terça-feira, 24 de novembro de 2009

21-11-09 - Isis e Seth

*As cicatrizes do corpo haviam desaparecido há mais de mil anos, cicatrizes oriundas de batalhas ainda mais antigas, guerras em que o próprio deus lutara. Seth destruía a noite para que Rá iluminasse pela manhã, dizia. Ele era a linha de frente dos deuses. O braço esquerdo do Único Acima. Mas não havia vestígio de guerra em seu corpo. A musculatura absolutamente firme de Seth pulsava à medida que as unhas de Ísis lhe arranhavam o peitoral. Ela estava certa, afinal, definira tão perfeitamente a essência de ambos que o deus se deixou conduzir pela carne quente de Ísis, esquecendo todo e qualquer receio acerca das consequências de seus atos. Não disse, nada, nem poderia: desfrutava do hálito da deusa, sentindo-lhe o calor. A língua de Seth se moveu primeiro pelos lábios e, depois, massageou a língua de Ísis, beijando-a calidamente. Uma sensação esquisita percorreu o seu corpo, absolutamente diferente de qualquer outro beijo, de qualquer outro lábio que já provara na Terra. Era como se sua alma resvalasse diretamente na de Ísis e, fisicamente, como se uma corrente elétrica mínima percorresse suas entranhas, indo e vindo daquele corpo nu e delicioso que se achava à sua frente, oferecendo-se-lhe. Não podia dizer mais nada mesmo, sobretudo porque, enquanto a beijava, sentido-lhe o corpo todo, o membro rijo insinuando-se sob a calça e esfregando-se nas coxas macias de Ísis, as mãos fortes deslizavam, a direita pelo corpo da deusa, a esquerda contra a sua nuca, intensificando o beijo. A camisa já se perdera, em algum lugar. Ainda estavam na sala, pensava, mas não tinha foco suficiente para providenciar uma cama ou levar Ísis para o quarto. Amaria-a ali mesmo, ávido de desejo. Os olhos estavam absolutamente negros. Ísis faria amor com Seth, o deus vivo, afinal. Mordeu os lábios da deusa, sussurrando.* Esta noite, você será minha como nunca foi de ninguém...

Eu pertenço a você, Seth. *Sussurrou a deusa, ofegante. Abraçou-o fortemente por alguns segundos, antes de se ajoelhar. Devagar, sem a menor pressa, os dedos finos e aveludados abriram e retiraram as calças dele, junto com qualquer peça íntima que ele porventura usasse. Contaria, claro, com a ajuda dele, para despi-lo totalmente, deixando o corpo dele tão nu e exposto como o seu. Nua, iluminada pela lua, andou até a imagem do Sagrado Rio Nilo. Olhou-a por longos momentos, antes de se voltar para Seth.* Um dia estaremos lá, novamente. *Murmurou, antes de atravessar a sala, com passos elegantes, e ir até o macio tapete colocado ali pela decoradora cujo corpo possuía. Deitou-se devagarinho, com movimentos lânguidos. Estava tão ávida quanto Seth por aqueles momentos de amor que se seguiriam, mas mantinha uma lentidão proposital em cada gesto. Os olhos fitavam os dele, com uma expressão entre desejosa e submissa. Não a submissão da fraqueza, mas a submissão da mulher que se reconhece diante daquele a quem pertence.* Venha, Seth. *Sussurrou, a voz macia vibrando no ar da sala.* Venha tomar o que é seu por direito... *Completou, num murmúrio quase inaudível.*

*Com cerca de 1,80m de altura, Seth parecia ainda maior nas sombras e seus olhos, ainda no escuro, brilhavam, refletindo a luz da lua. Assistiu em em silêncio Ísis admirar a imagem do rio Nilo e assentiu quando ela disse que um dia voltaria para lá. Ele poderia levá-la, é claro, quando quisesse. Bastava... ir. Mas sempre estaria naquela condição, naquela prisão. Entendera, contudo, a vontade de Ísis. E eles voltariam às suas condições anteriores, voltariam ao Nilo como deveria ser. Ele cuidaria para que acontecesse. Por ele. E por Ísis. Mas, agora, só pensava em deleitar-se com o corpo da deusa que se deitava diante dele. Farejou-a como um animal enquanto se deitava sobre ela, o peitoral definido a roçar os seios perfeitos de Ísis, e não pôde deixar de beijá-la mais uma vez, apaixonadamente. A mão direita deslizou pela lateral da mulher, dos seios à coxa e Seth a sentia como jamais ser possível senti-la. Era uma conexão literalmente divina, de carne e espírito. Jogou os cabelos negros para trás antes de beijá-la, agora, no pescoço, sentido-lhe a pulsação de um coração muito vivo, e depois os seios. Primeiro, beijou-lhes delicadamente. A língua roçou os mamilos, umedecendo-os.* O teu corpo, agora, é inteiramente meu... *sussurou com aquela voz divina, mas muito menos assustadora do costumeiramente, e continuou a beijar-lhe, descendo pelo ventre, cada vez mais.*

