terça-feira, 24 de novembro de 2009

24-11-09 - Isis, Seth, Bastet e Anúbis

*Ela permaneceu lá, dorminhoca e preguiçosa em seu canto sem se importar com os pitis de Seth a saída repentina de Anúbis, Seth estava ficando velho e resmungão e isso não afetaria – mais – seu humor. Recolheu-se então a dormir. As servas de Bastet ficaram tão mais confusas que a própria Ísis, pois a Deusa as dispensaras, mas não podiam ir até Bastet para acordá-la pois isso irritaria a felina e agora não possuíam nada para fazer além de observar e aguardar.* … *Bastet seguiu dormindo, enrolada no cantinho sem nenhum problema, ignorando Seth e qualquer coisa que ele dissesse e falasse que não lhe fosse relevante. Quando por fim, ouviu a voz do Deus chamando-lhe avisando que haviam então chegado, Bastet fez questão de erguer-se vagarosa e preguiçosamente esticando-se e logo em seguida, saltar para os braços de Seth, fazendo realmente questão de lhe cravar as unhas para se segurar, não se importava que depois ele lhe transferisse para Ísis, queria que Seth a carregasse, nem que fosse por um mero segundo ele a carregaria. A felina pesava um pouco mais do que se espera de um gato daquele tamanho, talvez estivesse fora de forma, porém, quem teria mesmo coragem de dizer isso a ela? Seth? Duvidava muito.* … *Como Seth previa, Bastet era a que menos chamava atenção, para todos os fins, era apenas um gato no colo de uma dama com o rosto coberto por um véu, a felina julgava que, aquilo chamava mais atenção do que caso, eles andassem normalmente como pessoas que no fundo, ao menos naquele plano, o eram. Mas Seth tinha que montar seu teatro e forçar Ísis a interpretar a peça. Não ia opinar. Que fizessem como achassem melhor.* … *No caminho, resignou-se apenas a ficar deitada sobre o colo de Ísis, sem abrir a boca para dizer uma palavra que fosse.*

*O Abrigo foi erguido há algumas dezenas de anos. Com o passar do tempo, obviamente, algumas adaptações foram feitas: sistema de caleifação e resfriamento, sistema elétrico, dutos de ventilação que prestassem... até que o complexo se tornasse um verdadeiro palácio subterrâneo, cerca de 1,5 km abaixo de um dos maiores templos do velho Egito, o Abu Simbel. Era gigantesco e luxuoso o suficiente para ser considerado digno de deuses. E era cercado de proteção suficiente para impedir que qualquer outra criatura, física ou metafísica, de ingressar no lugar sem que o deus da destruição permitisse. Era magia antiga, verdadeiramente poderosa, que nem mesmo os deuses do panteão egípcio poderiam violar. A entrada ficava há alguns metros da entrada da grande templo de Abu Simbel, uma abertura na areia pela qual era possível passar um carro inteiro - e foi o que aconteceu, é claro. Um a um, os veículos entraram. Quando pararam, Seth conduziu as deusas para um hall gigantesco, repleto de tapetes persas, quadros do Antigo Império e até mesmo uma estátua de Bastet. Aliás, a deusa ainda se achava no colo de Seth que julgou prudente não deixar que Ísis a tomasse nos braços, já que aquele monte de pêlos estava meio...* Pesada, hein? *Disse, por fim, após prudentemente deixá-la sobre o tapete - coisa que provavelmente ela viria a destruir com aquelas garras insolentes.* Essa gata tá um peso só. Ainda bem que o velho morreu, assim talvez coma menos... *Continuou, enquanto o sangue que escorria dos ferimentos causados pelas garras da deusa se fechavam, lentamente. Aquilo havia doído um bocado, saliente-se. E, ignorando o ataque iminente - fosse físico ou fosse moral - da gata, virou-se para Ísis.* Você precisa de alguma coisa? Temos tudo aqui. A rocha é a mais pura, a mesma que ergueu Abu Simbel sobre nossas cabeças. Tudo o que um corpo mortal precisa, pode-se encontrar aqui. E os Sete Chacais a servirão... você está bem? Sente-se bem? *Seth agia de modo estúpido, tal qual um pai que acompanha a esposa grávida.* Quer, não sei comida? Água? Talvez um churrasco de gato? * Lá fora, um sem número de guardas, humanos e bestiais, cuidavam da segurança do Abrigo. Uns ocultos na areia, outros enfurnados em Abu Simbel.*

*O Deus olhou tudo aquilo por cima, toda aquela construção, enquanto as longas asas negras da forma que naquele instante era sua o impulsionavam pelo ar. Os olhos, mais eficazes e afiados do que jamais seriam, observaram tudo, cada homem, cada volta, cada quebra. E então, pousou. Pousou longe o suficiente para que a sua volta para a forma humana, para a forma do corpo que tomava por seu, não fosse vista por nenhum homem ou mulher ali. E então, simplesmente caminhou. O fez com passos despreocupados, lentos, as mãos enluvadas presas atrás das costas. Caminhou em direção ao primeiro dos guardas, mas pouco se importou com sua presença - parecia decidido a apenas continuar caminhando. Não lhe dirigiu o olhar negro, não lhe dirigiu as palavras soturnas... Apenas caminhou. O homem falou algo, algo como "Aonde pensa que está indo!?", e, sem parar de andar ou olhar para trás, a bela voz do Deus da Morte entregou-lhe a resposta. * - Estou entrando. *E então.. O homem cometou o pior erro de toda a sua vida. Colocou o braço em frente ao peito magro de Anúbis, por onde ele estava prestes a passar. Os corpos se chocaram, Anúbis tomou folego, e levantou o rosto, os olhos negros e profundos o encarando. Sentiu pena, por um instante. Aquele homem não teria chance. Anúbis podia ver dentro de sua alma. Todos os crimes, as falácias, as desgraças. Ele estaria na boca de Amut antes mesmo de perceber onde estava. Ele repitiu. * - Estou entrando. Não me toque. *E os olhos do guarda piscaram, como se algo queimasse por dentro. O corpo caiu, inerte, e assim fez também o corpo de todos os outros guardas no perimetro. Anúbis era um Deus justo. Nao se importava de lhe verem o rosto. Mas nunca, nunca, deveriam lhe tocar sem permissão. Caminhou até onde foi possivel, sempre tranquilamente, sempre com as mãos atrás das costas, uma segurando a outra. E então esperou. Iriam recebe-lo. Ele sabia. *

