*A deusa já havia acabado sua refeição, enquanto Seth ainda estava em meio à sua. Acordara com uma fome voraz, que aliás a acompanhava sempre nas duas últimas semanas. Agora, apenas fazia companhia ao consorte e o ouvia falar, sentindo a deliciosa brisa marítima. Achara imensamente interessante conhecer todos os interesses que Seth comandava. A cada visita que faziam, sentia o poder que ele possuía e que ela, de certo modo, compartilhava. As perturbações de Néftis, agora, eram puramente mentais, mas mesmo assim Ísis vinha se queixando a cada dia de que seu corpo mortal não se sentia bem. Passava horas e horas deitada na cama da cabine que dividia com Seth. Não dormia, mas seu corpo lhe pedia cama com frequência crescente. Como não tinham um médico a bordo - era desnecessário, afinal -, a deusa suportava todas essas mazelas com paciência, contando os minutos até que chegassem ao Egito. Assentiu quando Seth mencionou Thot.* Gostaria de encontrar Bastet. *Murmurou.* Ela poderia se aliar a mim, me ajudar. *Sorriu brevemente quando Seth fitou seus olhos.* Espero que cheguemos logo, então. *Pausou e passou a mão por sobre os olhos.* Eu não sei o que está acontecendo comigo, mas tenho me sentido tão estranha. Estou sempre cansada, às vezes minha cabeça gira... Sinto que estou ficando mais fraca, em vez de mais forte. *Calou-se após essa reclamação e retribuiu o beijo de Seth. Ficou com as mãos cruzadas no colo. Um balanço um pouco mais acentuado da embarcação a fez inspirar fundo. Seu rosto foi perdendo as cores aos poucos. Não conhecia aquela sensação, mas era desagradável. Entreabriu os lábios.* Seth, eu não estou bem. Estou me sentindo muito est... *Não completou a frase. Um instinto mais forte que a razão a fez correr até a amurada da embarcação, onde segurou firmemente com as duas mãos. Debruçou-se para a frente, esforçando-se para não devolver ao mar a farta refeição que fizera. Teve a impressão de sentir uma mão segurando sua testa, e um braço firmemente passado em sua cintura. Levou longos minutos para falar, ainda mais enjoada do que quando correra para ali.* Eu... eu nunca senti isso. *Murmurou, contendo um engulho com uma mão sobre os lábios agora sem um traço de cor.*
*Bastet... havia cerca de três legiões cuidando de Bastet. Localizá-la estava difícil. O último rastro da deusa fora há cerca de 300 anos ou 200 anos, quando da decapitação dos reis, conhecida pelos humanos como Revolução francesa. Seth não sabia o ano exato (1789), por isso contava mais ou menos por meio de séculos. Sabia somente que a deusa perecera na revolução e que todos os responsáveis por localizá-la e trazê-la à sua presença foram devidamente punidos. Desde então, os trabalhos haviam recomeçado. E haviam se revelado tarefa árdua.* Néftis pagará caro pela insolência. Eu cuidarei pessoalmente para que... *Mas Ísis já se inclinava na amurada do iate, visivelmente pálida, visivelmente atordoada. A velocidade de um deus não é medida, contudo, e isso é bom: com a mão esquerda, Seth puxou a cabeça de Ísis para trás, enquanto que com a direita a afastava da amurada. Alguns homens surgiram no convés, mas foram repelidos educadamente sendo arremessados no Mediterrâneo: o convés era proibido a eles.* Maldita seja! Vou arrancar-lhe as tripas, Ísis, juro, e arremessá-la neste inferno de ossos e sangue a que estamos submetidos... *Referia-se a Néftis, obviamente. Entretanto, uma idéia absurdamente remota acabou por ocorrer-lhe. Algo que jamais pensou ser possível - sobretudo porque suas cópulas, ao longo do período em que se achara aprisionado, sempre foram devidamente controladas, já que Seth jamais amou uma criatura que não divina. Para ele, eram apenas baratas que lhe serviam de alimento na mais fétida das prisões. Mas lhe ocorria, sim, agora, aproximando-se de Alexandria no iate que comprara acolá, no Marrocos, que talvez o corpo mortal de Ísis estivesse abrigando uma vida, fruto do que acontecera há duas semanas. Mas não, não era possível. Será?* Ísis? Se a sua vontade é ter com Bastet, assim será. Os 777 templos setitas se erguerão com este único objetivo, por ora, pouco importando a conseccução das tarefas que lhes cabiam. Cuidemos de você, primeiro. Depois, eu cuidarei de Néftis. *E de todos os outros, pensou. Não cogitava a possibilidade de uma Ísis furiosa e vingativa destroçando sua ex-esposa. Por isso, acreditava verdadeiramente que seria dele a foice que degolararia a deusa da aridez e da morte.*
