E, com um sorriso sombrio, mas não menos galanteador, completou.* Quais as chances disso!? *Com uma gargalhada contida, inclinou a cabeça para trás, os cabelos caindo-lhe pelos ombros.* Veja, não pode haver pessoa melhor que a srta. para cuidar da decoração de meu apartamento. Ocorre que estive no Egito recentemente e aquela... arquitetura fantástica, aqueles detalhes belíssimos e aquela simbologia toda me fascinaram. Gostaria que meu apartamento em Londres estivesse naqueles moldes. Eu sei, eu sei, soa excêntrico, mas... bem, este sou eu. *Tamborilou os dedos no respaldar do banco e cruzou a perna direita, a fim de poder melhor observar a britânica. Se ela porventura aceitasse, ainda que posteriormente, talvez acabasse por dar uma lida aqui e ali acerca da mitologia egípcia. Não sabia bem como essa coisa de decoradora funcionava, mas imaginou que no mínimo Samantha teria que dar uma pesquisada naquilo com que trabalharia. E certamente encontraria referência direta a Seth e Ísis. Ainda que isso não indicasse nada diretamente, seria divertido sua ciência acerca daqueles homônimos. Seria o destino, talvez...?* Mas não diga nada ainda! Se você não topar o serviço, eu juro que ao menos consigo convidá-la para um café... *e, sorrindo sedutoramente, lembrou-se dos bons tempos de ascensão no Velho Império. valia a pena reascender, afinal.* E eu tenho certeza, e por favor, não me tome por abusado, que a srta. conseguirá satisfazer todos os meus desejos. Falo da esfera profissional, é claro. Parece-me uma profissional muito comprometida.
*Samantha ficou observando o rosto de Seth com atenção, e o mesmo meio sorriso, polido e algo enigmático, no rosto moreno. Somente quando ele terminou de falar foi que ela fez soar sua voz.* Compreendo seu sentimento em relação ao Egito. Façamos o seguinte. Verei seu apartamento e prepararei uma série de esboços das ideias que tiver para tornar seu local no que deseja. Caso o senhor concorde com meu plano, falaremos sobre os preços. *Sugeriu, muito simplesmente. Mais simplesmente do que esperava, teve sua sugestão aceita, e mergulhou no trabalho, sem pensar mais na possível ameaça que seu novo cliente poderia representar. Em duas semanas, já havia começado a trabalhar no apartamento dele, concentrando-se primeiramente na sala de estar, como era de seu hábito. Era ali que estava, no momento, fazendo marcações a lápis numa parede, de onde ficariam quadros a ser pendurados. Estava tão absorta nesse serviço, que não notou a chegada de seu contratante. Estava vestida em jeans com as pernas dobradas para que as barras não tocassem o chão e uma camisa branca, bastante simples - roupas de trabalho braçal, como as chamava. Depois de fazer uma pequena anotação com o nome do quadro em uma das marcações foi que sentiu a presença de Seth, mas de uma forma que não esperava sentir. Um intenso calafrio correu por seu corpo, e uma série desordenada de visões, que não lhe pertenciam, a fez cair sentada ao chão, com a cabeça pressionada entre as mãos, como se esperasse que aquilo fosse melhorar as coisas.*
Deveria trabalhar menos, Ísis... *a voz soou rouca e ecoou no enorme apartamento que já tomava a forma do que gostaria que fosse. As referências estavam aqui ali, ora revelando a fertilidade do Nilo, ora as areias quentes do deserto. Primeiro veio a voz, depois é que se pôde identificar Seth, as botas pesadas, ao estilo dos trabalhadores das siderúrgicas do México, batendo forte no chão. De calça jeans, camisa branca e uma jaqueta esverdeada destoando em absoluto de todo o resto, não se parecia nada com o homem de terno e gravata com o qual lidara Samantha no dia de sua contratação. Não via a deusa há duas semanas e constatá-la em seu apartamento foi verdadeiro motivo de jubilo, sobretudo porque tinha ciência que a proximidade de ambos engendrava em Samantha as visões de outrora, a memória tolhida por Anubis.* Perdoe-me, quis dizer Samantha. É que Ísis é muito adequado a este lugar, não é? E nossa... você fez um excelente trabalho, trabalho suficiente para deixá-la exausta, percebo. *E sorriu aquele sorriso alvo e perfeitamente alinhado, que se completava com os olhos negros que lhe acentuava a beleza do antiquíssimo corpo guerreiro.* Felizmente, o bar já está aqui. Venha, vou preparar-lhe um drinque. *Não havia ninguém no apartamento, senão ele e Ísis. Omar, o intendente, estava ocupado cuidando de um ou outro problema administrativo e os servos, sob a máscara de seguranças e executivos de alto escalão da Bastet Incorp., estavam lá embaixo. Era inadmissível que qualquer ser se sentasse junto a deuses.* Venha, você precisa descansar... *Chamou, enquanto retirava algumas bebidas da pequena bancada.*
*A morena respirou fundo, sentindo a cabeça latejar, ao ouvir a voz de Seth. Sentia-se estranha, como se já houvesse tomado o drinque que Seth lhe oferecia. Inspirou profundamente e levantou-se do chão, afastando os cabelos do rosto ligeiramente pálido. Limpou as mãos nos fundilhos das calças escuras e se aproximou do bar, encostando-se à bancada. Os olhos azuis observavam atentamente cada movimento do homem, enquanto ela hesitava sobre as palavras que deveria usar.* Eu agradeço imensamente sua gentileza, Seth... *Pausou ao falar o nome dele, como se algo a incomodasse naquele som. Levou as mãos às têmporas e suspirou.* ... mas não bebo durante um dia de trabalho. A falar a verdade, não tomo bebidas alcoólicas em hipótese alguma e... *Novamente parou de falar. Pousou uma mão sobre os olhos, inspirando fundo. Visões horríveis, da morte de seu marido anterior a Seth, passavam vertiginosamente diante de seus olhos. Parecia que, quanto mais perto ficava dele, mais intensas ficavam aquelas visões.* E-eu... eu não preciso de uma bebida, eu só preciso me sentar um pouco... *Murmurou fracamente.* Não estou me sentindo muito... *As palavras se apagaram, junto com a luz dos olhos da deusa, que iria parar no chão caso Seth não fosse rápido em seus movimentos para evitar isso.*