*Assim que chegaram ao hall daquele palácio, Ísis retirou o véu que cobria seu rosto, atirando longe de si aquela peça. Odiava aquele véu, usara-o apenas porque Seth assim o desejava. Respirou fundo, sentindo-se segura ali dentro. Observou Bastet sobre o tapete e depois se aproximou do companheiro, tocando os ferimentos que se fechavam. Sorriu brevemente, pensativa, alternando o olhar entre Seth e a gata. Retirou a mão de sobre os ferimentos, de que agora não havia vestígios, e andou por algum tempo pelo hall, observando os quadros e a estátua que havia ali. Somente depois de uma inspeção atenta foi que Ísis se voltou para responder às perguntas de Seth.* Fique tranquilo. *Murmurou, suavemente. Seus olhos brilhavam vivamente, de felicidade por se encontrar em casa, em sua terra, e segura.* Eu me sinto perfeitamente bem, não precisa se preocupar, agora. *Completou. Refletiu sobre a oferta dele.* Apenas água é o bastante. Quanto aos chacais... não é melhor que eles sirvam a você, meu amor? Sou perfeitamente capaz de servir a mim mesma. *A expressão mudou para algo mais suave, como se estivesse recordando o passado.* Já faz muito tempo desde que eu ocupava uma posição em que os outros deviam atender aos meus desejos. Vagando por tanto tempo pela Terra, tive de aprender a cuidar de tudo sozinha. *Pausou, e corrigiu-se.* Não sozinha, porque não estou mais só. *Fez outra pausa, e olhou na direção da entrada do abrigo sob o templo.* Alguém vem vindo.

*Bastet ficou calada, que Seth a carregasse, que Ísis a carregasse, não importava muito. Quando foi repousada sobre os tapetes, dedicou um tempo a se espreguiçar e esticar-se antes de andar pelo lugar despreocupadamente. Andou até uma das estatuas dedicadas a Seth e ali ela se pôs de pé sobre as duas patas, apoiando as patas dianteiras sobre a estatua e tratou de rasgar-lhe as unhas na pobre estatua, com gosto e sem precedentes. Simplesmente retalhou a obra dedicar a Seth.* ...*Não se dedicou a olhar Seth, o babão. Deixou que tivessem seu momento a sós não tão sós assim. Incomodando-se nada ou quase nada, respirou fundo uma ou duas vezes, antes de se sentar de frente para eles, aguardando que toda a melação tivesse fim. Paciente que só. Estava era pensando em um jeito divertido de torturar Seth novamente. Até lá, ficaria calada, pensativa como sempre. Pode sentir Anúbis se aproximando, porém nada disse sobre isso. Não queria ver outro chilique de Seth e não desejava nem um pouco ter de assumir a forma humana. *Pigarreou, como quem quer chamar a atenção e aguardou.* - Pois então. *Disse, fria, seca e direta.* - Estou esperando explicações. Se vou sujar minhas patas, tenho ao menos de saber porque exatamente o estou fazendo, hm? *E Seth tinha, sem sombra de duvidas, minado qualquer resto de humor que pudesse existir naquela felina. Péssimo passo, péssimo.*

*Seth não dava a mínima para o humor de Bastet, porque o dele se esvaía com maior facilidade. E o temperamento de Bastet era um tormento eterno. Se existe uma definição para TPM eterna, era Bastet. O deus da destruição, entretanto, pode constatar que Bastet poderia facilmente assumir-lhe o cargo: a gata havia destruído sua estátua, seu tapete... e Seth tinha a impressão de que breve a decoração de todo o Abrigo acabaria por virar pó nas garras daquela gata infernal.* Bastet, será que você poderia... ah. Ok. Você destruiu a... Er, agora você está passando pelo tapet... ok. Já foi o tapete. *Uma mulher vestindo uma túnica muçulmana, algo como uma burka depois de uma explosão terrorista, se aproximou, curvando-se. Seth lhe sussurrou.* Providencie alguns novelos de lã e deixe essa gata longe de tudo que pode ser destruí... ok, ela acabou com o tapete de vez. Vá rápido. *A mulher se retirou apressadamente e, nesse interstício, Seth procurava ignorar a desgraça que era Bastet ouvindo atentamente as palavras de Ísis. Não precisava de servos? Ora, francamente...Ísis era uma rainha. Digna de mil templos, afinal. Era inadmissível que não tivesse servos. Por isso, a determinação soberana de Seth foi que todos aqueles que se achavam no Abrigo - e isso era cerca de 900 criaturas, entre homens, kindred, garous, fossem soldados ou servos - serviriam unicamente a Ísis. Os Sete Chacais poderiam assim concentrar-se na busca pelos pedaços de Seth e administrar o império setita.* A rainha das rainhas não deve ficar sem servos. Você não é só a minha amada, é a portadora do meu amor. *Afagou o rosto da deusa e ia beijá-la, mas...* É... tem algo errado. *Silêncio. Setitas tombavam, lá fora. E aquela aura que lhe era tão literalmente familiar o fez sorrir por alguns instantes. Podia senti-la, lá fora, a essência tão próxima da sua, mas aquele poderio destrutivo contido pelo espírito de Néftis. Imaginou se sua prole, se o fruto do amor com Ísis geraria algo parecido. Seth se orgulhava de Anubis. Orgulhava-se da justiça que o filho abarcava em sua alma. Mas sua insolência crescente o faria ainda levar algumas palmadas. Ou talvez machadadas. Ou algo parecido.* Tenho negócios a resolver lá fora. Descansem, garotas. Bastet, não se preocupe, Ísis lhe explicará tudo. Acho até bom deixá-las a sós para... er... conversarem... essas coisas de mulher. *E, invocando os servos do Abrigo, ordenou.* Que se providencie a mais confortável das camas para Ísis e que goze de todas as regalias. *Olhou, então, para a Bastet, sob forma de gata e disse, polidamente.* Hum... e para Bastet... arrumem um cestinho, sim? *Seth desapareceu, então. Lá fora, o deserto parecia mais gélido que o habitual.* Quase três mil anos. *A voz de Seth ecoou poderosa enquanto uma ventania crescente se agitava, levantando a areia, materializando o pai de Anubis a caminhar em sua direção.* Quase três mil anos, Anubis. Nenhum telefonema, nenhum recado. O que houve? Veio pedir desculpas ao seu bom pai pela ausência? Ou será que é pela insolência absoluta em não recorrer do meu exílio?