*Apoiou o peso do corpo nos braços de Seth, fechando os olhos. Mal reparou que aqueles homens haviam aparecido no convés, e eles já mergulhavam nas águas do Mediterrâneo. Abriu os olhos ao ouvir o barulho da queda do último. Inspirou profundamente algumas vezes, encostando a cabeça ao peito de Seth. Podia ouvir os pensamentos, as dúvidas que passavam pela mente dele. Ergueu os olhos para o deus.* Talvez. *Murmurou, apenas, em resposta à pergunta que escoara da mente dele para a sua. Não precisava falar mais, explicar mais. Entre eles, não precisavam de explicações detalhadas.* Sim, desejo ter Bastet ao nosso lado. Precisamos de todos os aliados que pudermos conseguir. Ainda mais agora que estamos chegando perto do Nilo. Você sabe como é importante que tenhamos todos os recursos possíveis quando estivermos lá. *Ergueu uma mão, os dedos frios tocando o rosto dele, sentindo a textura e o calor da pele.* Nem mesmo você pode enfrentar todos os deuses sozinho, meu querido. *Murmurou. Uma expressão triste passou pelos olhos negros, fortemente pintados à moda do Egito Antigo.* Quanto a Hórus... Eu lidarei com ele quando chegar o momento. *Murmurou, fechando novamente os olhos.* Podemos voltar para a cabine? Quero descansar um pouco, recuperar minhas forças. *Pediu, olhando o Sol que começava a dourar o convés. Seria um dia quente.*
Bastet. fala para Seth: *Esticou as patas, de modo até mesmo preguiçoso, enquanto o rabo pendia para o lado, balançando sem preocupações, as orelhas finas e pontiagudas moviam-se de um lado para o outro, mas sequer dava-se o trabalho de realmente abrir os olhos, a felina, deitada sobre as “patas” de uma estatua de gato parecia inerte a qualquer coisa que acontecia a sua volta. Tinha isolado-se em um dos templos subterrâneos que conhecia – e ninguém podia dizer que ela não conhecia muitos – isolado-se por cansar-se de estar lá em cima, podia muito bem fazer o que tinha que fazer e quando tinha de fazer por lá, lá onde o silêncio era a maior das dadivas, evitava agora a todo custo ser necessário fazer-se presente em qualquer ocasião, tornando-se tão isolada e resignada quanto o animal que representava, alguns ousavam dizer que era orgulho demais para apenas uma única criatura. Para ela, era personalidade.* … *Ouviu um barulho aqui e ali, fremindo as narinas em busca de algum cheiro diferente, mas não encontrou nada que já não estivesse habituada, então simplesmente retornou a sua soneca, alongando o corpo de gato mais uma vez, estava relaxada, e isso era bom, relaxada a mente funcionava com mais rapidez, e tornava-se bem mais simples qualquer decisão que precisasse tomar, ouvia um murmurio aqui ou ali, leves boatos sobre as coisas que aconteciam fora daqueles portões, mas em sua maioria não lhe interessavam, sempre reservada e quieta, andando sempre nas sombras da lua, para assim, manter-se oculto, mas jamais relapsa ou desatenta. Era Bastet, afinal de contas.* … *Ronronou um pouco, voltando a esticar as patas em uma doce preguiça felina.*
*Seth já não se dava ao trabalho de comunicar-se com Ísis fazendo bom uso das pregas vocais, já que a telepatia era prática comum entre os deuses e o nível em que se achava a sua conexão mental com a deusa era tal que qualquer interferência externa era praticamente impossível. Tomou o corpo cansado de Ísis nos braços e a levou para a cabine. A tripulação, agora reduzida a seis setitas, um feiticeiro e dois sacerdotes, observou calada o falcão que sobrevoava a costa do Egito, à medida que se aproximavam. O falcão deu duas voltas e despencou, sem vida, arrebentando-se contra as ondas. O feiticeiro, que agora se achava no convés que fora devidamente liberado à tripulação para recolher a mesa e cuidar da boa condução do iate, sorriu, apontando para os demais que ali também se achavam.* Vejam. Seth está furioso. O falcão cai sem vida. *Como de costume, o falcão, símbolo da hegemonia de Hórus, caía sem vida à presença de Seth. Contudo, agora a queda do falcão tinha uma simbologia diferente. Com os tormentos que Ísis vinha sofrendo, o deus da destruição não andava muito contente. E isso resultava, geralmente, em catástrofe. Talvez tenha sido por isso que nuvens negras se adensaram, como se acompanhando o iate. O Senhor dos Céus do Norte se aproximava, e se aproximava zangado. A algumas centenas de quilômetros dali, no Cairo, um velho cego que aparentava 92 anos se levantou da cama, assustado. Vestindo alguns farrapos e morando de favor há 15 anos na casa do