*Observava cada movimento do deus, os olhos negros brilhando vivamente. Dentro de seu ser mortal, sentia algum receio de como as coisas iriam ser dali em diante, mas sua natureza divina assegurava que tudo ficaria bem. Naturalmente, ignorava a turbulência causada em outro plano por aquela sua atitude. Mas ainda que soubesse, provavelmente não deixaria isso impedi-la. Lidaria com tudo depois, com a calma costumeira. No momento, só o que importava era aquele instante. Ela e Seth, finalmente unidos, desfrutando de um prazer que só pertencia aos mortais. Seth tinha razão. Foi diferente de tudo o que aquele corpo já havia sentido. Foi intenso, delicioso, perfeito... divino. Divino era a palavra. A cada movimento, a cada gemido, a cada estocada a deusa sentia a centelha divina se expandindo dentro de si. E quando, juntos, atingiram o clímax, aquele momento em que morte e vida pareciam se unir, a transformação se tornou completa. Ísis, a bela deusa, havia finalmente conseguido dominar aquele corpo, aquela frágil prisão mortal. Samantha Boyd finalmente fora assimilada, partilhando seus conhecimentos com a deusa que habitava em seu corpo. Agora, muitas coisas iriam mudar.*

*A noite fria eriçou os pêlos do corpo de Seth, que se achava inteiramente nu à janela. Lá embaixo, os carros iam e viam, alheios ao que acabara de acontecer, à fusão carnal e espiritual do deus da destruição e do fim com a deusa da beleza e do início. Fora sem dúvida nenhuma a melhor experiência que já tivera e, agora, olhava para o céu estrelado, esperando uma resposta, uma indicação das consequências do que fizera, uma resposta que não viria tão cedo. Ele é que teria que rasgar o véu da mortalidade e da carne para obtê-la, mas parecia tão longe de consegui-lo. Por mais que obtivesse sucesso, sempre havia um imprevisto. Agora, contudo, com Ísis ao seu lado, a ascensão parecia mais real. Virou a cabeça para dentro do apartamento, fitando o corpo lânguido da deusa no tapete. A carne macia e o gosto de Ísis ainda estavam em seus lábios, impregnavam o seu corpo.* Agora... *A voz poderosa que cortou o ar gélido da noite soou em egípcio antigo, mais antigo do que o falado por egiptólogos, mais antigo do que o utilizado pelo próprio Ramsés quando de Kadesh.* Bem-vinda, querida, ao despertar de nossa prisão. *A luz da lua o contornava, fazendo-o verdadeiro espectro, mas era possível perceber que seus olhos percorriam o corpo da deusa, admirando-a.* Sua consciência, agora, não mais a deixará. Isso tem suas vantagens, mas... você estará consciente da prisão em que se acha até que dela consigamos sair. Tem certeza da escolha que fez? Partilhar o seu destino comigo?

*Ísis continuou deitada onde estava. Olhava para Seth, a mente, agora aberta a todo o passado, revivendo cada momento de dor e felicidade de sua existência divina. Passou longos momentos calada, enquanto revivia tudo aquilo, até chegar ao ponto presente no tempo e no espaço. Sentou-se devagar, os longos e fartos cabelos negros formando um manto a suas costas. A pintura dos olhos havia saído. Não tinha problema. Trataria de refazê-la mais tarde. Ficou de pé, sentindo o frio de Londres, tão diferente do calor do Egito. Suspirou. Sentiu falta das areias de sua terra. Daria tudo para voltar, imediatamente. Mas sabia que não podia. Ainda não. Não enquanto não estivesse forte o bastante. Sabia que podia contar com a proteção de Seth, mas, poderia ele protegê-la de todos os ataques que lhe seriam dirigidos, ainda mais depois de ter violado um princípio divino? Duvidava disso. Não duvidava de que ele tivesse a coragem de combater cada um dos deuses por si, mas duvidava de que ele pudesse prevalecer sobre todos unidos. Aproximou-se do deus. Abraçou-o. Ergueu os olhos.* Estou certa da minha escolha. *Respondeu, na mesma língua que ele usara, a voz suave vibrando no ar da ampla sala.* Mas estou com medo. Medo do castigo que terei de enfrentar, quando voltarmos. *Murmurou, os olhos fitando os dele.*