*Não havia se mexido um centimetro, não havia movido um musculo, não sequer piscado, até Seth dar sua graça. Um sorriso tranquilo, sutil, lhe permeava os lábios finos, e as mãos enluvadas estavam presas atrás de suas costas, uma segurando a outra, de maneira confortavel. Novamente, não se moveu quando as ventanias começaram, quando a areia lhe açoitou as vestes e o cabelo brilhante. Seus olhos estavam fixos em Seth. Malditos olhos, tinha Anúbis. Pareciam estar sempre... analisando. Sempre raciocinando, sempre maquinando, sempre julgando, até mesmo as coisas que jamais poderiam ser julgadas. Esperou que ele acabasse o show. Era estranho, para Anúbis. Ele chegava a não compreender direito. Não havia ninguém para assistir. Porque tanto estardalhaço? Deu mais um passo a frente, passando por cima do corpo do homem que o barrara. Deixou os olhos sobre ele, enquanto fazia o ato. E então, levantou novamente o rosto para Seth.* - Na verdade, estava esperando que eu pudesse pedir-lhe gentilmente para parar de usar as minhas almas para seus caprichos pessoais, pai. Algumas delas estão fugindo. Não é o que eu poderia chamar de... confortavel. *E sorriso sutil se abriu um pouco, de canto, por um unico instante, mas logo voltou-se ao normal. Olhou mais uma vez para o vampiro. Anúbis, pessoalmente, não gostava de vampiros. Eles fugiam do ciclo. Enganavam a morte. Mataria todos eles, se pudesse. *

*Ísis ficou seguindo Bastet com os olhos, enquanto ouvia as palavras de Seth. Sorriu e concordou com a cabeça. Não queria discutir coisa alguma agora. Só queria se preparar para o vindouro - e provavelmente próximo - confronto com Néftis. Suspirou, vendo os servos de Seth se movimentarem para cumprir as ordens do deus. Afastou-se um pouco do caminho deles, vendo-os seguir na direção de uma das câmaras subterrâneas carregando diversos objetos. Depois de cerca de dez minutos, um servo veio avisar respeitosamente às deusas que suas acomodações estavam prontas. Pedindo licença primeiramente, Ísis se curvou e apanhou cuidadosamente Bastet nos braços, seguindo o servo até o quarto. Olhou o espaçoso aposento, dominado pela cama ampla no centro. Olhou as cobertas de seda branca, e se sentou sobre o colchão confortável, soltando a gata sobre o mesmo. Cruzou as mãos no colo e fitou os olhos felinos da deusa.* Entenda, Bastet. Não quero que suje suas mãos por minha causa. Apenas queria garantir sua aliança, no caso de um confronto. Não lhe estou pedindo que combata por mim. Apenas, que não lute contra mim quando chegar o momento da ruptura. Creio que se você não me combater, Anúbis também não o fará. Afinal, analisando tudo, ele não tem motivos por si mesmo para querer a minha destruição. Quanto a Néftis... *Suspirou, olhando a parede clara do aposento por alguns segundos.* ... é um problema que eu terei de resolver pessoalmente. Já o devia ter feito há muito tempo.

*A gata deixou-se levar por Ísis sem problema, apesar de não gostar nem um pouco da idéia de deixar Anúbis e Seth sozinhos. Deixou-se carregar até o aposento e quando a Deusa lhe soltou, tratou de voltar ao seu tão árduo trabalho de destruir as coisas. Primeiro os lençóis, depois os tapetes e depois tudo que estivesse ao seu alcance. Quando por fim se cansou de picotar, retalhar e arranhar tudo que pudesse, voltou-se para Ísis. E se sentou como a mais comportada dos bichanos.* - Ísis, não sei porque você está tão apática. Qual o problema? Néftis é só Néftis. *Falava como se fosse a coisa mais simples do mundo, dando a típica importância nenhuma ao assunto.* - Escute, mulher. Eu posso levá-la, simples assim. Basta que aceite, estarei ao teu lado para confrontar Néftis e ela não terá coragem de levantar-se contra mim, pois bem sei que não e não direi porque, o que importa é que. Com a sua permissão, posso levá-la. Eu sou Ba-en-Aset, Ísis. E minha passagem é permitida pelos planos. É por isso que estou aqui e é por isso que posso ir e voltar tão livremente. Mas... Recuso-me a ajudar Seth a reunir seus pedaços e voltar, levarei tu e tão somente tu. Porém para isso é necessário que me de tua permissão para transportá-la.

*Seth gargalhou, inclinando-se para trás. O estardalhaço era mesmo evidente, mas não intencional. Tudo ao seu redor parecia entrar em desordem. Para tanto, bastava a sua presença.* Ora essa! Façamos o seguinte, Anubis. *Seth nunca usava a palavra "filho", embora nutrisse pelo filho grande afeto.* Uma negociação simples: Você me dá a ciência do trânsito entre os dois mundos, ainda que de modo temporário, e eu lhe entrego as almas que, por direito, são MINHAS! Afinal de contas, também fui eu um Juiz. Só invoco as que julguei. Convenhamos que há certa justiça no meu pleito e também na minha proposta. *E, numa reverência irônica, completou.* Afinal de contas, é um conhecimento que você compartilhou com Bastet: ela tem trânsito nos dois mundos. Você me deve a vida, mas, mais que isso, me deve por ter permitido que seu progenitor fosse aprisionado nesta... *olhou para as mãos.* Carne. *Respirou fundo, virando-se de costas para Anubis e começou a caminhar rumo à entrada do templo.* Bastet está conosco. Venha. Pense na minha proposta enquanto isso. *E, num sussurro gélido como a noite, completou.* E trate de mandar a sua garota parar de acabar com os móveis do lugar. *Entrou, esperando que Anubis o seguisse. Uma vez convidado, o deus poderia entrar, mas era autorização que se limitava àquele episódio. Seth ainda trajava aquele manto marrom do deserto que usara no barco. Não tinha ciência do debate entre Ísis e Bastet. Focava-se no filho. Ignorava que Bastet propunha a Ísis que o deixasse, possivelmente para sempre, para confrontar Néftis. Além disso, Seth não queria somente ser transportado para o plano divino novamente; queria saber como fazê-lo ele mesmo. Não queria uma ida ou uma volta temporários; queria o poder de ir e vir, como outrora tivera. Isso o pouparia de procurar por mais uma parte de sua Alma, fortalecendo-o. Quando pisasse novamente no plano divino, começaria arrancando a cabeça de Néftis em honra a Ísis... era um deleite. Mal sabia ele, porém, que a própria Ísis queria bater-se com Néftis.* Eis a enorme mesa de mármore que... *Seth bateu no tampão de mármore e mexeu na toalha persa que a cobria.* Ah, que bom. Bastet parece ter passado por aqui também. Onde diabos estava com a cabeça para se meter com essa criatura infernal, Anubis?