filho, sonhara com o deus vivo falando-lhe de sua nova missão. O velho se chamava Raphael, e era de origem francesa. Desde o início do século, vivera no Egito, estudando egiptologia. Mas nunca fizera algo de realmente útil. Nunca descobrira alguma tumba nova, nunca traduzira nada de importante. Acabou por tornar-se um francês inútil abandonado pela família. Enquanto pegava a pequena tigela e o saco de leite de cabra, apertava firmemente o amuleto de Seth: um pequeno animal que se assemelhava a um chacal e uma pequena foice egípcia. Caminhando com dificuldade, arrastou-se pelas vielas de uma capital suja e infestada pelo concreto, a pequena tigela cheia e o saquinho de leite presos à mão esquerda enquanto que na esquerda trazia o pequeno radinho que comprara na década de 80. Raphael levou 45 minutos para descer até um dos templos subterrâneos - um dos inúmeros que alicerçavam o Cairo - um dos quais as escavações haviam sido abandonadas pela instabilidade do terreno e inexistência de algo de real valor econômico ou cultural. A voz rouca ecoou pelo lugar, que era iluminado ora por tochas improvisadas, ora por uma fiação precária, da época da escavação, enfiada ali de qualquer jeito junto à terra e à pedra.* Suzette...? Suzette, venha, venha, eu lhe trouxe comida! *Procurava pela gata que encontrara ali, certa vez. Raphael era um pária. Abandonado por todos, sua única companhia era a gata, a quem levava uma tigela de leite diariamente e ficava horas sentado junto dela, tagarelando como se ela pudesse entender alguma coisa e ouvindo o seu radinho. Comentando sobre a política e sobre os acontecimentos que o radinho lhe dava ciência. Ele demorou para encontrá-la, deitada sobre a rocha nua, aparentemente alheia a qualquer coisa senão ela mesma.* Ah, aí está você, Suzette! Ainda bem que te achei, tenho uma coisa muito louca para te contar... sabe aquele sujeito que me entregou este amuleto de Seth? Tive um sonho terrível com ele... *O velho se sentou ao lado da gata, ajustando o radinho e servindo-lhe o leite. Referia-se a um dos inúmeros sacerdotes setitas que tinha por missão "espalhar a palavra".*... sonhei que Seth estava muito bravo. Foi tão real! Pude vê-lo, quase, mas que medo! E aí lembrei de você, querida Suzette, porque ele chamava por Bastet. *O rádio fez um chiado enquanto o velho procurava ajustar a estação em francês.* E como bom egiptólogo que eu sou - ou fui, já não sei - lembrei dessa coisa toda de felinos. Oh, escute, escute. *O rádio anunciou uma tempestade que se formava em Alexandria.* Engraçado... no sonho tinha alguma coisa de tempestade em Alexandria também... Suzette? Ora, sua pretinha sem vergonha, você já acabou com todo o leite? Tome devagar, pois ainda tenho todo um saco aqui, ouviu? Esfomeada.
*A deusa morena se deixou levar até a cabine que dividia com Seth. Ali era sempre mais fresco, graças ao fato de a cabine ser abrigada do ardente sol do Mediterrâneo. Uma vez dentro da mesma, a deusa retirou as sandálias leves que usava e se deitou na ampla cama que ocupava o centro do cômodo. Fechou os olhos, embora não pretendesse dormir. Era daquele jeito, com os olhos fechados, que Ísis refletia sobre os acontecimentos, traçava seus planos e buscava por contatos com outros deuses. Geralmente, sua mente só conseguia esbarrar nos pensamentos de Seth. Como agora. Notava que ele estava furioso por sua causa, embora não fosse consigo. Sentiu a queda do falcão, ave associada a seu filho Hórus. Suspirou brevemente. Sempre se sentia triste quando pressentia algo que indicasse um ataque a seu filho. Mesmo estando afastada dele, era mãe, e não podia esquecer dos momentos em que o tivera nos braços. Lembrou-se novamente da fúria no olhar de Seth, tanto tempo atrás, antes que tudo mudasse. Encolheu-se um pouco, instintivamente. Não desejaria sentir a ira dele voltada para si, pensou. Desviou rapidamente os pensamentos para outro ponto, visto que sabia que Seth podia ler sua mente sem precisar de esforço. Abriu os olhos e desistiu da tentativa de se comunicar com outros deuses. Sentou-se na cama e apoiou as costas na cabeceira, esticando as pernas. Apenas olhou para Seth, mas nada disse. Pensava em coisas demais para que pudesse articular alguma delas em palavras.*
