*Ísis se sentou na cadeira que Seth havia puxado e ficou quieta enquanto ele e Bastet trocavam aquelas tiradas ácidas. Manteve-se em silêncio, apenas ouvindo, até que o tom de seu companheiro passou a ser de ameaça. Respirou fundo, sacudindo brevemente a cabeça num gesto negativo.* Seth. *Murmurou apenas, em leve tom de repreensão. Depois, voltou-se para a deusa felina e acariciou-lhe novamente os pelos negros.* Agradeço sua gentileza, Bastet. *Murmurou, com suavidade.* E creia-me, apesar de sabermos que ele nunca irá admitir, fazer algo por mim é, de certo modo, fazer por ele também. *Cruzou as mãos no colo após essas palavras, pondo as ideias em ordem. Fechou os olhos, tentando localizar algum outro deus por perto, mas, como sempre, parou ao encontrar a mente de Seth no caminho. Não sabia se a conexão era forte demais ou se ele estava tentando impedi-la deliberadamente de empreender aquela busca. Precisaria verificar isso mais tarde, em particular. Abriu os olhos escuros, que foram erguidos para o céu por instantes. Ficou de pé e foi-se encostar na amurada, olhando a água. Apoiava as mãos ali, pensativa, distante. Estava, não pela primeira vez, relembrando seu passado. Os lábios apertados indicavam sua intensa concentração. Pensou novamente em Hórus, e no que poderia acontecer quando se vissem novamente em seu plano, e estivessem cara a cara com todos os deuses do lado oposto. O que, com exceção de Bastet, provavelmente seriam todos. Suspirou. Não queria ter de combater o próprio filho, mas se estivesse em seu destino, assim seria. E, pensou, combate por combate, antes ela do que Seth. Acreditava que o companheiro não limitaria sua fúria direcionada a Hórus, mesmo em se tratando de seu filho. Consigo, ele ainda teria tempo de mudar de ideia, pelo menos de argumentar antes de combater. Ao menos, era o que esperava.* O que disseram? *Perguntou, voltando-se na direção dos outros dois deuses.* Chamaram-me?
*Bastet não possuía lá um humor muito refinado, e talvez brincar com a gata não fosse realmente das idéias mais saudáveis a se ter. Era arisca e geniosa e conseguia, de alguma forma não tão facilmente explicável, que muitos fizessem suas vontades sem questionamentos, e um desses, era, sem sombra de dúvidas Anubis.* [...] *A gata revirou aqui e ali, empurrando com a pata uma coisa ou outra para verificar com o focinho do que se tratava, sempre aparentando não estar dando atenção ao que Seth falava, verdade era que, em citar a neutralidade de Bastet na maioria dos assuntos to panteão, mais coberto de razão ele não poderia estar e isso afetava em muito como seus irmãos a viam e talvez por esse fator, muitos duvidavam das capacidades e poderes e influencias de Bastet, o que poderia ser nada mais do que um grave erro, querendo ou não, gostando ou não, a felina era uma Deusa, como todos os outros o eram e não estava longe ou abaixo de nenhum deles, só estava sempre calada e atenta.* - Como vim não é assunto seu, Seth. *Respondeu depois que se espichou sobre a mesa, esparramada e folgada como sempre, moveu as patas, acertando uma uva que rolava de um lado para o outro, estava entretida da atividade de "caçar" a uva.* - Ah, Seth. Você nunca muda, só vê o que deseja, nunca se deixa abrir a novas experiencias, talvez por isso seja tão frustrado. Diga-me, você tem sido feliz sexualmente? Às vezes fico imagino, que talvez todo esse seu péssimo temperamento e humor provém de noites mal aproveitadas. *E sempre acida em seus comentários não poupava esforços para fazê-lo ficar ainda mais furioso.* - Os mortais são incríveis. Tão frágeis, tão quebráveis, tão instáveis... Mas acima de tudo... Tão fortes! *Agarrou a uva com as patas, apertando-a e deixando-a escapulir de novo.* - Noto o quão sozinho sabe se virar, Seth. *E então ele lhe fez aquela ameaçava velada. Bastet parou o que fazia, parou simplesmente para deitar-se e manter-se olhando para Seth por minutos que para ambos seriam como eternidades sem fim, aquele olhar felino sobre os olhos do Deus caótico, todo aquele silêncio e tensão sobre ambos. Bastet permaneceu deitada, sentiu Ísis lhe acariciar o pêlo e se afastar, mas manteve se olhar sobre Seth. Então seu corpo alterou-se de novo, crescendo e crescendo sobre a mesa, ela ainda estava deitada, mas o corpo felino de Bastet aumentava cada vez mais, tomando proporções de um felino de grande porte, a mesa trepidou, os pés arriando de leve, até quebrarem e levar tudo ao chão, a "gata" que agora mais parecia uma pantera, caiu de pé.* - O que foi que disse, Seth? *Indagou o felino grandalhão sentando-se com calma sobre a bagunça da mesa quebrada.* - Não escutei direito, esse som do mar sempre altera minhas percepções.