*Anúbis apenas observou, em plácida postura e silêncio, enquanto Seth deleitava-se em risadas. Anúbis continuava a ignorar a ventania, a areia se levantando... De alguma maneira estranha, os grãos pareciam evaporar-se no ar antes de manchar-lhe a roupa, ou sujar-lhes os belos cabelos. Ouviu a proposta do pai. Era interessante, de certa forma. Mas apenas isso. Nada além de interessante. Teria que pensar, sobre o assunto. * - Ela é Bastet, meu pai. A deusa-gato. Tenho certeza que conhece as lendas sobre gatos. *Estaria Anúbis alfinetando o próprio pai, naquele instante? Estaria? Dificil, realmente dificil, saber. Anúbis não alterava o tom de voz. Não alterava a expressão. Não movia um musculo a mais que o necessário, realmente. Era dificil saber quando apenas dizia um fato, ou quando estava, realmente, cutucando alguém. Não disse mais nada, caminhando atrás dele. Não estava exatamente contente, Anúbis. Não considerava nobre, honrado, gentil ou educado da parte de Seth, seu pai, obrigar-lhe a fazer um pequeno show para chamar a atenção, e só assim, ter a entrada permitida no templo. Era quase... desrespeitoso. Não pode deixar de aumentar o sorriso, ao observar a expressão de Seth, diante da desgraça da mesa de marmore, causada por Bastet. Achava engraçado, até. E seu humor, realmente, não era dos melhores. Meneou a cabeça sutilmente para Seth. * - O que posso dizer? *E não completou a sentença. Haviam motivos em demasia, e nenhum deles Seth necessitava saber. Olhou em volta, observando o local. Bastet sabia que ele estava dentro. Isis também, provavelmente. Uma energia tão forte... Era dificil não notar. * - Onde as damas se encontram?

*Observou a destruição que Bastet fazia nos lençóis, e em tudo que suas garras podiam alcançar, sem parecer se incomodar muito. Suspirou diante do questionamento da gata.* Néftis é minha irmã. E minha inimiga. Isso não está certo. Não deveríamos passar as eras a nos digladiar. Ela sempre quis tirar tudo o que eu tenho. E agora, a situação ficou intolerável. *Levantou-se da cama, andando de um lado para outro.* Tenho confiança em ti, Bastet querida. Mas sua proposta é uma que eu não posso aceitar. Agradeço e aprecio imensamente sua oferta, mas não posso voltar sem Seth. Sei que não gosta dele. Mas eu preciso dele lá. E ele jamais me perdoaria se eu fosse confrontar Néftis sem a presença dele. Especialmente se algo de ruim acontecer. *Negou com a cabeça, parando a caminhada pelo quarto.* Não, desculpe-me, Bastet. Talvez vá argumentar que ele iria sem mim, sem pestanejar. Pode ser, não digo que não. Mas eu... eu não posso ir sem ele. Agora, o vínculo que nos une é forte demais para que eu o desfaça assim. *Calou-se, sentindo a presença de Anúbis, e a mente de Seth.* Eles voltaram. *Enunciou para Bastet, antes de falar na mente de Seth.* Estou aqui. *Sabia que não precisava 'dizer' onde, que ele podia localizá-la apenas por aquele contato.*

*Bastet sentiu o pêlo arrepiar-se, sabia que Anúbis estava ali, com Seth, e isso não lhe agradava. Respirou fundo ouvindo os lamentos de Ísis, como sempre, importando-se muito com tudo aquilo. Bastet era prática. Gatos eram práticos, executavam as tarefas sem demoras e sem problemas. Porque os outros tinham que impor tantas barreiras a coisas tão simples?! Respirou fundo, balançando a cabeça felina em sinal de negativo.* - Então sinto muito, Ísis. *E ergueu o corpo felino, passando a caminhar pelo quarto, aparentemente para fora dele.* - Não posso permitir que Seth “trafegue” pelos planos. Não vou levá-lo sem um bom motivo e sem ter certeza de que ele voltará para cá. Não vou afrontar meus irmãos e irmãs por Seth, pois bem sei que ele nunca afronta-los-ia por mim. *Aproximou-se da saída, fremindo as narinas.* - Assim como diz confiar em mim, confio em ti. Mas não tenho motivos para confiar em Seth e se depender de mim, Ba-en-Aset, ele jamais terá permissão para trafegar entre os planos livremente.

*O problema é que ninguém nunca ligava. É claro, não eram eles quem pagavam a maldita mobília, nem construíam as estátuas. Maldita gata infernal. Sentou-se à mesa destroçada pelas patas de Bastet e deu de ombros à pergunta de Anubis.* Estão por aí, descansando. Talvez elas venham mais tarde. Não podemos ir a lugar algum, não é? Já que estamos presos nessa porcaria aqui. A não ser Bastet, é claro, e seu consorte. Que seria... ora!, você! *E com um sorriso ácido fez um gesto para que Anubis se sentasse. Era esquisito conversar com o filho. Nunca o fizera muito. Seu último contato fora há milhares de anos, quando ainda lhe ensinava a usar uma alabarda.* Essa felina vai acabar com a sua casa, eu lhe digo. Espero que tenha aprendido a usar a foice como se deve... lembro-me que você cortou o seu fucinho por três vezes porque não tinha coordenação quando estava em metamorfose... *Seth deu uma gostosa gargalhada. Era como lembrar do filho pequeno. Bem. Era isso mesmo, de fato. Sentiu Ísis, sua conexão tão forte como nunca estivera. Talvez a deusa tivesse mesmo recuperado grande parte de sua força. Ela e Seth já compartilhavam de uma única Alma, praticamente. Imaginava se Ísis e Bastet já haviam tratado acerca da gravidez da deusa... e das consequências dessa gravidez. Isto é... que criatura Ísis geraria? Seth fitou, então, Anubis. Talvez saísse algo parecido, talvez mais poderoso, talvez mais fraco. Mas se saísse parecido, alguma coisa haveria de prestar em sua cria.* Eu quero o Dom de Transitar Entre os Mundos, Anubis. Eu o quero. Mas não se preocupe, não vou pisar em casa tão já. *E era verdade. Não estava pronto. Não havia reunido tudo o que precisava para massacrar os deuses quando retornasse.* Dê-me a ciência do trânsito entre os dois mundos e você terá todas as almas que precisar. E ainda te envio mais algumas por meio de alguma catástrofe. Que tal? É um bom negócio? *Para o inferno a indiferença de Bastet. O filho era uma força de atingir seus objetivos.*