*...e ele foi. Rápido como se de matéria fosse desprovido, rápido o suficiente para tomar Ísis nos braços antes que fosse de encontro ao piso de mármore frio do apartamento. Samantha não parecia bem mesmo. O rosto pálido e aquela aparência cansada só fazia demonstrar a fraqueza da carne a que Ísis se submetera e Seth pensou nisso, por alguns instantes, enquanto preparava um drinque que foi, como se viu, recusado por sua decoradora. Agora, na escuridão, Samantha podia ver jubilando-se com seu filho, Hórus, uma criança belíssima. Ele brincava e apontava para um homem, rindo-se. O homem chorava, gritando.* Deixa-me vê-lo, tu não tens o direito! *Em resposta, Osíris, numa língua antiga e numa voz poderosa, rebatia.* Meu irmão não é bem vindo aqui, como já foi anunciado. Sempre foi um franco, nasceu fraco e como as castas dos mortais, não há meio de ascensão, verme. Parta já antes que meus servos lhe escurracem. *O idioma não era inglês, por óbvio, mas Samantha, podia entender cada palavra pronunciada pelo expurgado.* Irmão, ele é meu sobrinho, quero vê-lo! *Mas algo o pegou pelas pernas, um rastro de sombra difícil de distinguir em sonho, golpeou-lhe a barriga e fê-lo ajoelhar, arrastando-o, aos prantos, lentamente para longe. Enquanto Osíris gargalhava, Samantha pôde ver o rosto de Seth - o de seu patrão - fixar o olhar negro no irmão, repleto de dor e ódio. A sombras novamente. E agora, visões horríveis, as mesmas que a derrubaram no chão, eram discerníveis no sonho e, num grito de dor, súbito silêncio. Os passos, então, eram audíveis, como se fossem os passos das pesadas botinas usadas por Seth, há pouco, quando Samantha ainda estava consciente. Mas cá, na realidade e não no mundo dos sonhos, não na subconsciência atingível pelo sono, Samantha já havia sido levada ao Saint Mary Hospital, onde se achava sendo medicada.*
*A morena se assustou ao acordar no hospital. Olhou em volta com ar espantado, confusa. Ainda se sentia um pouco tonta, mas a visão ia voltando ao foco lentamente. Sentiu-se levemente nauseada, a cabeça latejando de dor. Inspirou fundo e olhou uma agulha enfiada em seu braço. Estreitou os olhos. As imagens do filho eram tão vívidas que estranhou não ver a criança ali. Os lábios se moveram lentamente.* O que disse, querida? *Perguntou uma enfermeira jovem e simpática.* Meu filho. *Murmurou a morena, suavemente.* Ele deveria estar aqui. Meu marido, também. Oh... *Os olhos se encheram subitamente de lágrimas.* Não... não deveria. *Murmurou dolorosamente. Confusa, falava como Isis, e não como Samantha. Tremeu ao ouvir uma voz masculina, profunda. Um frio gélido se apossou de si quando viu o rosto de Seth. As lágrimas secaram imediatamente.* Maldito seja você, Seth. Destruiu-me, destruiu minha vida. Maldito seja você por toda a eternidade, que sua alma seja atormentada para sempre. *Murmurou, curiosamente, em egípcio antigo.*
*Não era um veículo luxuoso, embora fosse uma Mercedez Benz bem cuidada. Era um modelo relativamente antigo, da década de 90, mas talvez por ser prateada, perscrutar mazelas no veículo era tarefa difícil. A 60 km, o veículo parecia deslizar suavemente pelas ruas londrinas. No banco da frente, um homem aparentando 80 anos de idade esprimia os olhos para ver as placas e os carros, vez que ele era o motorista. Omar, ao seu lado, um árabe careca e muito gordo mordia os lábios, com a certeza de uma colisão violenta com qualquer coisa que passasse pela rua. Achava esquisita a punição de Seth, sobretudo porque o sujeito que dirigia o carro tinha, em verdade, 22 anos. Omar resolveu anotar mentalmente para, na eventualidade de trabalhar como chofer, não derrubar o café do patrão como fizera o motorista, porque poderia custar-lhe algumas décadas de saúde. No banco de trás, Seth falava ao celular e sorria à medida que a voz feminina lhe explicava que...*...Ísis acordou. Tenho certeza. Era ela. Transmita o mais rápido possível, seu imbecil. *A enfermeira não sabia, obviamente, que falava com Seth em pessoa. E é necessário ressaltar que setita nenhum sabia que Seth perambulava pela Terra. Apenas um ou outro líder de clã tinha conhecimento de um ser que se comunicava diretamente com Seth, mas o próprio deus... era um mito. Uma esperança. Um norte para os setitas. E só.* Ela ainda esbravejou! *continuou a enfermeira, desesperada, tendo certeza que o homem do outro lado da linha era um subordinado qualquer que dela duvidava.* Ela disse claramente "Maldito seja você, Seth! Destruiu minha vida! Bláblá! Eu estou dizendo. *Seth desligou na cara dela e sorriu. Bateu nos ombros do velhote de 22 anos que dirigia o veículo e disse.* Ao Saint Mary.
*Depois daquelas palavras completamente absurdas, a morena de olhos azuis mergulhou novamente na inconsciência. Voltou-se devagar na cama e ficou deitada de lado, o rosto virado para a porta do quarto. Enquanto dormia, novas imagens de sua vida anterior iam permeando seu sono. Claro, para o corpo mortal em que estava contida, aquilo seria apenas um sonho muito estranho. Mas a essência que habitava aquele corpo sabia bem que estava apenas presa ali. Em desespero, como se fosse uma prisioneira, tentava uma maneira de forçar seu caminho até a superfície, e lá permanecer. Ainda não sabia que precisava da presença de outro deus por perto para conseguir se manter no domínio daquele corpo, pelo menos até que se fortalecesse o bastante para fazê-lo sozinha. Durante o sono, deixava escapar um lamento baixinho em egípcio antigo, quase inaudivelmente. Lamento que cessaria quando a porta do quarto se abrisse, e a enfermeira que falara com Seth ao telefone o conduzisse para dentro.* Não sei do quanto ela se lembra, mas seja cuidadoso. *Recomendou, antes de sair e fechar a porta de mansinho. A morena se sentou imediatamente, os olhos azuis fixos nos do homem.* Você. *Murmurou, suavemente, sempre em egípcio antigo.* O que você quer, Seth? Não tenho mais coisa alguma que você possa me tirar.