*Seth não se deteria diante de nada, possivelmente. Até há duas semanas atrás, pelo menos, a destruição em massa de tudo e qualquer coisa que lhe viesse à mente era seu único objetivo. Mas não a destruição aleatória, impensada. Malgrado sua natureza caótica, o cálculo preciso de uma destruição arquitetada, infiltrada no seio social, era um dos alicerces de seu império. E o é, ainda. Entretanto, o própria Seth ainda não havia considerado a condição de sua consorte, cujo ventre possivelmente geraria uma criatura poderosa, meio humana e meio divina, que obviamente necessitaria de uma Terra intacta para viver. Talvez, o amor de Ísis tenha salvado a Terra. Era esse amor que equilibrava o espírito de Seth e sua vontade de voar no pescoço de Bastet. À medida que a deusa o provocava, os punhos de Seth se fechavam com mais intensidade, até que o dedo anular se quebrou. Mas ele não pareceu notar. Ao incitado sobre a vida sexual, engatilhou três frases pouco educadas que relacionavam felinos, cio e orgias, mas a intervenção de Ísis o fez ficar calado. A racionalidade voltava, aos poucos, e os sentidos animalescos que o faziam ver em Bastet tão somente uma presa - uma presa a princípio bonitinha e fofinha, é certo, mas ainda assim uma presa - acabaram por mitigar-se. Estalando os punhos e reconstituindo o dedo quebrado, ponderou que era mesmo insanidade atacar Bastet. Provavelmente porque ia doer, em primeiro lugar: já fora arranhado antes (e sabia que uma pantera tinha garras um pouco mais perigosas do que as de um gato). E, em segundo lugar, a eventual destruição de Bastet poria fim ao sentido da busca pela deusa. Não, Bastet, em verdade, era-lhe muito cara. Conseguiu dizer, apenas, à pantera que espatifara toda a mesa - que somava mais de mil dólares em decoração, louça e etc.* Ok. Você quebrou a minha mesa. *Não adiantava. Sabia que Bastet tinha um gênio dos infernos. Sempre tivera. A gata falaria quando bem quisesse e forçá-la era absurdo: Bastet era melhor como aliada do que como inimiga e Seth ponderou que deveria tentar eliminar a neutralidade da deusa ou, no mínimo, fazê-la pender para o seu lado da balança. É verdade, é certo, que de todos os deuses que o extirparam, um ou outro não se fizeram cruéis ou injustos. Ainda os que o condenaram, encerravam em si certa concretude de justiça, a exemplo de Thot e Tawaret. Bastet, com sua neutralidade usual, era o mais próximo que Seth, em toda uma eternidade, conseguiria tomar por amiga.* ... mas tudo bem. Eu... *E, notadamente, contrariado, cerrou os dentes, exarando um...* Sinto muito. Não quis ofendê-la. *Olhou para Ísis, procurando ver em seus olhos se a atitude era acertada. Talvez fosse um indício que sim, a presença dela de certo mudaria muitas coisas de agora em diante.* É que me expresso mal, às vezes. Certo, Ísis?
*Ficou calada após aquela leve repreensão ao companheiro, ouvindo vagamente as palavras trocadas entre Seth e Bastet. Sua mente estava concentrada em outros assuntos, outro plano. Perdeu por isso o momento da transformação da gata em pantera, embora tivesse ouvido os ruídos das louças e da mesa se quebrando. Perdeu a maior parte das palavras trocadas entre os dois, mas ouvir seu nome a chamou de volta à realidade daquele plano onde estavam todos presos. Sorriu para Seth, um sorriso de aprovação. Olhou para Bastet em seguida.* É verdade, minha cara Bastet. Seth não é muito polido no trato social, coloquemos nestes termos. *Afastou-se da amurada e se aproximou do companheiro, entrelaçando comodamente o braço ao dele.* Sinto muito por isso. Não queremos ofendê-la. Não foi para isso que a chamamos. *Suspirou, franzindo de leve a testa. Várias dúvidas passavam por sua mente, mas optou por deixá-las de lado no momento.* Nós a chamamos porque sabemos que você não é uma inimiga. Também não é, ainda, uma aliada, mas pode ser. Se quiser, é claro. Não lhe queremos impor posição alguma. Sei que não poderíamos. Somente queremos pedir sua ajuda para nos proteger, caso não sejamos capaz de fazer isso sozinhos. *Olhou para o lado, para o rosto do deus da destruição.* Tenho certeza de que Seth combateria todo o panteão para me defender. *Encostou a cabeça ao ombro dele, uma expressão algo sombria nos olhos.* Mas não quero que ele seja forçado a fazer isso, posto que nenhum de nós pode prever os resultados de tal combate, que poderia muito bem resultar na destruição de toda a ordem estabelecida desde que surgimos.