*Ia além do obvio a maneira como Anúbis preferia não tratar de sua relação com Bastet, sempre ignorando as perguntas que eram feitas quanto a isso. Era um Deus reservado. Sempre fora. Seus assuntos, e de sua consorte, cabiam apenas aos dois. Ou ao menos era isto que gostava de pensar. Podia sentir Bastet, podia sentir Isis também, mas Bastet, principalmente. Sabia que ela não gostava dele sozinho com Seth. Só não sabia, exatamente, o porquê. Mas não era sobre isso que deveria tratar com o pai agora. Estavam falando sobre negócios. Simples e diretamente, negócios. Ele suspirou, já depois de sentado, a ponta de um dos dedos enluvados deslizando sobre o tampo da mesa, até que ambas as mãos voltassem para seu colo. Não tirava os olhos de Seth. Por nenhum instante, o fazia. Por mais que nutrisse afeto pelo pai, sabia que seu simbolo ser uma vibora, não era mera coincidencia. * - Acho que preciso lhe esclarecer os fatos, meu pai. *E meneou a cabeça para o lado, exalando o ar pelas narinas, como se levemente chateado, por trás da mascara de sentimentos neutros que vestia em seu rosto. * - Bastet é a deusa-gato, e os gatos tem a capacidade natural de caminhar pelos dois mundos. Por isto, ela o faz. *E fez uma pausa, como se para conferir se Seth estava realmente acompanhando seu raciocinio.* - Já seu, sou Anúbis. O Senhor dos Mortos. O Senhor das Terras Assombradas, entre muitos, muitos outros nomes. E antes de sê-lo, era o guia dos espiritos. Eu os levava a Osiris, eu os levava para Amut, ou para os Campos de Iaru. Isto, quando não precisava vir busca-los.... aqui. Nesta terra de homens, de carne, e de sofrimento. *E fez mais uma pausa, deixando-o entender aquilo. * - Então, não posso leva-lo. A não ser, é lógico, que esteja morto. Mas isto não seria util a causa de qualquer maneira, logo...

*Assentiu em concordância para Bastet enquanto a deusa caminhava para fora do quarto.* Eu compreendo. Espero que não fique aborrecida comigo, ou pense que eu não valorizo sua aliança. Valorizo, e muito. *Fez uma leve reverência para a gata e esperou que ela se afastasse, antes de olhar mais atentamente o quarto. No armário encostado à parede, encontrou um vestido de linho branco, muito melhor que aquelas roupas ocidentais. Trocou-se imediatamente, deixando os longos cabelos negros escorrerem soltos pelas costas. O linho branco lhe acentuava a pele morena. Os pés foram deixados descalços, visto que a maior parte do abrigo era coberta por tapetes. Foi assim que ela, com passos leves, foi ter com seu consorte e o filho dele. Agora, não estava mais assustada com Anúbis. Não com Seth por perto. Lembrou-se de que não conversara com Bastet sobre a gravidez. Bem, conversaria depois. Ou não, Bastet era sempre imprevisível, e, afinal, não tinha motivos para se interessar por seus assuntos pessoais. Deixando esse pensamento de lado, reverenciou Anúbis e se colocou atrás de Seth, pousando as mãos em seus ombros, em silêncio respeitoso diante dos dois deuses. Se Anúbis estivesse atento, poderia sentir que a deusa parecia mais forte do que no encontro anterior, e que sua alma parecia se harmonizar com a de Seth, embora em momento algum perdesse suas características normais.*

*Bastet fez questão de sair do quarto antes mesmo que Ísis se trocasse, não respondeu ao que ela lhe disse e como antes, não comentou sobre a gravidez – não tinha sido indagada sobre isso – e assim não falaria, avançou as escadas, sem problema algum, seguindo o dom natural de encontrar Anúbis ela foi ao encontro dos dois Deuses. Saltou para a mesa, acabando por “deslizar” pela superfície lisa demais da mesa, e “escorregando” foi em direção a Anúbis, porém sem perder a pose jamais, quando conseguiu por fim firmar as patas naquela droga de mesa, sentou-se sobre ela, ao lado de Anúbis, olhando para Seth.* … *Ia falar alguma coisa, tinha chego no fim da frase de Anúbis, mas era Bastet, e Bastet tinha que falar alguma coisa, chegou até mesmo a tomar fôlego, mas o que saiu de seus lábios foi uma pergunta. Uma pergunta que não era dirigida a nenhum dos presentes.* - Maet? *Mesmo que fosse impossível para aquela forma, Bastet parecia mesmo franzir o cenho, manteve-se sentada, calada e escutando e então, sem mais nem menos, dirigiu-se a Anúbis.* - Volto em um segundo. *E o corpo do felino desabou mole sobre a mesa, e aquela visão sim, possivelmente enfureceria Seth, porque era tão simples para ela, porque ela podia tão facilmente – quando quisesse – e quando achasse que bem devesse transitar pelos mundos. Aquela visão, do corpo felno de Bastet neste plano, tombando sem vida, aquela visão de Bastet atravessando os mundos como se estivesse saltando de um muro para o outro, talvez fosse a gota para a ira do Deus do Caos. Porque no fundo ele sabia, que Bastet não compartilharia aquilo com ele, jamais.* … *Não preocupou-se em deixar proteções para o corpo, Anúbis estava lá, faria isso por ela.*

*Seth começava a se irritar, o que não era bom. Tamborilando os dedos no tampão da mesa arregaçada pela gata gorda. Sua natureza explosiva começava a ser cotucada.* Eu pouco me importo com as capacidades de Bastet. Eu quero ter para mim esse Dom. Para mim! Para tanto, basta ensinar-me. Sabe bem que não posso aprender um Dom divino se não for passado diretamente por outro deus. Ou você me ensina, ou eu tenho que achar esse Dom que outrora foi meu e que me foi tolhido. Tolhido por quem? Por vocês! E isso te inclui, Anubis, cuja omissão me condenou! *Deu um soco na mesa, levantando-se. Sentiu uma enorme vontade de arrebentar o filho de pancadas, mas por ser seu filho, o sentimento paternal o refreou. Não chegou a se levantar e foram as mãos quentes de Ísis que acalmaram seu espírito. Beijou-as, ainda sentado. Resolveu deixar para elogiar a beleza de Ísis naquele vestido de linho branco mais tarde, quando estivessem a sós. Bastet já havia andado pela mesa toda. Fazê-lo um pouco a mais não incomodou Seth, de fato. O que o deixou verdadeiramente furioso, sobretudo porque tratavam exatamente disso, foi a transição da gata. O corpo mole ficou sobre a mesa, diante de Seth, provocativamente. Respirou fundo e contou até dez. Por fim, encarou Anubis.* Vê? É disso que estou falando. *E, como alguém que tira uma caspa do paletó, Seth deu um tapa com as costas da mão exageradamente forte no corpo sem vida de Bastet, arremessando-a contra a parde antes que Anubis pudesse fazer alguma coisa. Aquilo, afinal, era só carne. Não que fosse afetar Bastet, é óbvio, mas Seth tinha esperança que ela tivesse ao menos uma dorzinha nas costas quando regressasse.* Esse ato de insolência da sua consorte é uma afronta, Anubis! Se você quer suas almas, eu lhe darei. Mas dê-me o Dom de que necessito! Você não tem nada a perder!