*Seth suspirou, abraçando-a firmemente, inspirando-lhe o aroma de Kalanit e lembrando-se, como ela, da aridez do deserto e de como eram tão mais presentes naquele ponto da Terra do que em qualquer outro.* Não se preocupe... *disse, na mesma língua com a qual decidira se comunicar com Ísis, permanentemente.* Quando fui jogado aqui, fui tolhido de todos os meus poderes. Mas descobri que a limitação que temos é potestativa. Isto é, não podemos fazer uso completamente, mas continuam conosco, latentes. Entretanto, esta prisão nos ensina muitas coisas. E eu as aprendi. Quando eu ascender novamente - e eu vou ascender novamente - terei a força da Terra e a minha essência absolutamente restauradas. O meu destino é a destruição absoluta. O universo me proporcionará o necessário para que nada de ruim lhe aconteça, Ísis. E há outra coisa... *Afastou-se e procurou inutilmente por algum roupão ou vestimenta para proteger a deusa do vento cortante. Acabou por achar um edredon, cobrindo as costas da mulher.* Voce está aqui por algum motivo. Eu não sei o que tem se passado lá em cima, mas seu lugar não é aqui. Você está presa. Alguém te jogou aqui. E ouvi dizer que Thot, Bastet e outros também. Estão por aí, inconscientes de sua condição. Eu liderarei os exilados e destruirei o que deve ser destruído. Por ora, meus esforços se concentram em localizá-los, despertá-los e convocá-los. *Recordou-se da enorme rede setita de que dispunha, que era coisa pequena se comparada ao vasto império de putrefação que instaurara no seio da humanidade. Aquilo tudo haveria de servir-lhe aos propósitos, haveria de libertá-lo, afinal.* Não está cansada, querida? *Sabia que Ísis estava ali e que o sono não mais era necessário, mas o afeto o impelia a indagar mesmo assim, preocupando-se com a fêmea de que deveria cuidar de agora em diante.*

*Ficou calada, sentindo-se segura no abraço de Seth, apesar da confusão em que sabia estarem envolvidos. Suspirou quando ele a envolveu naquele agasalho, protegendo-a do frio. Abraçou-o novamente, a cabeça apoiada ao peito do deus.* Não sabe mesmo quem fez isso? *Sacudiu a cabeça.* Com os outros, não sei. Mas comigo, posso arriscar um nome sem medo de errar. *Murmurou. Referia-se, obviamente, a Néftis.* Não vejo que razão ela teria para jogar outros neste plano. Mas com certeza ela possui alguma. *Suspirou, roçando os cabelos despenteados no queixo de Seth.* Não estou cansada. Não muito, pelo menos. Ainda preciso aprender a dominar as necessidades deste corpo, antes de me encontrar inteiramente pronta para seguir seu destino. Só mais alguns dias, tenho certeza. Agora, sinto que tudo está retornando aos poucos. Mas ainda precisarei dormir esta noite. Amanhã, talvez não precise mais. *Ela se calou e pegou a mão direita dele, levando-o até o quarto. No cômodo, só havia a grande cama colocada ali pela jovem decoradora. A deusa se deitou graciosamente, pousando o edredon sobre o corpo moreno, e a cabeça sobre um travesseiro. Ajeitou-se de lado na cama, antes de pedir com o gesto que Seth se sentasse à beira do colchão. Quando ele o fizesse, pousaria uma mão sobre o joelho dele.* Estará aqui quando eu acordar?