*A felina era o ego em pessoa, em momento nenhum tirou seus olhos felinos de cima de Seth, esperando a conclusão de sua velada ameaça, ela funcionava sistematicamente; se há de ameaçá-la que as cumpra. Detestava meias palavras ou qualquer outra coisa que não lhe desse fundamentos, Seth talvez por mais caótico que fosse, podia notar que dentro do olhar felino de Bastet, tinha mergulhado de encontro a uma poderosa inimiga, atiçando a irritação da Deusa da Noite e da Fertilidade. E então ela se levantou, sacolejando o corpo grande - perto de Seth - de proposito para livrar-se da sujeira em que tinha se enfiado pela mudança brusca de tamanho, caminhou para longe da mesa ficando de costas para ambos, sentou-se olhando o mar, o rabo fazendo a volta nas patas unidas. E assim ficou, no mais completo e absoluto silêncio. Talvez, só talvez... Tivessem perdido o auxilio da Deusa.* ... *E assim ela ficou, por mais de um minuto, por mais de dois ou três, parada ali, como uma estatua a olhar o mar que subiam tão vagarosamente, não movia um músculo, não falava uma palavra, nem sua respiração - se é que possuía uma podia ser ouvida. E então a densa fumaça formou-se diante de Bastet, o cheiro de enxofre mesclado a um vento leve e frio, e das profundezas dos segredos da gata, eles surgiram.* ... *Talvez para espanto de Seth e Ísis, os que se prostraram diante de Bastet de joelhos, como se lhe fossem leais servos, não era soldados com cabeças e caudas de gatos, estavam longe de ser o exercito de Bastet, estavam longe de ser os homens felinos... Eram... Anubites. Dois deles, ajoelhados diante da gata. Um dos soldados levantou a cabeça levemente, para olhar a gata e de sua boca, com clara dificuldade em pronunciar as palavras, exaltou o nome da felina.* - Ba-en-Aset.... *Disse cada palavra pausadamente, não estavam ali para falar, não precisavam falar, eram soldados de fúria e ódio, prontos para o combate, mas... Por que Anubites estavam servindo a Bastet? O segundo, ainda ajoelhado estendeu uma das mãos, aonde segurava um vestido de tecido fino e claro, oferecendo-o a Deusa, que ergueu seu corpo felino, transformando-o em humano de novo, como antes, completamente nua, segurou o vestido com uma das mãos - descontente - e tratou de começar a vesti-lo.* - Peça por favor, Seth. *E foi tudo que disse, depois de tanto tempo em silêncio.* - Peça por favor, quero ouvi-lo pedir. *Ainda se vestia, ainda não olhava para eles. Ainda estava ali, ao lado dos servos de Anubis.*
*A Esquadra fundeou num ponto do Nilo em que não havia vida racional visível. Apenas os crocodilos se viravam, volta e meia, para a lua. Seth havia invocado os mortos para que navegassem, ao lado do iate em que se achava junto a Ísis e Bastet, a fim de que protegessem sua consorte de qualquer ataque externo: serviam, em verdade, como um "pára-raios de ataques do plano divino". Desde o encontro entre Seth e Ísis, há duas semanas, e do consequente despertar da deusa, o corpo que ela ocupava vinha sofrendo ataques sucessivos do plano divino - o que caracterizava grave violação das regras naturais do universo. Tais regras, por assim dizer, tinham exceções. Explica-se: um deus não poderia intervir no plano terrestre, sob pena de violação do livre arbítrio. Entretanto, em algumas situações, a intervenção era praticamente obrigatória para manter-se o equilíbrio e a harmonia de Mâat, a exemplo de sacrifícios, oferendas e rituais. A intervenção gratuita, como aparentemente eram os ataques contra Ísis, implicavam em uma violação que vinha sendo provisoriamente - e talvez insuficientemente - contida com a proteção de amuletos e fetiches determinados. Para trazer a deusa a salvo, Seth a levava agora, consigo até os subterrâneos do grande templo de Abu Simbel, onde mandara erguer um abrigo. Ainda, conseguira localizar Bastet, a gata de temperamento insuportável, trazendo-a à presença de Ísis. Para o próprio Seth, a presença de Bastet era uma grata surpresa, ainda que volta e meia tivesse a genuína vontade de chutá-la para os crocodilos. Procurava agora estabelecer uma relação mais cordial com a gata, mas sua natureza impaciente e destrutiva era um empecilho; felizmente, Ísis cuidava de atenuar esse choque entre ele e Bastet, que teimava em cotucá-lo a todo instante. Quanto ao resto do mundo, nada que fosse muito diferente do que sempre foi: As pessoas continuavam a se matar. A organização de Seth só fazia crescer e suas forças eram comandadas pelos Sete Chacais - os sete generais do antigo Egito que lhe foram sempre fiéis e que agora, amaldiçoados pelo vampirismo, vagavam pela Terra seguindo suas ordens e comandando o Clã Setita. No Clã, os Sete Chacais eram os Sete Anciões. Para Seth, eram chacais numa homenagem singela ao seu filho, por quem nutria certo afeto, embora demonstrá-lo não fosse lá de sua natureza. Os Sete eram um dos poucos que tinham ciência da existência de Seth; o resto do clã e dos servos aguardavam a vinda de um deus que traria consigo o apocalipse - ou a Gehenna. Para Seth, contudo, a humanidade e a Terra não mais importavam. Pelo menos até desconfiar que possivelmente teria um filho que precisaria de uma Terra sã para viver.