*Manteve-se sentado, manteve o rosto sóbrio e vazio, os musculos quase mortos, as mãos entrelaçadas, diante do chilique de Seth. Por baixo da mesa, uma das mãos de Anúbis, ainda com de luvas, tocou, com a palma, o tampo da mesa. Todos ali - Seth, Isis, e a gata que terminava de deslisar e voltar ao mundo dos mortos, poderiam sentir, por um breve instante, uma energia rapida vindo de Anúbis, mas logo voltando. Era como se as palavras de Seth o afetassem, e o deixassem sim, irado - mas ele controlasse os impulsos, para manter as aparencias que, ao que parecia, tanto lhe importavam. Anúbis ouvia com atenção, e entrelaçou os dedos das mãos novamente um no outro, ouvindo-o pacientemente. Havia ignorado Isis completamente.... Até o momento em que o corpo de Bastet foi acertado por um tapa de Seth. Agora, foi obvio. Foi obvio, e não foi fraca, a maneira como os olhos de Anúbis pulsaram, a negritude neles parecendo mais forte por um momento, os cabelos movendo-se a um vento inexistente.. naquele instante. Anúbis esticou os braços e colheu neles o corpo da amante, o depositando sobre o colo. Seus olhos estavam fixos em Seth. E sua voz, quando falou, foi ainda mais soturna do que o normal. * - Seth. És meu pai, meu criador, e por isto, nutro por ti estima em demasia. *E puxou o ar pelas narinas, soltando-o em seguida, enquanto falava. * - Porém, se em algum momento, proximo, distante, ou tão longiqüo que até mesmo todos os ossos da terra tenham reduzido-se a cinzas, voltar a tocar, em qualquer maneira, o corpo de Bastet... *E seus olhos cairam sobre Isis.* - Hei de tocar algo que também lhe importa em demasia. *E seus olhos estavam não sobre Isis, mas sobre seu ventre. Deixou-os lá pelo unico instante necessario para que a mensagem fosse captada, e logo voltou-se a Seth. Parecia mais calmo, agora.*

*Sentiu os beijos de Seth em suas mãos e levou uma delas ao rosto dele, carinhosamente. Retirou logo a mão, no entanto, eocupou o assento ao lado do consorte, passando uma mão por sobre os olhos. Sentia-se sonolenta, levemente tonta, mas evitou dar sinais de fraqueza. Levou um susto ao ver o corpo de Bastet ser atirado contra a parede.* Seth! *Exclamou, cobrindo depois os lábios com uma mão. Respirou fundo, os olhos fixos no corpo mole da gata. Baixou devagar a mão e cobriu uma das dele com a sua, mantendo silêncio. A ameaça de Anúbis, feita de forma inequívoca, fez suas mãos gelarem. A mão fria foi mantida sobre a do companheiro por breves segundos, antes de ser levada, junto com a outra, até as têmporas da deusa, que fechou os olhos, angustiada.* Cala-te, Néftis! *Exclamou, sem conseguir se conter. Levantou-se da mesa e correu de volta ao quarto, onde se jogou na cama, encolhendo-se ainda de olhos fechados e mãos nas têmporas, como se aquilo pudesse evitar que sua irmã a perturbasse. Sentia as ameaças da deusa ciumenta, e não conseguia se livrar das imagens que esta projetava em seus pensamentos, algumas que a levavam a crer, para sua preocupação, que Néftis já pressentira que estava carregando um filho de Seth - talvez por meio de alguma conexão com o filho, talvez pela invasão de sua mente - e pretendia usar isso contra ambos.*

*Foi um único golpe que bastou para que Seth arrebentasse a mesa de mármore maciço ao meio, que se espatifou por inteiro, depois, no chão - e, com ela, o símbolo de invasão de Anubis, que não passara despercebido pelo deus da destruição. A insolência do filho havia superado todas as expectativas.* Não se atreva a me ameaçar, insolente! Tampouco aos que me são caros. Se quiser ser meu inimigo, torça para que eu nunca saia daqui, porque quando o fizer, a sua cabeça e a de Bastet serão as primeiras a... *Mas Ísis havia saído. Não, havia sofrido um ataque direto, ali, no Abrigo, e correra angustiada para os aposentos. Seth ficou lívido. Toda a ira havia desaparecido e, aproximando-se tocou o rosto do filho com ambas as mãos.* O que sua mãe está fazendo? Impeça-a, eu ordeno! *Anubis poderia sentir o desespero do pai. Não o tocara com insolência, longe disso. Afinal, tocar Anubis para Seth era tão comum, tão... familiar. Talvez o toque fizesse com que Anubis se lembrasse do pai, de quando ainda, por algumas vezes, fora embalado pela voz poderosa de Seth. Nos olhos do deus da destruição, havia súplica.* Anubis... *Respirou fundo, agora com ambas as mãos sobre os ombros do deus do Julgamento.* Você é bem vindo aqui. Não precisa de selos... eu... *olhou para o quarto, para onde Ísis havia se retirado.* Impeça a sua mãe de fazer o mal a Ísis. Controle a sua inveja. Use da sua justiça para evitar o mal injusto! *E Seth falava com franqueza. A sua maldade, a maldade de Seth, era imbuída de Justiça. Ele nascera para destruir, mas assim era a vontade de Mâat. Não era da vontade de Mãat, contudo, que a destruição fosse da essência de nenhum outro, senão Seth. Néftis infrigia as regras do universo.* Quando eu me levantar - e eu vou me levantar - exterminarei sua mãe. *E, sem mais, deu as costas a Anubis, deixando-o ali com seus pensamentos, ponderando por si mesmo acerca da justiça que lhe cabia e da atitude insolente da mãe, aquela maldita cobra invejosa. O corpo da gata estava com ele, é claro.* Ísis! *As portas só não voaram quarto adentro por conta da telecinésia de Seth. Ajoelhou-se na cama, tomando a deusa nos braços.* Ísis, querida, fale comigo...