*A voz não era humana. O que Seth pronunciou em egípcio antigo soou poderoso como o trovão, como se muitas vozes falassem ao mesmo tempo por uma única boca. Se a sinestesia permitisse, dir-se-ia que a voz de Seth era Trevas.* Ísis... *O sorriso era pura satisfação por rever a esposa - tomada a força, é verdade. Caminhando lentamente em direção à cama, continuou dizendo, a voz poderosa como a Noite.* Quão tristes são suas palavras, minha querida, quando nelas deveria haver somente jubilo. *Os olhos estavam negros. Inteiramente, isto é, não somente as pupilas, mas toda a cavidade ocular estava negra e isso era possível de notar-se enquanto Seth se sentava à cama, pegando a mão da deusa com ternura.* Você nunca entendeu... nunca. Por eras eu estive... aqui. *suspirou, olhando para todo o quarto do hospital como se fosse verdadeiro microcosmo do universo, do plano físico.* ...isso é uma prisão. A prisão a que Hórus me condenou. Sozinho. Sem ninguém. *Os olhos se voltaram para a íris azulada da deusa e ela poderia sentir que aquela escuridão estava focada nela inteiramente.* A ironia é que... por algum motivo, prenderam-na também. E há outros que foram aprisionados. Para mim, é alegria. Para você, é tristeza. *Levantou-se, dando a volta vagarosamente na cama até a janela para olhar a noite.* Portanto... não me venha com palavras tão tristes quando eu sou o motivo de sua alegria. "O primeiro é o final", está escrito em Abu Simbel. O preferido de Rá *(Ramsés II)* lá escreveu. Eu sou o Primeiro, Ísis. Eu serei o final do tormento deste plano. Do seu tormento. *Inspirou profundamente, como se lamentando a condição a que se achavam os deuses submetidos. Não pôde deixar de admirar sua ex-esposa. Sua beleza era eterna, como preconizado nas paredes dos velhos templos. Aproximou-se lentamente, preparado para ser repelido. Ísis não entenderia. Não se lembrava, acaso, do quão expurgado, do quanto sofria Seth, do jugo impiedoso e da crueldade de Osíris para com ele? Ele se levantara contra o irmão que o humilhava. Não era compreensível, afinal? Somente Mâat compreendia, a deusa da Justiça e da Harmonia. Somente ela. Mas Mâat... onde estava Mâat?* Eu esperei demais... *Aproximou-se lentamente da cama, inclinando-se sobre Ísis.* Esperei demais para que se levantasse. Eu... *E, perto o suficiente para que Ísis sentisse sua respiração, sentiu o cheiro de Kalanit.* Não há nada para tirar de você, Ísis, porque já lhe tiraram tudo. *E tocando-lhe a carne tenra do braço mortal da deusa, concluiu.* Mas não fui eu quem tirou. Foram eles. *Apontou para cima, discretamente.*
*Isis ficou calada enquanto Seth falava. Seus olhos se mantinham baixos, fitos no piso branco daquele quarto frio. Sentia frio naquele lugar estranho. Sentia-se frágil, dentro daquela prisão feita de carne delicada. Apertou teimosamente os lábios, como se estivesse decidida a não falar. Afastou o braço do toque dele, recuando um pouco.* Você ainda diz que não me tirou coisa alguma. Foi você quem começou tudo isto. *Com um movimento de impaciência, a deusa arrancou a agulha que tolhia seus movimentos e começou a andar pelo quarto. Estava descalça, e os cabelos longos esvoaçavam com a rapidez de seus passos.* Você, com seu ódio, sua inveja. Você tinha de destruir a felicidade de Osíris, e com ela, a minha. Não venha me dizer estas palavras vazias, dizer que... que você será o fim do meu tormento, que devia ser o motivo de minha alegria. Você matou meu marido, e tomou-me à força. E por que, em nome do sagrado Sol, por quê? Eu, eu nunca... *Ela pausou, e inspirou fundo.* Eu nunca compreendi você plenamente, Seth. Não vou mentir. Talvez não tenha me esforçado o bastante. Mas nunca o maltratei. Talvez tenha sido omissa em relação às atitudes de Osíris, mas ele era o meu marido, eu lhe devia respeito, obediência. E a você... A você eu devia o tratamento de uma irmã. Apenas isso. Mas você queria mais, e isso foi a nossa perdição. E você ainda vem me dizer que não foi você quem me tirou o que tinha?
*Calado, olhando a cama, Seth alisou o lençou com as marcas do corpo quente que prendia Ísis. Podia sentir o calor que ali imprimira enquanto a escutava como catalisador de todo o mal em sua existência.* Destruição... caos... *começou baixinho, sem a olhar, sem coragem de olhá-la nos olhos azuis.* Ira. Desordem. Sou o que sou, Ísis. A minha existência é essa. Essa é a minha essência, pois assim fui feito. Não escolhi ser cruel. Não escolhi ser bom. Sou o que sou. E desde a eternidade, lutei contra ela. Ou você acha que sou burro o suficiente para cometer o mal, ser punido e cometê-lo novamente, contra todas as probabilidades de vitória? *E era verdade. Antes da queda de Alexandria, Seth tentou expulsar o mal de suas entranhas, criando uma entidade outra. O episódio não foi feliz, é claro, vez que, como Seth bem compreendera, o mal era de sua essência. O máximo que conseguia era mitigá-lo, o que parecia ter feito, já que, noutros tempos, teria destruído todo o hospital apenas para conversar com a deusa, como era de costume fazer um deus sempre que entrava em um lugar qualquer, tal qual um tornado que assola um templo ou um sujeito estabanado que entra numa loja de cristais.* Acima de nós, Ísis, há o Primeiro. O Único Acima. Os escravos estavam certos, afinal. Há um Único Deus. A origem primeira, a fonte de tudo. E assim eu fui feito. Por algum motivo que só Mâat compreende. Talvez seja desígnio d'Ele, talvez não. Mas você sabe... *Agora, os olhos negros exaravam tristeza e dor verdadeiramente profunda, captável somente pelos sentidos de um ser de aura divina, como Ísis.* Sabe o que é ser o Braço d'Ele? A Punição d'Ele? A minha existência não é nada a não ser dor, destruição e ódio. Que outra essência eu poderia ter, Ísis? *Levantou-se, súbito.* Você fala de dor! Mas não faz idéia do que é ser chamado de fraco pelo próprio irmão por tentar negar a sua própria natureza! Tentar negar a missão que lhe foi dada, tentar... tentar evitar destruir o próprio irmão e falhar!!! *Agora, Seth parecia exasperado. Lá fora, a enfermeira que lhe servia assoviou distraidamente, tentando sufocar a voz que se elevava. Sobre o hospital, nuvens pareciam rodear furiosamente o prédio, como se formassem o olho de um tornado.* Eu matei Osíris e ganhei sofrimento por toda a eternidade!!! OS MEUS ME JOGARAM NA PRISÃO ETERNA!!! NESTE CORPO!!! *estrondo poderoso de um raio explodiu, iluminando todo o hospital. Então o silêncio. Seth arfava e balançava a cabeça enquanto as nuvens se dissipavam.* Você diz que eu comecei tudo, afinal. Só eu posso terminar.