* Não é aliada, ainda, tem razão... *O deus da destruição, da guerra e do caos afagou a cabeleira negra de Ísis em seu ombro, mas não tirou os olhos da pantera.* A sua neutralidade me foi ofensiva quando de meu expurgo, Bastet, mas ela a salvará quando eu ascender novamente. *Envolveu Ísis com os braços, à medida que falava, mas não se tratava de um desafio à pantera, isto é, não que tomasse ísis como escudo. Apenas a recebia, como um bom esposo, sem deixar de encarar a felina.* Ísis... que diabos essa gata está fazendo? *Foi o que conseguiu dizer, enquanto limpava a sujeira que voara sobre si quando do chacoalhar de Bastet e esperava que a gata dissesse alguma coisa, vez que se achava parada há um bom tempo. Seth ia dar um passo para cotucá-la quando sentiu a presença da aura do filho. Era algo que há muito não sentia, mas a julgar pela intensidade, presumiu certo ao constatar que se tratavam de...* Anubites? É uma liquidação? Até ontem eu andava sozinho pela Terra. Agora, tenho Ísis ao meu lado. Eis que duas semanas depois, lido com... Bastet e agora... *Falava com Ísis, cochichando furioso e apontando para a gata que, em sua forma humana, vestia-se.* Anubis desposou essa...? *Para Seth, sem dúvida, era a pior nora que se poderia ter. Só não concluiu a frase por conta da insolência crescente de Bastet. Era o sorriso de Ísis, contudo, que o forçava a dar aquele sorriso imbecil amarelado. E foi com esse sorriso que ele conseguiu dizer - e essa, sim, foi a maior guerra que Seth já travara em seu interior.* Por favor, Bastet. Precisamos da sua ajuda. Mas... há algo que... *E, fitando os Anubis, a surpresa superada pelo descontentamento em ver o filho se enveredando para o lado da gata, que concluiu.*... há coisas que precisamos conversar. *E apontou para os servos. Das duas, uma, pensou: Ou Bastet era algo que prestava ou o filho tinha se tornado um belo dum retardado. Seth pendia para a segunda hipótese, mas poderia estar errado.*
*Seth poderia sentir, segundos depois dos Anubites aparecerem. Talvez não só Seth, talvez todos ali pudessem sentir - eram Deuses, afinal de contas: os espiritos, os espiritos que corriam ao lado do barco pelas aguas, pareciam se agitar. Não só pareciam, como definitivamente, se agitavam, nervosos, como se algo os estivesse assustando. Como se alguém, os estivesse assustando. O barco balançou sutilmente de um lado para o outro, talvez pela indisposição e aflição das almas que o carregavam. Os Anubites também, de alguma forma, pareceram ficar nervosos, pouco contentes, aflitos, como se algo estivesse se aproximando. As aguas do rio talvez se agitassem, os crocodilos e outros animais por perto talvez se assustassem, alguns fugindo, outros mostrando as presas, para tentar se defender. E então, eles escutaram passos. Passos firmes, decididos, de alguém que não tentava ser sutil, que se aproximavam... E de uma sombra proxima, proxima demais para que todos aqueles passos realmente fossem necessarios, a figura de um homem alto, magro, branco como a lua e de cabelos compridos que lhe emolduravam o rosto, se fez presente. Caminhou pelos Deuses como quem caminhava sutilmente por uma manhã de domingo, sempre carregando um sorriso tranquilo, nos lábios finos. Parou entre os Anubites, que abaixaram-se aidna mais, ajoelhando perante a presença de seu verdadeiro mestre, os focinhos quase tocando o chão. Virou o rosto para Bastet, e seu sorriso se abriu por um instante, a mão enluvada lhe acariciando, por um momento, o rosto. Virou-se novamente de frente para os outros dois, então. Mantinha-se sempre um pouco a frente da Deusa ao seu lado. Quando abrius os lábios, sua voz se mostrou. Uma voz soturna, baixa, quase sussurrante, mas carregada de uma frieza capaz de gelar o próprio Saara, e de um tom imperial digno dos maiores dos reis. Ele fez um maneio sutil da cabeça, como uma leve reverencia, com os olhos sobre Seth. * - Pai. *E então, virou o rosto para Isis. A reverencia foi menor. * - Isis.