*Ele se levantou, quando Seth esmurrou a mesa. Mas não se levantou de súbito, e não se levantou com violência ou ira. Apenas se levantou, o corpo da gata em seus braços, bem seguro. Se fosse brigar com Seth - o que ele achava absurdamente desnecessário e tolo entre dois Deuses, principalmente entre pai e filho, sabia que, muito provavelmente, não usaria as mãos. Nenhuma delas, na verdade. As coisas aconteceriam sem que precisasse de seus dedos. Acima de tudo, porque aqueles dedos não eram seus - eram dedos de Joshua Parkon, seu hospedeiro. E aqueles dedos, lhe eram inuteis. Os olhos de Anúbis focaram-se em Seth, frios, duros, até mesmo vazios. E então, Seth avançou contra ele, e Anúbis, mais uma vez, não moveu-se ou alterou o rosto, deixando que o pai lhe tocasse os ombros. Se lembrava bem. Nunca havia esquecido. Se lembrava das canções de ninar, cantadas por Seth. Se lembrava das palavras. Se lembrava dos treinamentos. Jamais esqueceria. Impossivel, na verdade. O rosto de Anúbis mantinha-se idéntico, como se fosse congelado pelo tempo, como se os musculos houvessem se esquecido de como funcionar. Mas por dentro, sentia ira. Havia dito a eles - havia prometido - que Néftis estava sob controle. Tinha certeza que estava, pois tinham um trato. E ela acabara de quebra-lo. O plano dos Deuses tremeria, aquela noite. Sem dúvida alguma.Os lábios se abriram, enquanto ele falava. * - Não sou teu inimigo, meu pai. E Néftis pagará pelo que faz a Isis. Porém.. *E disse aquilo em tom mais alto, como se para chamar-lhe a atenção, enquanto corria.* - Perceba que sentes o mesmo que eu, quando tocar-tes em Bastet. Não crucifique seus aliados, Destruidor. *E virou-se, dando as costas a eles, e levava Bastet em seu colo. Mirava a saida.*

*Tremia, encolhida nos braços de Seth, molhada de suor. Os ataques de Néftis eram sempre devastadores. A deusa morena ergueu, com imenso esforço, o rosto para o consorte. Respirou fundo e tentou falar.* - Faça parar... *Pediu, fracamente. Mais uma vez, aquela desagradável sensação de enjoo, que só parecia dar o ar da graça quando estava fraca ou cansada, veio incomodá-la. Com um pequeno gemido, a deusa abraçou o estômago, que se revoltava como se estivesse num barco em movimento. Alguns segundos e muitas inspirações depois, Ísis conseguiu falar, lentamente.* N-não... não brigue com Anúbis. Vocês precisam se unir. Nós precisamos nos unir, como uma verdadeira família. *Falava num murmúrio, e logo abandonou as palavras faladas e começou a se comunicar com a mente de Seth.* Seja tolerante... Promova a paz com ele. Peça perdão, se necessário. Mas não arrisque a vida da nossa prole por causa do seu orgulho. *Uma mão fria acariciou o rosto dele.* Eu te compensarei. *Projetou na mente dele, antes de amolecer nos braços do deus, os olhos fechados e o rosto descansado indicando que havia dormido, ou perdido os sentidos.*

*Bastet passou todo o tempo, entre a discussão de Seth e Anúbis e o mal estar de Ísis, desacordada. Passou todo aquele tempo diante de outros Deuses, diante de palavras, acusações, ameaças, explicações e tudo o que podia se esperar de um chamado assim, tão repentino. Então, tinha perdido todo o show lá em baixo.* … *Quando Anúbis deu as costas ao pai, quando carregou o corpo de Bastet consigo, quando finalmente fez-se que saíra, o animal em seus braços estremeceu e abriu os olhos. De inicio, um tanto confusa, por não compreender porque estava no colo de Anúbis e porque Anúbis se movia para fora do lugar. No fundo sabia que o motivo era Seth, só podia ser Seth, mas não perguntaria, Anupu lhe falaria se quisesse.* - Estão reunidos. *Disse-lhe a Deusa gato, apenas aconchegando-se nos braços do amante. Ficou em silêncio logo após, deixando-se embalar pelo andar do homem, estava pensativa sobre o que viu e ouvi lá do outro lado, mas também curiosa sobre o que tinha acontecido deste lado enquanto estivera fora. Respirou fundo, voltando o olhar felino à Anúbis.* - Anupu... *Olhou-o no fundo dos olhos, presenteando-o com seu olhar felino, aquele olhar que Anúbis conhecia tão bem, aquele que queria dizer muito mais do que as palavras podiam acalçar, permaneceu com os olhos nele, por minutos em silêncio, até deixar o corpo transformar-se a forma humana, pela primeira vez deixando-se ser vista tão junta ao Deus do submundo, pela primeira vez, em “publico” sendo carregada nos braços de Anúbis. Passou os braços pelo pescoço do homem, repousando a cabeça em seu peito. Estava nua, como sua forma humana sempre estava e talvez isso incomodasse o Deus pelo lugar onde se encontravam.* … *Ela não falou mais nada, não julgava necessário dizer que haviam pressionado a Deusa-Gato.* - Você precisa ser forte, porque eu não posso ser forte sozinha. *E lhe sorriu, tocando o rosto com as mãos finas de garras afiadas.*