*Ísis ficou em pé, calada, enquanto Seth falava. Uma tempestade semelhante àquela que se formava lá fora rugia dentro de Ísis, mas ela a manteve sob rígido controle enquanto o deus falava. Quando ele se calou, foi a vez dela de perder o controle.* TUA ESSÊNCIA! Maldita seja a tua essência, e tudo o que há em ti. Maldito sejas tu sob o Sol e sob a Lua, na cidade, no campo ou no deserto! Malditos sejam teu sono e teu despertar. Malditos sejam teus começos e teus finais, tuas entradas e tuas saídas. Maldito seja o solo em que pisas, e todos aqueles que contigo se associam. *Ela proferiu aquela maldição lentamente, os olhos agora negros de fúria.* Tua essência. Uma essência que só destrói. Queres que compreenda tua essência? MINHA ESSÊNCIA ERA MINHA FAMÍLIA! *Gritou a deusa, novamente furiosa. Os vidros da janela do quarto explodiram, mas ela não lhes deu atenção.* E TU A DESTRUÍSTE! POR ÓDIO, POR INVEJA, POR CIÚMES! SENTIMENTOS BAIXOS, INDIGNOS DE UM DEUS! *Parou por alguns segundos, mas apenas para recuperar o fôlego e voltar a gritar. Neste instante, a enfermeira abriu a porta e começou a dizer alguma coisa, mas a um movimento da mão de Ísis, a porta se fechou novamente.* E NÃO CONTENTE COM ISTO, TOMASTE-ME À FORÇA! DIZIAS QUE EU ERA TUA ESPOSA! DEVIAS DIZER ANTES TUA MERETRIZ! *Fechou os olhos por alguns segundos, mas a tempestade ainda não acabara.* ESPOSA! ESPOSA É ALGUÉM COM QUEM SE FORMA UMA FAMÍLIA! ALGUÉM A QUEM SE AMA! ÉS INCAPAZ DE AMAR, SETH! E LOGO A MIM FIZESTE ISSO! A MIM, QUE FUI A ÚNICA PESSOA EM MEU LAR QUE NÃO TE EXPULSOU COMO UM CÃO! E ESTA FOI A PAGA QUE RECEBI! MATASTE MEU MARIDO, E TERIAS MATADO MEU FILHO SE EU NÃO O TIVESSE DEFENDIDO! SEQUER FOSTE CAPAZ DE... *A voz da deusa se apagou, e os olhos da mulher voltaram a ser azuis. Ela olhou em volta, espantada.* O que... o que aconteceu? *Sussurrou, a voz rouca de tanto gritar. Obviamente, ela não se lembrava de ter gritado, ou de qualquer outra coisa. As forças de Ísis, ainda reduzidas, não lhe permitiram dominar a consciência de Samantha por mais tempo.*
*Os olhos ainda latejavam de ódio, negros como a noite, quando Samantha recobrou a consciência. Isto é, quando as memórias de Ísis foram sufocadas pela consciência hodierna da prisão a que fora submetida. Seth virou o rosto para a janela espatifada para que Samantha não o visse em sua essência. A enfermeira finalmente conseguiu abrir a porta; setita que era, as presas estavam à mostra prontas para avançar em Ísis, crendo ter ela exterminado o pobre servo de Seth que fora visitá-la - já que a enfermeira ignorava a condição de Seth. Felizmente, do mesmo molde que Ísis fizera, Seth bateu a porta na cara da enfermeira tão logo ela a abriu. Para Samantha, é claro, a porta bateu sozinha.* Você nunca saberá... *começou ele, cansado.*...o que eu passei. Mas eu cuidarei de você, ainda que me odeie para sempre, e a libertarei. *Samantha não entenderia uma única palavra, é claro. Mas as palavras ecoariam ali e, hora ou outra, Ísis as ouviria ou delas se lembraria, quando despertasse novamente. Falar com Ísis talvez fosse como falar com alguém em coma. De algum modo, ela sentiria. Não seria de todo inútil falar volta e meia com Samantha como se falasse diretamente com Ísis, pensa-se.* Samantha, você desmaiou... e eu a trouxe para cá. *Disse, distraidamente, agora os olhos já negros como a noite, mas somente a íris, como Samantha bem o conhecera. Seth sorria, mas estava cansado, como se as palavras de Ísis tivessem lhe tirado as forças. Sua ira fora represada. Mas alguém a sentiria ainda nesta noite. Talvez alguma ilha qualquer na Oceania.*
*A morena ouviu as palavras dele sem entendê-las, mas ficou calada. Ainda estava confusa, e ofegava sem saber porque. Toda aquela gritaria lhe havia tirado boa parte do fôlego. Levou um sustinho quando a porta bateu, e olhou em torno do quarto. Respirou fundo. Viu os vidros quebrados, o suporte de soro arrancado de seu braço, a cama desfeita. Foi até o leito e se sentou, pousando as mãos sobre as pernas.* Eu não me lembro. *Murmurou, suavemente. Limpou a garganta dolorida. Respirou fundo.* Mas obrigada por ter me trazido até aqui. Não era necessário que tomasse tanto trabalho por minha causa. *Passou uma mão pelos cabelos úmidos de suor e se deitou, cansada. Só então fitou mais atentamente o rosto de seu patrão.* O senhor também não me parece muito bem. *Comentou, ainda sussurrando. Levou uma mão ao pescoço por alguns segundos. Depois, sorriu palidamente. A expressão de seu rosto era a de uma criança que esperava levar uma bronca, quando falou.* Quando eu sair daqui, vou receber o bilhete azul, não vou?