*Isis ficou, como sempre, quieta, deixando-se apenas ouvir enquanto sua influência não era necessária. Permitiu que Seth a abraçasse, passando os braços por sobre os dele. Apoiou a cabeça ao peito do companheiro e ficou olhando para Bastet. Pensava na dificuldade que teria para manter aquelas duas forças em equilíbrio. Não era uma tarefa invejável. Suspirou e baixou a cabeça. Não tinha opção senão assumir a empreitada. Ergueu o rosto quando sentiu aquela presença próxima. Sentiu um frio lhe percorrer a coluna, e o coração que batia em seu peito se acelerar. Ela estava com medo. Seth, pelo menos, poderia sentir. As mãos morenas agarraram com mais firmeza os pulsos do consorte, como se pedisse tacitamente a proteção dele. Bastet não era uma aliada. Anúbis, muito provavelmente, também não. Estava mais inclinada a pensar em Anúbis como alguém interessado em feri-la, sendo filho de Néftis. E agora que seu corpo mortal estava em estado fragilizado, tinha receio dele. O cumprimento do filho de seu companheiro a tranquilizou apenas um pouco. Ela meneou a cabeça numa reverência mais prolongada.* - Anúbis. *Murmurou, a voz normalmente plácida com um claro tom de tensão. Olhou para os Anubites, depois para seu mestre. Os olhos passaram para a figura humana de Bastet, depois, voltando o rosto de lado, fitou Seth. A mensagem daqueles olhos negros era clara, ao menos para ele, com quem possuía aquela conexão mental. Seu medo era quase palpável a ele. Ou talvez, fosse realmente palpável, em suas palmas frias, e na leve camada de suor que começava a molhar sua pele. Apertou ainda mais fortemente os pulsos de Seth, quase o bastante para machucar. Sentia Néftis ainda mais próxima, a perturbação dela recomeçando em sua mente. Fechou os olhos, tentando fazer aquilo parar. Sua testa, agora, estava orvalhada de suor, e a deusa tremia levemente, entre os braços de Seth. Após cumprimentar Anúbis, não deixou escapar mais uma palavra sequer.*
*E talvez, pela primeira vez em todo aquele tempo, pudessem notar um sorriso realmente sincero na face de Bastet, que apenas deteve-se a fechar os olhos quando Anúbis lhe acariciou o rosto, nada além disso, sempre reservada ao máximo a felina. Dedicou-se apenas a olhar a entrada de Anúbis e as reações dos demais Deuses a chegada dele, verdade era que também não esperava vê-lo por ali, mas nada podia ser mais do que uma agradável surpresa tê-lo por perto.* ... *Não exibiu nenhuma reação ao ouvir Seth realmente pedir o auxilio da Deusa daquela maneira, forçando-o a pedir-lhe de maneira cortês sua ajuda. Queria rir; rir debochadamente, mas conteve-se para não ter de lidar com um leve ataque de fúria da caótica entidade, não estava com paciência para brincar de gato e rato.* ... *A felina voltou a aproximar-se dos Anubites, mantendo-se um passo atrás de Anúbis, tocou-lhe delicadamente uma das mãos, mas não chegou a segurá-la, ele tão bem sabia que Bastet odiava exibições desnecessárias ou exageradas, podia sim, ser uma fogosa amante, mas aos olhos dos outros, era sempre Bastet a reservada e calada Bastet. Para Anúbis, era a amante. Olhou Ísis tremula e assustada diante da presença de Anúbis e sentiu-se até um pouco mal com tudo aquilo, porém verdade era que não possuía culpa alguma, tinha pedido apenas a presença dos dois guardiões que Anúbis insistiu que a seguissem depois que tinha retornado ao plano terrestre - guardiões que ela julgava desnecessário - mas Anúbis era tão teimoso - ou mais - que o próprio Seth, no fim, acabou por ceder ao pedido do amante.* - Tudo bem. *Por fim, se pronunciou, olhando para Ísis.* - Será um prazer auxiliá-la, Ísis. Farei tudo que estiver ao meu alcance para ajudá-la. *E jamais, digo, de maneira alguma, incluía Seth em suas frases.*
*E, de fato, Seth pôde sentir a presença do filho adensando-se antes que ele se materializasse no iate. Alguns dos espíritos que estavam nos navios fantasmas ao redor se lançaram na água, desaparecendo antes de se chocar contra a superfície do Nilo. Era a primeira vez que encontrava tantos deuses. Esperara muito por este momento, mas hesitava. Ísis era seu ponto fraco e temia que pudessem utilizá-la. Por isso, tomou a frente da deusa, afastando-a para trás com o braço direito. A vestimenta que se materializou em Seth, lentamente, como se bordada pelas sombras, era marrom e um capuz lhe cobria a cabeça. O traje de guerra foi complementado pelas duas foices que lhe surgiram nas mãos, tingidas pelo sangue de mil guerreiros. Seth trucidaria quem fosse se houvesse qualquer vestígio de ameaça a Ísis e sua prole. Podia sentir o medo pulsante em Ísis. Arrancaria a cabeça de Anubis se necessário. Não deteria seu braço nem diante do filho. Quase que instantaneamente, os Sete Chacais se materializaram, três do lado direito de Seth, três do lado esquerda. Um deles permaneceu em silêncio ao lado de Ísis e os demais, bem como Seth, se mantinha à frente da deusa. Qualquer sinal de ataque seria repelido instantaneamente, podia-se constatar, diante do saque violento das foices egípcias de cada um deles.