*Seth considerou a possibilidade de Néftis ser a responsável pelo expurgo de um sem número de deuses. Conhecia bem a ex-esposa que seduzira Osíris e incendiara o confronto entre os irmãos. Era repleta de inveja e ambição, Seth bem sabia, já que ele era o deus que com essas coisas costumava lidar. Por isso, sobrou-lhe aquele trambolo, afinal. Néftis era inteligente, sabia portar-se diante dos outros e tinha aquela acuidade viperina que só os que tramam têm. Fora hábil o suficiente para sobreviver à catástrofe familiar assim entendida como o lançamento do marido à prisão eterna. Ela poderia ter perfeitamente maquinado o expurgo de Ísis porque sempre a invejara, a ela e a Bastet. Mas e quanto aos outros? Bem, não importava agora. Quando despertasse todo o seu poder, Seth destruiria, um a um, aqueles que atravessassem seu caminho. Seguiu Ísis até o quarto, assistindo-a a deitar-se e sentando-se na beira do colchão. Quando a mão da deusa pousou sobre o joelho de Seth, o deus a cobriu com ambas as mãos e, à pergunta, respondeu simplesmnte. * Sempre. *E esperou que adormecesse. Ele sempre estaria junto dela e sempre a amaria, ainda que ela não mais o quisesse. Assim deveria ser. De certo, agora que a deusa despertara, muita coisa mudaria. O universo, pensou, começou a se alinhar. Não sinto que a minha ascensão esteja assim tão longe, afinal. E acariciou os cabelos de Ísis, esperando que adormecesse. Não sairia dali por toda a noite.*

*Ísis suspirou e sorriu, satisfeita com a resposta de Seth. Também ela sentia que não precisaria se submeter aos ditames daquela prisão mortal por muito mais tempo. Só mais uma noite, disse para si antes de fechar os olhos. Não respondeu verbalmente a Seth. Não era necessário. Sentindo as carícias dele em seus cabelos, adormeceu, tranquilamente. Dormiu a noite inteira, apesar dos pesadelos que assombravam seu sono, tornando-o inquieto. Não despertou entre os sonhos, no entanto. Só despertou quando o Sol alcançou seu rosto. Abriu imediatamente os olhos, olhando o astro celeste. Sorriu preguiçosamente, descansada.* Bom dia, Rá... *Murmurou, voltando depois o olhar para Seth.* Bom dia. *Sentou-se devagar, deixando a coberta cair, e espreguiçou-se. Levou as mãos aos cabelos revoltos, arrumando-os um pouco. Não que precisasse fazê-lo. Sabia que não era necessário, mas preferia assim. A mão direita, ainda quente das cobertas, foi até o rosto de Seth em seguida. Inclinando-se, beijou brevemente os lábios do deus, aliviada por vê-lo ali como prometera.* Bom dia, Seth. Ficou sentado aqui a noite inteira? *Perguntou, tranquilamente.*

Fiquei. *Respondeu, simplesmente, beijando-a de volta. Levantou-se e seu sorriso esbanjava felicidade.* Foi tão maravilhoso, Ísis... acho que foi a primeira vez que fiquei mais do que duas horas sem trabalhar incessantemente para escapar dessa minha condição... e desfrutar desse tempo com você... voi maravilhoso. *Inclinou-se para beijar a testa da deusa que agora era inteiramente sua, traduzindo-se mais em verdadeira fusão de escuridão e luz. A verdade mesmo é que se sentia muito mais poderoso por algum motivo escuso. Não sabia bem explicar o porquê, mas tinha ciência de que a presença viva de Ísis lhe tornava mais forte. Talvez fosse somente em pensamento, mas quão forte, afinal, eram os pensamentos dos deuses?* Você mal acordou e ainda tem que dominar algumas coisas da natureza deste plano... *sentou-se, sério.* Eu vou explicar-lhe brevemente, mas é algo que você só vai dominar com o tempo, sozinha. Preste atenção... *Era engraçado, até, um deus das trevas andando para lá e para cá, preocupado em detalhar para Ísis todos os detalhes necessários, tudo o que lhe parecia importante. Era ver uma criatura absolutamente cruel e poderosa preocupada em cuidar de outra, não menos poderosa.* Veja, os princípios são os mesmos. A energia que movimento o Universo, como nós sabemos, é uma só. Portanto, é a mesma que movimenta o nosso plano e o plano desta... prisão. Nós, assim como tudo o que nos cerca, gozamos da mesma natureza, isto é, da mesma energia. Pela sua condição, você consegue manipulá-la, como bem fez ontem, no hospital. Mas para dominá-la completamente, você precisa ainda acostumar-se a este plano, acostumar-se a este seu corpo e entender que nós somos, afinal, uma única coisa. Só então... *começou a caminhar pela parede, demonstrando o que dizia. Não demorou para que ficasse de ponta cabeça, andando pelo teto.* Eu já tentei me desmaterializar, mas não deu muito certo... a materialização exige um cuidado que eu não tenho, sempre volto como uma massa de sombras e até conseguir reorganizar este corpo nos moldes de como deve ser leva um tempo. Contudo, consigo me regenerar com facilidade. Enfim... *Com uma acrobacia silenciosa, pouso no chão, diante da deusa.* As forças da Terra são incrivelmente mais fáceis de se manipular. Num combate aberto neste plano, eu certamente venceria meus inimigos imortais atualmente... *Calou-se. Os inimigos, afinal, tinham por líder Hórus, filho de Ísis. Aquela era uma situação delicada. Olhou para o sol, lá fora, que se erguia, e orou para que tivesse forças para que cumprisse seu destino. Por fim, conseguiu sorrir para a deusa.* Mas venha, querida. Vista-se. Eis que temos um império para administrar.