É claro, querida, vai receber, inclusive, pelo maravilhoso trabalho que fez no meu apartamento. Tão maravilhoso que estou pensando seriamente em prolongar o contrato, se for da sua vontade, pois tenho outros imóveis que gostaria de... personalizar. *Seth parecia ter recuperado a vivacidade à medida que falava. Difícil dizer se havia se restaurado por completo ou se apenas disfarçava, mas agia naturalmente, como se fosse absolutamente normal janelas de vidro se espatifarem em hospitais. Nesse momento, a enfermeira abriu, calmamente a porta, enfiando a cabeça curiosa para constatar que tudo estava bem. Olhou para o quarto todo em frangalhos e disse, rouca.* Hum... vou mandar alguém limpar... é. Já venho. *E sumiu pela porta. Seth continuou parado, fitando Samantha. Podia sentir a ondulação da aura de Ísis, como se fosse uma bomba a explodir a qualquer instante. A qualquer instante Ísis despertaria numa nova onda de fúria. Maldição, aquilo haveria de ser algo com a qual Seth deveria se acostumar.* Mas não precisamos falar disso agora, querida. Acha que está pronta para ir para casa? Tem lugar para ficar? Já sei. Como não uso o apartamento em Londres, pode dormir nele esta noite - sem se preocupar em decorá-lo, por favor! Acha que está do seu agrado? *O apartamento tinha quase 400 m² e Samantha o teria todo para si para descansar. Uma boa proposta, sem dúvida.* Venha, eu a levo, se quiser. Meu carro está lá fora.
*Samantha concordou com a cabeça quando a enfermeira disse que mandaria alguém para limpar os vidros espatifados. Ainda não entendia como aquilo havia acontecido, mas não tinha vontade de fazer perguntas no momento. Respirou fundo, cansada, e refletiu sobre a proposta de seu patrão. Depois de alguns minutos de silêncio, os lábios contraídos como ele vira Ísis fazer, a morena assentiu, aceitando a oferta. Aceito, apenas porque é mais perto que o meu apartamento. *Murmurou, erguendo o olhar para Seth. Algo brilhou rapidamente em suas íris azuis, mas ela continuou falando no tom normal.* Mas apenas com a condição de o senhor também ficar lá. Não me sentiria bem dormindo sozinha num lugar tão grande. Eu posso dormir na sala, sem problema algum. Só não quero ficar sozinha. *Com ou sem a concordância de Seth quanto ao ponto de ela dormir na sala, aceitaria que ele a levasse até o apartamento ainda não completamente decorado, mas habitável. Depois de colocar suas roupas, ajeitaria os cabelos e o seguiria até o carro. Ficaria numa das pontas do banco de trás, o mais encostada à porta possível. Ali, dentro do carro, ele podia sentir a essência de Ísis dominando novamente. No entanto, a deusa nada disse. Apenas ficou encostada onde estava, os olhos agora negros fitando as ruas por que passavam.*
*Foi em silêncio que Seth encarou uma das situações mais estranhas de sua existência. Foi calado durante todo o curso percurso do hospital Saint Mary até o seu apartamento, sentado no banco de trás, ao lado de Samantha. Sabia que Ísis ia e vinha e podia senti-la, dominando novamente aquela íris azulada. Era como se ambos fossem prisioneiros - bom, em verdade, eram - mas iam calados. Bom, pelo menos ele ia calado. Subiram o elevador e Seth evitava olhar para a íris de Samantha com receio de ali encontrar sua ex-esposa. Não era à toa que ouvia homens reclamarem de ex-esposas... Seth só falou quando entrou no apartamento. O lugar era amplo o suficiente para uma briga, mas certamente não amplo o suficiente para um debate divino.* Eu não durmo. *Disse, simplesmente, de costa para a deusa.* Mas você precisa dormir. *Porque, afinal, diferentemente de Seth, Ísis reencarnara num corpo mortal, numa prisão que, quando perecesse, ressurgiria, noutro corpo. Seth era o deus vivo, amaldiçoado e aprisionado, condenado a não morrer. Ao menos Ísis tinha o benefício da morte, mas não deixava de ser prisioneira.* Já se perguntou por que está aqui? *Falou em inglês, fitando Samantha. Se Ísis estivesse assumido totalmente, entenderia o recado: a pergunta se traduzia em "Por que está aprisionada, se seu filho é o deus supremo dos deuses, agora?". Se Samantha ainda estivesse ali, isto é, se a deusa não tivesse assumido totalmente, entenderia apenas a pergunta como uma indagação acerca do motivo de estar em seu apartamento.*
*Os olhos negros deixavam claro para Seth quem estava no comando ali. Ainda assim, a deusa sentia as mazelas de sua prisão mortal. Estava cansada. Respirou fundo, indo se encostar a uma janela que abriu, deixando o ar entrar. Ficou olhando a cidade por longos momentos. Também não parecia ter interesse em olhar para Seth.* Sei que não. Não precisa. Mas deveria experimentar. É muito bom. *Falava, evidentemente, sobre dormir. A ponta da unha da morena traçava desenhos invisíveis no vidro da janela. Pensou nos vidros quebrados no hospital, nas brigas, na maldição lançada. Voltou-se finalmente para Seth.* Não sei. Talvez eu tenha expiações a cumprir. *Comentou, movendo graciosamente os ombros, como se se desfizesse daquela indagação.* Há tantas indagações que não possuem necessariamente respostas racionais. *Murmurou. Parecia bem mais calma do que antes. Como, por exemplo, por que me tomou à força depois de matar Osíris? Você tem uma explicação racional para isso? *Apesar do tom suave, o olhar não pedia, mas exigia aquela resposta. As mãos da deusa, atrás de si, agarraram firmemente o batente da janela, enquanto ela esperava pela resposta de seu ex-cunhado e ex-marido.*