* Se eu perecer... *Sussurrou Seth na Mente de Ísis, de modo que só ela pudesse escutar.* Você será levada em segurança para longe daqui. Não tema. *Não deixaria que Ísis perecesse, ainda que para isso viesse ele mesmo a tombar. Anubis e Bastet juntos era demais para Seth, sobretudo por conta da sua força, que se achava ainda pela metade. Mas um deles cairia junto de Seth, se uma batalha eclodisse. Mas a reverência de Anubis não era indicativo de embate. E ouvira o cumprimento do filho...: "Pai"... Seth esteve com o filho quando ainda era jovem - o que seria mais ou menos algumas centenas de anos. Lembrava-se de ensiná-lo a guerrear, a combater e a viver sob a lâmina. O Dom do Julgamento fora concedido diretamente a a Anubis, razão pela qual ele acabou por assumir o Submundo. Mas nunca o tratara como filho; sempre como um deus, um deus poderoso a quem todos deviam respeito. E isso, Seth pensava com gosto, incluía o próprio pai. Mas o choque em ver o filho, em ver Bastet, a confluência de eventos era tão... inusitada, rápida demais, que fez com que Seth fosse um pouco mais severo do que pretendia ser. Ou um pouco mais prudente.* Você... Mas o que é isso, uma liquidação de deuses? Hórus tem chutado todo mundo lá de cima? O que faz aqui, Anubis? E... junto de... Bastet...? *A pergunta saiu com um tom de sadismo desnecessário. Na cabeça de Seth, Anubis se envolvia com uma deusa que tinha tpm eterna. Os Sete Chacais estavam ávidos pela cabeça dos Anubites. Seth respirava controladamente, o espírito de guerreiro pronto para o embate, como um mergulhador prestes a saltar na piscina, ainda que não captasse em Anubis qualquer intenção hostil. Alguns dos espíritos corajosos que ainda ficaram nos navios também sacaram suas espadas, ávidos pela chance de dar uma surra naquele que um dia os julgou. Com um gesto, os Sete Chacais baixaram as lâminas, mas não deixaram de encarar Anubis, nem Bastet, a deusa tarada (não resisti, player).* É a primeira vez... *disse, afinal* Que reencontro meus semelhantes. É um motivo de alegria, devo dizer. A adorável Bastet... *E Seth procurou disfarçar o desgosto em dizê-lo.* ...e o justíssimo Anubis. A irmã diz que vai nos ajudar... *incluiu-se, malgrado a inexistência de referência direta a Seth.* E fico feliz. Mas isso pode trazer problemas a você, Bastet. Compreende isso? Isto é... Néftis... *E evitou olhar para o filho*... não ficará nada feliz. Por algum motivo escuso ela deseja nos prejudicar, aquela maldita. E eu pretendo descobrir o porquê. Talvez você saiba... já que é filho dela... *Agora, falava com Anubis. E falava como se Anubis fosse amaldiçoado por ter uma mãe tão... hum... lazarenta como Néftis. Bem, talvez o fosse, porque não havia maior poço de inveja, ciúme e traição que Néftis, ex-esposa de Seth.*
*A sensação era sublime. O medo de Isis, o receio crescente de Seth - não importava se era seu pai, e se por ele nutria respeito, Seth ainda demonstrava, em sua precaução exagerada, medo pela presença de seu antigo filho. E aquela emoção - o medo, entrava pelos poros de Anúbis como um doce droga, lhe enchendo ainda o mais o previamente inflado ego do Deus da Morte, do Sepultamente, e da Justiça. Diante da presença dos chacais, os Anubites se levantaram, as pequenas foices em cada uma de suas mãos refletindo uma luz inexistente, enquanto os corpos magros se curvavam, e as presas dos guardiões se mostravam pelos lábios caninos que se erguiam, dentro de um rosnado silencioso. Anubis deixou que sua mão fosse tocada por Bastet, e seus dedos, sutilmente, acariciaram a dela, naquele breve instante de toque. Anúbis revirou os olhos de maneira discreta por um breve momento, como que impaciente, diante daquela situação. * - Basta. *A voz deixou a boca no mesmo tom de antes, como sempre fazia. * - Somos Deuses, não plebeus. *E fez um aceno da mão no ar, de maneira sutil, como que dispensando algo, e os Anubites reduziram-se a fina areia de deserta, sendo carregados por um inexistente vento, para um local, provavelmente, também inexistente. Seus olhos se fixaram nos de Seth. Olhos frios, negros como a noite, negros como a areia do Submundo. * - Motivos impulsionam cada um de nós, creio eu. *E então fez uma pausa quase dramática, deixando que sua fala percorresse a sala. * - Quanto a Néftis, ela está.... sob controle. *E então, como se levemente surpreendido, virou o rosto para uma direção, e seu sorriso, por um breve instante, desapareceu. Virou-se nvoamente para o pai e para Isis. * - Preciso ir. o dever me chama. Foi uma honra, reencontra-los. Nos veremos em breve. *E então, novamente, fez a reverencia com a cabeça para os dois. Deu-lhes as costas - ignorava completamente os chacais, como se, simplkesmente, não estivessem ali - e seguiu na direção de Bastet. Passou por ela diminuindo o passo por apenas um instante, os dedos deslizando pela pele do braço da Deusa, e ele sorriu mais uma vez, antes de voltar a velocidade normal, em direção as sombras. Depois de alguns segundos, todos puderam notar - ele não estava mais lá. *