*Seth não havia dado mais bola para Anubis desde então. Confiava no juízo do filho. Não que ele pudesse fazer muita coisa, já que era Senhor do Submundo, enquanto que Hórus era Senhor do Sobremundo. Na balança, pelo menos, o lado dos mortos pendia para Seth. Sabia que Néftis não seria devidamente castigada como ele, Seth, desejava, mas ela ouviria no mínimo um belo sermão do filho. E, sim, Seth era instável e genioso, mas encerrava em si a justiça, a mesma com a qual julgara as almas quando fora ainda predecessor de Anubis. Não poderia jamais atacar Bastet, tampouco Anubis por mero prazer. Seth era, afinal, a mão esquerda de Deus: Destruiria o que deveria ser destruído, recomporia os pesos na balança. De algum modo, a balança seria reajustada e a harmonia restabelecida. Fosse por ele ou não - embora Seth torcesse muito para que pudesse ele mesmo retalhar Néftis em mil pedaços.* Como uma família, meu amor... como uma família... *Mas Ísis se desfalecera. Seth não conseguiu perscrutar sinal da deusa. Havia desmaiado, provavelmente. Seth a fitou, pálido. Algumas servas entraram correndo, encobertas naquele traje que lhes cobriam todo o corpo. O deus se afastou alguns passos, sem deixar de olhar o corpo moreno de Ísis inconsciente. Lembrou-se do que ela disse... um clamor sem forças... "faça parar"...* [...] *Seth fechou os punhos, ambos os punhos. Néftis havia ido longe demais dessa vez. Longe demais a ponto de deixar Seth realmente furioso como há muito, há muito não ficava. Diante da cama de Ísis, o deus contraiu todos os músculos, quebrando um dois dedos tamanha a força que impunha aos punhos. Os olhos ficaram negros, todos os dois, como se houvesse apenas dois buracos negros no lugar dos olhos e nenhuma vida lá dentro. O ódio alimentou a essência de Seth. O ódio o fez, como o faz, poderoso. Sua natureza caótica se alimenta de energias negativas. E as violentas investidas de Néftis não o haviam deixado nem um pouco contente. No céu, as esparsas nuvens do deserto se adensaram, pouco a pouco, até que, num vórtex caótico começassem a girar, como se formasse o olho de um tornado sobre o grande templo de Abu Simbel. Os relâmpagos eventuais davam tons esverdeados a essa massa turbulenta. A terra começou a tremer, lentamente e, depois, violentamente, numa agonia crescente. No oeste, os mares se agitaram. No norte, pontes cederam. No sul, árvores tombara. No leste, uma tempestade de areia se formou. E isso era só o começo. A força destrutiva de Seth ascendia de maneira exponencial e isso já lhe fugia ao controle. Não havia agora o beijo cálido ou as mãos quente de Ísis para contê-lo. A energia de Seth expandiu numa ventania incontrolada. O mar, no leste, recuou 2km antes de lançar sobre o continente um tsunami capaz de varrer qualquer vilarejo que lá se encontrasse. Foi a primeira vez que uma catástrofe natural atingiu a Núbia com força suficiente para destruir 1/6 da população. Mas não foi na Terra que o pânico se estendeu.* [...] *O deus falcão, Hórus, se levantou do trono de ouro e luz, visivelmente pálido. Um tremor agitava o Palácio de Rá. Foi um tremor apenas, é verdade, mas o suficiente para derrubar vasos e castiçais. Hórus, seguido de sua guarda pessoal, correu para o Salão das Armas.* [...] * Néftis gargalhava quando sentiu. Não tinha ciência donde havia se metido Anubis e sua consorte, aquela gata dos infernos. "Provavelmente trepando em algum lugar", pensou, com nojo. O importante era que Ísis sofria. Então veio aquela força. Ela a conhecia. Vivera ao lado dele por milhares de anos. E estava inteiramente direcionada a ela. Ela cambaleou e, com um grito de pavor, desmaiou.* [...] *Sobek estava sentado no piso de mármore branco, que brilhava à luz do Sol no plano divino. Ele sentiu o solo rachar e pode ver uma abertura arrebentando o mármore, bem diante de si, os pedaços de rocha se soltando e uma luz negra, meio arroxeada, disparando para cima, como um farol de maldade. Em pânico, deu um ou dois passos para trás para só então virar-se e correr desesperadamente.* [...] *A energia de Seth, súbito, então se esvaiu. Fora demais para ele, mas o suficiente para que sua força ecoasse noutro plano. Antes de tombar ao lado de Ísis, inconsciente e com um sorriso nos lábios, pôde ter a certeza que, uma hora ou outra, pisaria no plano divino e massacraria todos os que a ele se opusessem.*

*Olhou para ela, quando ela acordou. Olhou e sorriu sutilmente, um dedão lhe acariciando o rosto felino. Estava obvio, na maneira como ele abriu os lábios para dizer algo, mas os fechou em seguida, quando ela falou, que iria lhe contar. Talvez não naquele momento, em que ela parecia prestes a lhe dizer algo, mas contaria. Perguntou, logo que ela falou que estavam reunidos. Deuses reunidos, nunca era uma boa coisa. Nunca se reuniam por algo simples, por algo corriqueiro. Havia algo de importante ali. * - Todos eles, Ubasti? *Não parecia afetado pela noticia, mas ela o conhecia. Ela sabia que aquilo lhe incomodara, que aquilo, pelo menos em breve momento, lhe preocupara. A aconchegou mais contra o corpo, quando ela lhe sussurrou o nome, lhe olhando tão profundamente. Os olhos de Bastet pareciam feitos de mágica, mágica criada com o unico intuito de prende-lo, enfeitiça-lo. E os de Anúbis eram tão fundos, tão frios, tão vazios, que lembravam um grande poço, cheio de pichê. Que lembravam a própria morte. Como olhos tão carregados pelo destino fatal que assola a todos, naquele momento, foram capazes de lhe entregar olhar tão terno? Quando o corpo dela assumiu a forma humana, ele a aconchegou melhor, e o corpo de Bastet se cobriu por algo sem peso, sem textura, tão fino que ela sentiria-se nua, mas, para quem visse, lembraria em muito, um grande pano acizentado, fluido como a agua. Um pano tecido dos próprios espiritos. Deixou que ela lhe tocasse o rosto, e lhe beijou a mão, se inclinando depois para tocar-lhe os lábios, em um beijo terno, uma promessa de força. Não disse nada, mas ela sabia. Sabia o que se passava em sua mente. Sabia que ele, antes daquilo, já estava alterado, e agora, algo queimava dentro de Anúbis. * ... *Caminharam, juntos, para fora do templo. Anubis não demonstrou reação diante da fúria que assolava todo o deserto, mas Bastet, justamente por estar tão perto, sentiu seu coração bater mais forte por um segundo. Aquela, era a fúria de Seth. Aquela, era a fúria de seu pai. E aquilo o assustou, por meio instante. Mas negou o sentimento, e ele sumiu, enquanto caminhava sem medo para o deserto, ignorando a tempestade, os furacões, e tudo. Tinha assuntos a resolver. Por seu futuro, e pela honra da Deusa que se aninhava em seu braço, uma dócil felina caseira, ele tinha assuntos a resolver. Nada lhes açoitaria, como se as forças se perdessem ao aproximar-se dos Deuses... E dentro de alguns passos, ambos, Anúbis e Bastet, desapareciam no deserto. *

Nenhum comentário:

Postar um comentário