*O ar que entrou era londrino e, portanto, de um frio cortante. Seth não falava, agora, como um deus. Não havia a ira de mil eras em sua voz, nem a vastidão da escuridão. As palavras saíam como devem sair: humanamente audíveis. E em inglês.* Feh... eu durmi uma vez. Quando Osíris arrancou-me a cabeça por ter salvo duas almas inocentes do Devorador de Alma. Lembra-se do procedimento? *Seth se referia ao julgamento. Quando uma alma descia ao submundo, era julgada por Osíris - hoje, por Anubis - num julgamento que consistia em colocar o coração do infeliz numa balança. Num dos pratos, o coração. Noutro, uma pena. Se o coração fosse mais pesado que a pena, sua alma era entregue ao Devorador de Almas e destruída para todo o sempre.* Osíris tinha o mal hábito de colocar uma pena literal. Felizmente, Anubis foi mais sábio, ouvi dizer... *Suspirou.* Durmi por setenta e duas luas até que, por algum motivo, me permitiram caminhar novamente. *Achou que ia acabar chegando às lembranças de dor e sofrimento novamente, catalisadores de sua ira, e resolveu parar de falar. Falar mal de Osíris na presença de Ísis não seria sábio. Nem sabia se a deusa estava a par das atitudes do marido no submundo, que governara como um tirano. Em verdade, todos os deuses o faziam, é claro. Mas não era bom falar de Osíris. Não agora. Por isso, calou-se por alguns instantes antes de admirar Samantha Ísis na janela aberta.* Você era a mais bela das criações do Único Acima. Nem Bastet, a desejada, que me desejou somente porque eu NÃO a desejava, fazia jus a você. O amor que meu irmão te deu resumiu-se a uma benção de nome Hórus, que veio a me odiar. Mas como... *não, não ia falar das concubinas de Osíris. Raios, prometera a si mesmo há pouco não mencionar o irmão destruído. Provavelmente, Ísis de nada sabia das amantes.* Eu achava que poderia oferecer-lhe o amor e a felicidade. Queria fazê-la feliz para compensar-lhe a desgraça. Mas vejo que falhei. *Esperou uma reação violenta da deusa. Mas não deixou de aproximar-se.* Está frio Deixe-me arrumar um casaco para você ou algo que lhe aqueça.
Não falemos nisso, Seth. *Pediu Ísis, com um suspiro. Estava evidentemente cansada, seu corpo humano cobrando seu tributo. Os olhos continuavam negros, no entanto. E calmos. Estranhamente calmos. Inspirou lentamente, ouvindo as palavras do deus. Não respondeu em inglês, no entanto. Respondeu na língua que sempre usava.* Ainda que o amor de Osíris se resumisse a gerar dentro de mim a vida do meu filho, não seria isso o bastante? Ele fez algo que tu não foste capaz de fazer. Porque não me amavas, realmente. *Deu de ombros quando ele falou do frio.* Não importa. Não estou com frio agora. *Murmurou, vagamente.* E estás enganado quando dizes que o amor de Osíris se resumiu a isso. Fomos felizes, juntos. Não havia um desejo meu que eu não visse satisfeito, enquanto estava ao lado dele. Ele conhecia o meu coração, e a minha alma. Ele se interessou em conhecê-los, e não apenas em possuí-los, embora fossem dele. Tu só me quiseste possuir, como uma propriedade. Creio que minha atração residia na possibilidade de tirar algo de Osíris, mais do que em minha beleza ou em meu amor. Estou enganada?
*O deus da destruição e do caos pareceu genuinamente ofendido.* Está enganada! Como pode dizer semelhante coisa? As eras de intrigas te envenenaram enquanto eu vagava na prisão de carne em que me acho? *Seth se afastou, zangado. Não estava zangado com Ísis, é claro, nem tinha razão para estar. Não sabia o que ela tinha ouvido e nem a culpava. Afinal, tinha plena ciência que destruíra seu marido e a desposara à força. Também tinha ciência que o período em que permaneceram juntos foi mínimo, sobretudo à ótica divina, tempo curto demais para que ela tivesse noção ou conhecimento perfeito da essência de Seth. Sentou-se na poltrona, tal qual um deus em seu trono, sua sombra projetando-se lateralmente por conta da luz da lua que entrava pela janela aberta. A sombra tinha a forma de um enorme chacal, malgrado a forma de Seth fosse humana.* Eu a amei. *Disse, por fim.* Eu a amei como nenhum outro deus a amou. Por que acha que poupei Hórus? Já pensou a respeito? Ele era uma criança e eu, à época, não era do tipo de sujeito que destruía o deus do submundo e deixava o filho para levantar-se e vingar-se. Não, Ísis. Eu o poupei porque a amava. Não espero que compreenda. Não espero que tenha piedade, tampouco espero o seu perdão porque sei que nunca o terei. O que eu fiz está feito. E eu o faria de novo. Eu o faria de novo para sentir o teu gosto, para livrar-me da destruição e da humilhação a que era submetido. Faria de novo para fazer a Justiça de Mâat. Faria de novo porque era o que eu deveria ter feito. É assim que começou, como você bem disse. Maldito ou não, esta... *e abriu os braços, sentado na poltrona.* É a minha sina. Eu não sei porque você também está aqui, mas vou libertá-la. Por amor. E vou libertar-me. Por vingança. E torça, Ísis, para que eu ainda a ame o suficiente para não esmagar o seu filho quando eu sair daqui, ou reze com todas as forças para que nem eu, nem você saiamos dessa prisão. *Não esperava piedade, nem perdão, como dissera. Esperou a explosão furiosa de Ísis. Não sabia como a deusa reagiria. Nunca fora tão direto antes. Nunca tivera tal possibilidade.*
*Ficou calada, pensativa. Olhava para Seth com atenção. Depois de alguns segundos, foi até a bolsa de Samantha e buscou algo. Encontrou um lápis negro, e foi até um espelho que a decoradora pusera na sala. Sem olhar para o deus, pintou os olhos à moda egípcia, quase distraidamente. Voltou-se depois para Seth. Andou até a poltrona onde ele estava e sentou-se no braço do móvel. Respirou fundo.* Então, mostre-me. *Começou, suave.* Mostre-me quem você é verdadeiramente. Não pelo uso da força. Consiga o que quer de maneira honesta. *Sacudiu a cabeça.* Não é justo que use meu filho como moeda de troca para obter meu favor. Você não o matou porque não quis matá-lo. Foi uma escolha sua. As razões não importam. Não diga que não o fez por amor a mim. Você nunca soube me amar. Nunca me deu o que eu tinha antes. Talvez tenha me dado tudo o que soube dar. Mas não foi o bastante. *Levou uma mão até a nuca do deus, acariciando-a. Sem pressa, e sempre pronta a recuar caso ele desejasse.* Nós sairemos de nossa prisão, eu sei que sim. E então, podemos nos digladiar até a destruição final, ou nos aliar e reconstruir nosso reinado. A escolha será sua, Seth.