*Sorriu brevemente para Bastet, e agradeceu com um gesto de cabeça, quando esta lhe disse que ajudaria. A presença de Anúbis, aliada à perturbação de Néftis, atavam a língua da deusa. Sentiu-se mais tranquila quando Seth se colocou a sua frente. Em sua mente, aquilo estava certo. Os homens deviam defender suas companheiras. Ouvir em sua mente, no entanto, que se ele perecesse ela continuaria em segurança, a fez segurar o braço direito do deus. "Nunca", sussurrou com suavidade na mente dele. Calou-se em seguida, acompanhando o desenvolvimento daquela cena. Olhava tudo por sobre o ombro de Seth, tentando ignorar as imagens lançadas pela deusa ciumenta em seus pensamentos. Manteve a mão no braço de Seth. Os olhos passavam de Bastet para Anúbis. Senti que ele não podia estar muito feliz consigo, afinal sua mãe considerava que Ísis lhe tirava algo, e provavelmente o filho pensava do mesmo modo. As palavras de Anúbis desmentiam esse juízo, mas ela não confiava plenamente. Sabia das traições que a deusa era capaz de maquinar contra seus irmãos, fossem quem fossem, desde que conseguisse seus objetivos. Até ter certeza de que Anúbis não era um inimigo, não podia considerá-lo amigo. Apenas concordou com um gesto de cabeça quando Anúbis disse que precisava ir. Inspirou fundo e soltou lentamente o ar, aliviada, quando se viu longe da presença do deus do mundo dos mortos. A mão que segurava o braço de Seth escorregou, e a deusa se apoiou às costas dele, os braços envolvendo-o. Ficou calada por alguns segundos, antes de se dirigir, em voz fraca, a Bastet.* - Agradeço imensamente sua oferta de ajuda, irmã. Mas não quero que nos ajude se isso for prejudicá-la, de qualquer modo. A neutralidade tem sido sua política, e deve continuar a ser se assim lhe for conveniente.
*Bastet limitou-se a olhar a cena, entediando-se com a cena de Seth, chegando a suspirar e revirar os olhos. Sentia o ego de Anúbis inflar diante de tudo aquilo e achava exageradamente interessante o ocorrido. No mais, dedicou-se a olhar as unhas longas e cumpridas, com ávida comoção por tudo que acontecia: Não dando a minima.* ... *Ouviu sim os questionamentos de Seth, suas dúvidas e desesperadas perguntas, mas não deu-se ao luxo de respondê-lo de imediato, sempre culminando um modo de torturá-lo ainda mais. Ficou em silêncio, arqueando levemente uma das sobrancelhas quando Anúbis anunciou sua partida, acompanhou o Deus com os olhos e voltou ao lhe sorrir ao ter o braço acariciado tão suavemente por ele, uma das mãos de Bastet prendeu-se a mão de Anúbis, enquanto os dedos deslizavam uns pelos outros conforme o Deus se afastava, até o braço cair junto ao corpo, fora isso, mas nenhuma exibição de afeto fora trocada entre eles, mas para ambos ali, tanto Seth quanto Ísis, que estavam longe de serem estúpidos, a união, fosse qual fosse, entre os dois estava obvia.* ... *E só então Bastet fez o favor de virar-se para os dois, o jeito frágil e debilitado de Ísis começava a preocupá-la, Bastet suspirou lentamente, ergueu uma das mãos estalando os dedos e lá estavam, quatro "mulheres", na verdade, quatro fêmeas com corpos de gato, porém de pé sobre as quatro patas, servas de Bastet. A Deusa resmungou alguma coisa, numa língua que Seth e Ísis desconheciam, porque era uma língua felina, algo fora da compreensão daqueles dois e da compreensão humana. As quatro mulheres se curvaram e moveram-se em direção a Ísis.* - Vá descansar, Ísis. *Resmungou Bastet, sem o minimo humor.* - Elas cuidarão de você. *Não dedicou-se a olhar Seth, e voltou a sua forma felina e pequena, caminhou para um canto da embarcação, cercando o lugar e deitando-se, repousou a cabeça sobre as patas, dando a entender por um segundo que não responderia a Seth.* - Faça seu trabalho que eu faço o meu, Seth. Néftis não manda em mim, você não manda em mim, caso ela queria mesmo tirar satisfações sobre meus feitos, que o venha fazer pessoalmente, faço o que quero, quando quero e do modo que quero. De resto, só tente manter Ísis viva, porque a partir do momento que ela estiver realmente em segurança, essa aliança terá fim. Fui e continuo neutra em relação ao que ocorreu contigo, porém isso não quer dizer que goste de você, mas também não quer dizer que desgoste, apenas não pise na minha cauda e eu não pisarei na tua. Compreende? *Espreguiçou-se, espichando-se como um bom bichano.* - E só me acorde quando chegarmos.