*Ísis ouviu, calada, as palavras de Seth. Entendia o que ele queria dizer, sobre as forças que regiam o Universo. Estava acostumada a lidar com ela, a manipular aquelas forças quando necessário. Mas não naquele plano, contida num corpo mortal. A exemplo dele, começou a caminhar pelo quarto, tentando colocar as ideias em ordem.* Sim, eu dei, sei que os princípios básicos são os mesmos, e que terei de aprender muitas coisas. Quero dizer, arrebentar uma janela foi algo que apenas aconteceu. Não planejei isso. Quero aprender a fazer coisas construtivas. Preciso... praticar, compreende? Quero começar com coisas simples. E, aos poucos, ir passando para as mais complicadas. *Suspirou quando Seth falou dos inimigos. Pensou em Hórus, levando uma mão ao local onde podia sentir o coração bater. Pareceu subitamente triste, mas não se queixou. Olhou para fora, suspirando. Pensou em Anúbis, em Néftis. Sacudiu a cabeça.* Eu realmente não sei. Não sei se já estou forte o bastante, Seth. Ainda sinto a fragilidade deste corpo. Como eu posso administrar um império, se eu mal consigo controlar meu... *A deusa parou de falar, esforçando-se por respirar. Levou instintivamente a mão ao peito. Sentia uma dor torturante lhe atravessar os pulmões. "Néftis", pensou, mas não conseguia falar. Caiu de joelhos, tossindo. Sabia, pressentia que a deusa ciumenta estava aproveitando a fragilidade daquele seu corpo para atacá-la. Não sabia direito porque, mas sentia. Curvou-se, a testa agora suada quase tocando o chão. Não sentia a presença de Néftis naquele plano, o que significava que ela conseguira algum meio de atacá-la do outro. As mãos agarravam o tapete colocado aos pés da cama, enquanto a deusa lutava bravamente contra as fragilidades do corpo mortal. Os olhos agora se alternavam entre pretos e azuis, em velocidade vertiginosa.*