*De fato, não era essa a reação que Seth esperava de Ísis. Não conseguia captar na deusa nenhum sinal de traição ou resquício uma intenção segunda, visando destrui-lo. Não que fosse fazer grande efeito, afinal de contas, Ísis estava engaiolada, Seth estava poderoso - considerando-se que, dentre os deuses que caminhavam sobre a Terra, ele era o único que não estava aprisionado nos mesmos moldes que os demais - e, ainda que Ísis o golpeasse, fugisse, ou qualquer coisa parecida, estaria ela reduzida a um corpo - belíssimo, salienta-se - mortal. Mais cedo ou mais tarde, Seth sairia. Possivelmente, Ísis estaria usando-o para sua libertação e tão somente. Mas, ainda que assim fosse, desfrutaria de sua ex-esposa, a quem verdadeiramente amou, e mostraria a ela que ele, Seth, tinha suas razões ou, pelo menos, faria com que a deusa o entendesse melhor.* Seus olhos... *sussurrou, observando a maquiagem egípcia que tanto apreciava.* Seus olhos exalam a essência daquela que amei. *Tomou para si a outra mão de Ísis e a beijou ternamente.* O tempo dos homens na Terra não é como o tempo dos deuses. Você vislumbrará todo o amor que sinto por você e verá que, libertos ou não, jamais me digladiaria com você. *Deixou-se acariciar por alguns instantes de fitá-la novamente, aquela vastidão poderosa que o tempo não conseguiu apagar nos olhos de Samantha, completamente entorpecido pelo encantamento, os lábios cujo calor quase podia sentir. Desejava-os. E isso foi algo interessante. Seth vivera conscientemente na Terra por milênios. E amara muitas mulheres. Isto é, fizera sexo por vezes incontáveis. Mas Ísis... bem. Seth se lembrava bem de sua condição divina. Desposar uma deusa consistia na atitude sem graça de sentar-se ao lado dela e amá-la, simplesmente, atentendo às suas vontades. Fazer um filho numa deusa, por sua vez, não era mais interessante: apenas a vontade divina e o toque com o dedo indicador em seu coração fazia já nascer a faísca da criação, centelha cedida pelo Único Acima. Ísis, a deusa, nunca tivera uma experiência sexual, concluiu. Bem, pelo menos, não consientemente, não "pilotando" um corpo mortal. É claro que sua feminilidade a guiaria e a própria experiência de Samantha. Mas e a percepção? Certamente, Ísis, como deusa, poderia sentir, captar o amor de Seth no ato sexual. Não que fosse grande coisa, mas pelo menos seria uma experiência inteiramente nova para uma entidade que assistiu à evolução humana de longe, sobre um trono de luz.* Eu... não quero que se vá agora que a tenho... mas temo que nossa liberdade faça com que me abandone...
*Deixou que Seth beijasse sua mão. Já havia percebido que precisava dele para dominar aquele corpo. Se precisava dele, então, dele se serviria, dando-lhe em troca algo que ele desejava. Era assim que Ísis pensava - devia-se dar para receber. Suspirou. Olhou bem dentro dos olhos de Seth.* Eu não o abandonarei, se você me der o que quero. *Suspirou outra vez.* Sua essência é o caos. A minha, a família. A maternidade, mais propriamente. Só fui mãe uma vez. É pouco, para a minha natureza. *Inspirou fundo. Mordeu o lábio inferior.* É isso o que eu te peço em troca da minha companhia eterna. *Falava baixinho, sempre olhando para Seth. Era fácil ver em seus olhos uma espécie de carência. Nascera para isso, para ser companheira, esposa e mãe, e desde que aquele corpo em que estava aprisionada já há vinte e sete anos amadurecera, sentia o desejo de ter um filho nosbraços.* Faça isso por mim, Seth. Como deuses, não estamos presos às leis deste frágil corpo mortal. Se o seu amor por mim for verdadeiro, ele dará frutos. Se não, ele será estéril como as areias do deserto. É assim que eu saberei se me diz a verdade ou se mente. *Ela se levantou da poltrona e parou em frente da mesma. Lentamente, se despiria, peça por peça, expondo aquele corpo moreno e belo aos olhos do deus que, sabia, tanto a desejava.*
*O chacal virou a cabeça. Não era propriamente um chacal, mas eis como Anubis parecia aos olhos de Néftis. Ele não disse nada enquanto contemplava a vastidão do deserto, um deserto escuro, sob um céu roxo. Néftis, sua mãe, achava-se ao seu lado e não parecia contente. Ela não detinha uma forma, é claro. Nem ele, daí a razão de não ser propriamente o chacal, mas uma mera analogia emblemática. Deuses que eram, classificavam-se mais por essência do que por forma. Néftis estava exasperada.* Ele é seu pai! Temos que fazer alguma coisa! Ele... você admitirá? Eu não admito! Seth é meu! Meu por direito! Quero acesso àquele plano para impedir essa ofensa! Dê-me, eu ordeno, sou sua mãe! *Mas Anubis continuava calado. Sabia que a mãe não valia muita coisa. Sabia que ela se vendera a Osíris bem antes de sua destruição, que desprezava Seth e que considerava seu casamento uma vergonha, vez que ele, Seth, era um pária. Sabia que fora concebido no ventre de Néftis não pelo amor, mas pela vontade de Mâat, a deusa do equilíbrio e justiça - e, justamente por isso, por nascer da justiça, tornou-se o Último Juiz, no Submundo. Sabia também que o que Néftis queria não era impedir que Seth e Ísis gerasse uma criança. O que ela tinha era inveja. Inveja de um amor que nunca possuíra, inveja de uma relação que nunca poderia ter porque, como deusa, nunca experimentara o ato sexual, nem nunca poderia fazê-lo. Somente os exilados poderiam e bênção era só mais um engodo do universo para fazer com que os exilados se esquecessem que a felicidade que sentiam era passageira, mas a prisão eterna. Foi com um ódio maior do que o de Seth quando da destruição de Osíris que Néftis deixou seu filho sozinho, no deserto, e foi ter com quem pudesse impedir tal afronta. Néftis não queria que Ísis e Seth desfrutassem de um prazer, ainda que puramente terreno e fugaz, que ela não poderia desfrutar. Não queria ambos os deuses juntos deleitando-se em júbilo carnal. Foi com rancor que ela se retirou. Mas Anubis... Anubis sorria.