*Deixando-se envolver pelo abraço tenro de Ísis, Seth esperou para que fosse providenciado um véu para cobrir o rosto da deusa, já que já se aproximavam do local de desembarque. Olhos comuns não poderiam vê-la: vislumbrá-la era sinônimo de morte, nos termos das velhas regras. Enquanto se desfazia das foices, foi dizendo mal humorado.* Hunf, é isso, não é? Vêm e vão. Anubis vem, dá um "oi" e se vai!? Ora, francamente. Foi-se o tempo em que se tinha mais respeito pelos mais velhos. E sem dar maiores explicações! Isto é... eu também quero sair daqui, maldição! Eu odeio este lugar. Isto não é um parque de diversões como o é para vocês. *E encarando Bastet enquanto se cobria com o capuz, também com o objetivo de não ser visto.* Grande coisa se são frágeis, se são instáveis, se são fortes ou se são frágeis. Pouco me importa este lugar e seus habitantes. Eu vou sair daqui, ah!, se vou. E vou levar quem amo comigo. *E olhou para Ísis. Os Chacais continuaram de prontidão. Não mais desapareceriam na névoa, eis que tinham o objetivo claro de fazer a guarda pessoal de Ísis, o Tesouro de Seth. Quanto ao deus, sabia cuidar-se sozinho, ainda que um combate direto contra seu filho e Bastet pudesse implicar sua destruição. Mas um combate, como se evidenciou, não era o evento que se seguiria. Anubis amansara a deusa gata e sua reverência respeitosa pareceu o início de boas tratativas. Aquela foi a visita, sem dúvida, mais estranha que Seth já recebera do filho, mas não foi de todo ruim. Ao menos sabia que Anubis podia ir e vir do plano divino e Bastet, aparentemente, também. Talvez a felina tivesse tal habilidade por conta de Anubis. Ou talvez Anubis tivesse tal habilidade por conta de Bastet, o que era mais provável, já que os gatos, rezavam as lendas, têm a habilidade de pisar neste e noutro mundo. Mas de gatos, Seth não entendia. Quem entendia era Bastet.* Eu não a incomodarei, então. E você terá em mim um aliado. Sua destruição não me interessa e a julgar pelo... contato que você tem com Anubis, acho que teremos que nos dar bem, afinal. Não que me agrade esse seu banho mal tomado e essa sua insolência contínua, mas também não me desagrada a sua personalidade que, por mais desgraçada que seja, é forte o suficiente para ser admirada por mim. *Havia sinceridade em cada palavra de Seth dirigida a Bastet. Sinceridade que poderia ser absolutamente percebida pela deusa felina e que, é claro, ela teria liberdade para interpretá-la como bem entendesse. O deus da destruição se calou, então, mantendo os olhos atentos nas servas de Bastet que rodeavam Ísis. Não entendia daquela coisa toda tão... feminina. Foi em silêncio que sentiu o iate encostar suavemente num porto improvisado de madeira, construído às pressas há alguns dias. Quatro veículos pretos cortaram o deserto. Eram pick-ups com tração capaz de encarar o próprio Saara. Alguns homens desceram. Eram negros, todos ostentando armas de fogo e não se vestiam bem: eram membros do Exército da Salvação, movimento de guerrilha nas repúblicas africanas. Felizmente, eram todos setitas.* Bastet... *Chamou, baixinho, perguntando-se se seria prudente cotucá-la.* Ahn... chegamos. Seria bom se você não chamasse muito a atenção... *Presumiu, talvez corretamente, que a gata não apreciasse mesmo chamar atenção. E, se Ísis se cobrisse com o véu, esperaria que Bastet também disfarçasse sua presença, preferencialmente tornando-se gata, se quisesse, e esticaria o braço para pegá-la no colo - a contragosto, é claro - embora tivesse a certeza que a deusa prefereria o colo de Ísis para que fosse levada até os veículos.*
*A deusa aceitou o véu que lhe fora trazido, cobrindo o rosto de modo que a parte mais fina da cobertura ficasse sobre seus olhos, de modo que pudesse enxergar o caminho. Olhou as quatro servas de Bastet, um pouco sem jeito, e dispensou-as com um gesto gracioso. Não teria tempo de descansar, visto que já estavam chegando. Descansaria no templo. Como não sabia explicar isso na língua delas, não o fez, esperando que entendessem. Entrelaçou um braço ao de Seth, esperando que o iate parasse no embarcadouro construído às pressas. Sentiu-se imensamente feliz de estar em terra, e ainda melhor sendo a sua terra, seu querido Egito. Inspirou o ar cálido e perfumado, pelo menos para si, do seu país. Sentira tanta falta daquele lugar de onde fora cruelmente exilada... Erguendo a mão direita até um ponto sob o véu, a deusa passou os dedos sob os olhos, trazendo-os manchados da pintura negra que usava. Respirou fundo, e esperou que Seth tomasse a dianteira em conduzi-las até o veículo no qual iriam para o templo onde todos estariam seguros. Assim que se sentasse, colocaria a deusa-gata sobre seu colo macio, pousando uma mão sobre ela. Era um gesto de amizade, de reconhecimento. Reconhecimento pela gentileza de Bastet em sair de sua bem conhecida neutralidade para ajudar uma divindade que estava à revelia num plano em que ela mesma estava por sua vontade. Ficaria calada o percurso inteiro até o templo, olhando cada parte do caminho que levava até lá por trás do véu. A cada metro que avançavam na direção do refúgio, sua aparência tornava-se menos debilitada, menos frágil.*
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