*Seth estava de costas, terminando de se vestir. Passou a mão pela barba mal feita, sorrindo à medida que ísis discorria sobre como deveria controlar seu corpo e sua natureza. Era engraçado, pensava ele, engraçado como uma criança que dá os primeiros passos.* Pois é... mas não se preocupe, tudo se ajus... Ísis? *Os olhos se fixaram na deusa que se inclinava, sem ar. Ela não respondeu. Nem precisava. A conexão que tiveram na noite anterior fora tal que o pensamento da deusa se alinhava de pronto ao de Seth. Por alguns instantes, o deus da desordem se desesperou. Existem algumas regras desde tempos imemoriais que devem ser seguidas. Pode-se dizer que a primeira delas é a não-intervenção. Os deuses não podem intervir diretamente no plano terreno, sob pena de interferir no livre arbítrio. Pelo menos, é o que preconizam as Leis. A intervenção é permitida se o plano da Terra interfere no plano dos deuses, a exemplo de uma oferenda ou um sacrifício que pede por colheita, poderá então o deus conceder a boa colheita. Isto está, pois, de acordo com as regras de Mâat. Ora, há, contudo, aqueles que infrigem as regras. Para impedir tal interferência, os egípcios antigos criaram um símbolo singular, denominado Ankh. Seth nunca sofrera essa interferência, embora não usasse um amuleto ou tivesse em seu corpo o Ankh. Possivelmente, vivera ileso até então por conta do domínio que tinha dos seus poderes, ainda que esparso, e da maldição que lhe fora lançado: "não terá contato algum com o plano dos deuses"... etc. Não tinha escolha o deus, por ora, diante da agonia a que Ísis era submetida. Ela não poderia ser morta por Néftis ou qualquer deus a menos que ele, ou ela, descesse à Terra ou que Ísis ascendesse ao plano divino. Só poderiam atormentá-la, até onde sabia. E a situação em que se achava a sua consorte, pensou Seth, parecia ser só o começo de uma sequência de insolências. Mas Seth já suportara humilhação e insolência por demais. E isso o irritou. Irritou-o ainda mais constatar que teria que cravar no belo corpo de Ísis uma Ankh e que, ainda assim, provavelmente não adiantaria de nada, já que por ser deusa, não havia interferência direta no plano da Terra. O urro de raiva de Seth, ao inclinar a cabeça para trás e retesar toda a musculatura do corpo mortal, fez um buraco nos 4 andares superiores. As janelas explodiram e os cacos de vidro voaram prédio abaixo. As fundações começaram a tremer lentamente enquanto, no céu, nuvens negras cobriam toda a Londres. As unhas da mão direita do deus cresceram quase dez centímetros, assemelhando-se com as postiças de aço que usava nas cerimônias de seus Concílios. Afiaram-se o suficiente para que pudesse rasgar a carne de Ísis, com cuidado, ainda que desesperadamente, desenhando-lhe na pele macia um Ankh. Esperava que o símbolo ao menos amenizasse as investidas do outro mundo. Lá embaixo, os postes caíram e alguns carros se chocaram violentamente. Uma casa desabava enquanto a terra toda tremia e Seth terminava o desenho.*

*A deusa permitiu docilmente que Seth lhe desenhasse a Ankh na pele macia. Tentou ficar tão imóvel quanto possível enquanto o deus executava aquela operação. Uma vez que ele terminou, o corpo suado da deusa caiu deitado sobre o tapete. Tremia, sentindo as dores passarem lentamente. Respirou profundamente e fechou os olhos. Podia ouvir a voz de Néftis em sua mente, mas não se fixou no que a deusa dizia. Estava cansada demais. Depois de alguns segundos, levantou-se. Gastou alguns segundos esperando que suas pernas se firmassem antes de ir até o banheiro. Procurou o chuveiro, e ali entrou, deixando a água fria cair sobre seu corpo, esfriando-o e lavando o suor. Tomou um banho longo, e se vestiu. Pensava no que havia acontecido, os dentes mordendo o lábio inferior. Sabia que aquilo fora uma declaração de guerra. E não tinha opção senão aceitar o desafio. Enquanto se vestia, fazia planos para não ser pega desprevenida da próxima vez. Sabia que haveria uma próxima vez. E não estava enganada. Durante a semana que se seguiu, Ísis não se desgrudou de Seth, visto que sabia que ele era a única ajuda com que podia contar. Mesmo com a proteção da Ankh, os ataques de Néftis não pararam. Atacava seu corpo durante o dia e à noite, quando era forçada a repousar, lançava imagens, pesadelos e mensagens em sua mente. Sobre estes, a deusa se recusava a falar com Seth. Era o que estava fazendo no momento, sentada à mesa de um café com o companheiro.* Não insista, Seth, por favor. *Pediu, com alguma irritação na voz.* Não quero falar sobre as coisas que Néftis diz. Ela está tentando me usar para perturbá-lo, será que só eu percebo isto?