* Se a minha carne tocar a tua carne, Ísis... *começou Seth, levantando-se lentamente da poltrona e, agora, parecia maior. os sentidos apurados, tal qual um animal que circunda a presa, Seth podia sentir o cheiro da fêmea, a aura da deusa e a nudez fez com que seu corpo mortal reagisse instantaneamente: os músculos se retesaram, o membro enrijeceu e um sorriso faminto aflorou em seu rosto. Mas o olhos, os olhos ainda estavam receosos.* Será diferente de tudo o que você já experimentou, será esquisito, será... *completamente vestido, ainda, aproximou-se da deusa e acariciou seu rosto, sentindo-lhe o calor. O corpo todo roçou no corpo nu de Ísis e lhe falava tão próximo que o hálito gélido de Seth podia ser sentido.* Eu sou o deus da destruição, o deus dos céus do norte, o deus da guerra, do caos e da desordem. Nosso fruto será de carne e poder, mas não posso predizer que dom recairá sobre ele: tua beleza e grandiosidade, ou a minha maldita natureza. E eu temo por isso. *Mas o corpo, o corpo mortal já agia por si só, os lábios próximos o suficiente, prestes a encostar nos de Ísis...*
*Ísis ouviu, calada, enquanto Seth falava. Parecia muito calma agora, como alguém que cumpria seu destino sem pestanejar, sem pensar duas vezes. Baixou os cílios negros ao sentir a mão de Seth em seu rosto quente. Inspirou devagar e soltou o ar, também lentamente. Seu corpo jovem e moreno ansiava pelo dele, de forma que ela nunca sentira antes.* Eu sei. Meu corpo é mortal, o seu é imortal. Mas quantos deuses já copularam com mortais? Por que só a nós seria isso vetado? *Ela abriu os olhos, fitando os de Seth, lendo o receio nos dele. Sorriu, um sorriso manso.* Não se preocupe. *A mão direita dela foi até a camisa dele. Começou a abrir os botões, um a um.* Confie no meu julgamento, desta vez. Nada vai dar errado. *Roçou o nariz bem feito pelo maxilar do deus, inalando-lhe o cheiro.* Você é destruição; e eu, criação. É assim que gira a roda da vida, coisas e pessoas se destruindo para que outras sejam criadas. Como você vê, não estamos tão distantes. *Acariciou o pescoço dele, raspando-lhe a pele com as unhas, sem ferir.* Nosso fruto será o que tiver de ser, Seth. Será o que for seu destino. E eu cuidarei dele. Eu o ampararei, o ensinarei a domar sua natureza, se ela for destrutiva. Eu o protegerei de si mesmo, se ele não o puder fazer. *Retirou a camisa dele e deixou que caísse ao chão. Suas mãos quentes, agora, deslizavam pelo tórax do deus, sem pressa, sentindo a solidez dos músculos.* Apenas me ame, Seth. Como sempre desejou. *Sussurrou, os lábios roçando os dele, oferecendo-se como uma fruta madura encostada a lábios famintos.*
*As cicatrizes do corpo haviam desaparecido há mais de mil anos, cicatrizes oriundas de batalhas ainda mais antigas, guerras em que o próprio deus lutara. Seth destruía a noite para que Rá iluminasse pela manhã, dizia. Ele era a linha de frente dos deuses. O braço esquerdo do Único Acima. Mas não havia vestígio de guerra em seu corpo. A musculatura absolutamente firme de Seth pulsava à medida que as unhas de Ísis lhe arranhavam o peitoral. Ela estava certa, afinal, definira tão perfeitamente a essência de ambos que o deus se deixou conduzir pela carne quente de Ísis, esquecendo todo e qualquer receio acerca das consequências de seus atos. Não disse, nada, nem poderia: desfrutava do hálito da deusa, sentindo-lhe o calor. A língua de Seth se moveu primeiro pelos lábios e, depois, massageou a língua de Ísis, beijando-a calidamente. Uma sensação esquisita percorreu o seu corpo, absolutamente diferente de qualquer outro beijo, de qualquer outro lábio que já provara na Terra. Era como se sua alma resvalasse diretamente na de Ísis e, fisicamente, como se uma corrente elétrica mínima percorresse suas entranhas, indo e vindo daquele corpo nu e delicioso que se achava à sua frente, oferecendo-se-lhe. Não podia dizer mais nada mesmo, sobretudo porque, enquanto a beijava, sentido-lhe o corpo todo, o membro rijo insinuando-se sob a calça e esfregando-se nas coxas macias de Ísis, as mãos fortes deslizavam, a direita pelo corpo da deusa, a esquerda contra a sua nuca, intensificando o beijo. A camisa já se perdera, em algum lugar. Ainda estavam na sala, pensava, mas não tinha foco suficiente para providenciar uma cama ou levar Ísis para o quarto. Amaria-a ali mesmo, ávido de desejo. Os olhos estavam absolutamente negros. Ísis faria amor com Seth, o deus vivo, afinal. Mordeu os lábios da deusa, sussurrando.* Esta noite, você será minha como nunca foi de ninguém...
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