*Deu de ombros. Não ia insistir. O iate Khared, comprado no Marrocos por Omar, era grande o suficiente para que navegasse tranquilamente no mediterrâneo sem que as ondas do mar atrapalhassem um café da manhã decente no convés. Já era possível sentir o cheiro do deserto e, em algumas horas, aportariam em Alexandria, no delta do Nilo, se quisessem, ou poderiam subir o rio até o Cairo. Os Sete Chacais, os antigos generais do Velho Egito que serviram Seth até após a morte, se achavam também no iate, mas não no convés. À mesa, somente Ísis e Seth. Nas últimas semanas, o deus trouxera Ísis consigo aonde quer que fosse. Ela o acompanhara em rituais e conhecera toda a enorme rede setita: a Golden Corp., o narcotráfico, o tráfico internacional de escravos e contrabando de armas, os 777 templos espalhados pelo mundo e as diversas castas. A rede era vasta o suficiente para manipular meio mundo. A humanidade, para Seth, era um fantoche. Era pouco comparada à sua ambição, que fora ampliada por conta do sofrimento imposto à Ísis: a cabeça de Néftis agora estava inclusa na lista negra de Seth.* Tudo bem, não precisa se zangar... só não gosto de vê-la como está. O Egito lhe fará bem, meu amor. *E, como se abrisse um jornal e contasse as novidades do trabalho, Seth prosseguiu, um pouco animado.* Esta noite enviei três tornados à Indiana, nos EUA. Andaram caçando servos no templo de Simbel... querida, vou comer a geléia, aqui. Pronto. E os Sete Chacais disseram ter localizado indícios de que Thot está encarnado em algum infeliz na China. Mas já estamos cuidando disso... e eu andei pensando... talvez seja melhor deixar que todo o carregamento de armas seja entregue para os guerrilheiros da Zâmbia. Afinal, ninguém daquele governo pede meu auxílio: talvez não reconheçam aquilo como guerra. *Disse distraído. Mastigou a torrada com geléia e fitou aqueles olhos da deusa que o fizeram apaixonado desde a eternidade.* Amor, quando estivermos em Abu Simbel, você se sentirá melhor... eu prometi que nada de ruim lhe aconteceria, não prometi? *E, acariciando o rosto de Ísis, beijou-a como fazia todos os dias e como estava disposto a fazer para todo o sempre.*

*A deusa já havia acabado sua refeição, enquanto Seth ainda estava em meio à sua. Acordara com uma fome voraz, que aliás a acompanhava sempre nas duas últimas semanas. Agora, apenas fazia companhia ao consorte e o ouvia falar, sentindo a deliciosa brisa marítima. Achara imensamente interessante conhecer todos os interesses que Seth comandava. A cada visita que faziam, sentia o poder que ele possuía e que ela, de certo modo, compartilhava. As perturbações de Néftis, agora, eram puramente mentais, mas mesmo assim Ísis vinha se queixando a cada dia de que seu corpo mortal não se sentia bem. Passava horas e horas deitada na cama da cabine que dividia com Seth. Não dormia, mas seu corpo lhe pedia cama com frequência crescente. Como não tinham um médico a bordo - era desnecessário, afinal -, a deusa suportava todas essas mazelas com paciência, contando os minutos até que chegassem ao Egito. Assentiu quando Seth mencionou Thot.* Gostaria de encontrar Bastet. *Murmurou.* Ela poderia se aliar a mim, me ajudar. *Sorriu brevemente quando Seth fitou seus olhos.* Espero que cheguemos logo, então. *Pausou e passou a mão por sobre os olhos.* Eu não sei o que está acontecendo comigo, mas tenho me sentido tão estranha. Estou sempre cansada, às vezes minha cabeça gira... Sinto que estou ficando mais fraca, em vez de mais forte. *Calou-se após essa reclamação e retribuiu o beijo de Seth. Ficou com as mãos cruzadas no colo. Um balanço um pouco mais acentuado da embarcação a fez inspirar fundo. Seu rosto foi perdendo as cores aos poucos. Não conhecia aquela sensação, mas era desagradável. Entreabriu os lábios.* Seth, eu não estou bem. Estou me sentindo muito est... *Não completou a frase. Um instinto mais forte que a razão a fez correr até a amurada da embarcação, onde segurou firmemente com as duas mãos. Debruçou-se para a frente, esforçando-se para não devolver ao mar a farta refeição que fizera. Teve a impressão de sentir uma mão segurando sua testa, e um braço firmemente passado em sua cintura. Levou longos minutos para falar, ainda mais enjoada do que quando correra para ali.* Eu... eu nunca senti isso. *Murmurou, contendo um engulho com uma mão sobre os lábios agora sem um traço de cor.*


(Isis enjoada, reclamações sobre diferenças no corpo.)

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