*A felina pode ouvir as alterações no som do lugar, mesmo que fossem poucas e quase inaudíveis para os ouvidos humanos, para ela era mais do que fácil identificar que alguém se aproximava. Mas ela era categórica, não desceria de sua tão confortável estatua fria até que fosse extremamente necessário.* […] *Abriu os olhos devagar, aqueles olhos típicos de um felino e moveu a cabeça para o lado, verdade era que possuía o corpo um pouco maior do que de um gato comum, e muito mais elegância ao seu mover. Usava uma “coleira” com o simbolo de Bastet em um pingente azul tão escuro que se confundia com negro, jamais permitia que ninguém o tocasse, ninguém. Suzette não era lá um dos nomes que lhe agradava muito, mas não podia culpá-lo, de alguma forma também apreciava a companhia dele, era alguém que via de boa fé sem lhe trazer problemas ou questionamentos ou pedidos e tarefas, era alguém solitário – assim como ela o era – que lhe necessitava de companhia e não lhe custava em nada fazer isso a ele. Ergueu o corpo, e espreguiçou-se demoradamente sempre com aquele ar arrogante mas estranhamente cativante, saltou para aqui e para ali, descendo aos poucos da velha estatua abandonada de Bastet, até tocar delicadamente o chão com as patas, aproximou-se do pires de leite lhe oferecido e com a língua começou a sorvê-lo ouvido o homem falar.* […] *Levantou o rosto ou ouvir sobre o sonho e sobre Seth, não era lá muito achegada ao sujeito, mas também não lhe desgostava. Bastet sempre manteve-se neutra entra as disputas dos da primeira geração, já tinha problemas demais para esquentar a cabeça com as guerras de poder. Voltou a tomar o leite, fazendo-o desaparecer em poucas lambidas, mas algo lhe chamou ainda mais atenção, a tal tempestade. Certo. O que Seth estava aprontando agora? Deixou um miado agudo escapar, cercando o velho homem, talvez estivesse mesmo na hora de dar uma olhada lá em cima.*
*Abu Simbel foi construído por Ramsés II, o Grande, no auge de seu reinado, dedicado a Nefertari. É um dos maiores templos do antigo Egito e sua força mística, dizem, se dá por conta de dois fatores. O primeiro é que foi um templo construído na vontade soberana de Ramsés alicerçada no amor que nutria pela rainha do Egito. O segundo é que as rochas do lugar, acredita-se, detinham grande poder mágico. Os arquitetos e sacerdotes do maior faraó do Egito esquadrinharam toda a área até achar o ponto exato da construção do templo. Sob Abu Simbel, erguia-se outro templo, agora. Construído na rocha nua, os setitas ergueram galerias e mais galerias que, devidamente trabalhadas, comportavam aposentos gigantescos e de acesso absolutamente difícil. O lugar era guardado pelos vivos e pelos mortos e era um mito, mesmo entre os que pertenciam ao Clã Setita. Era para lá que Seth pretendia levar Ísis, onde pretendia deixá-la em segurança. E foi o que transmitiu para a deusa.* Você estará segura. A minha voz se espalhou e eu trarei ajuda. Não tema. *Beijando-lhe a testa, sussurou.* Descanse agora. Eu perscrutarei nossos irmãos. *Os Sete Chacais não eram humanos, mas também não eram deuses. O que eles viam, Seth via. O que eles sabiam, Seth sabia. Amaldiçoados pelo vampirismo, os Sete deixaram a embarcação sob a proteção das nuvens negras que traziam verdadeira escuridão sobre o entardecer. Seth só não havia há muito deixado também o iate e pisado no abrigo sob Abu Simbel por conta da promessa que fizera a Ísis: não sairia do lado dela. E ela sabia disso. De olhos fechados, o deus podia ver longe, a quilômetros de distância. Mas foi uma perturbação na terra que fez com que seus olhos se voltassem para o Cairo, bem como os Sete Chacais. A princípio era um tremor quase imperceptível, mas depois foi audível o suficiente para que...* Está tremendo...? *Raphael levou a mão ao amuleto que trazia dependurado no pescoço.* Olha, Suzette! Está tremendo mesmo! Será que tem bateria nesse negócio? Uau! *O velho tirou o amuleto, que vibrava com mais força quanto mais perto se achava da gata.* Está vendo, Suzette? E eu achei que tinha sido uma quinquilharia qualquer! Ahá! Eu devia saber... *O amuleto tremia, mas não era só ele. Imperceptível aos olhos humanos, mas perfeitamente perceptível à felina, um leve tremor na terra coadunava-se com a vibração do amuleto, que, agora, para Seth, soava como um verdadeiro alarme, indicando-lhe a presença de uma criatura poderosa, tal qual um deus. Talvez, cogitou ao lado de Ísis, fosse Thot.*
*Ísis ficou muito quieta, praticamente imóvel, enquanto Seth lhe falava. Sentia-se melhor agora, mas aquela sensação de cansaço físico ainda a incomodava. Aquilo também a irritava um pouco, porque se via presa às necessidades de um corpo mortal. Talvez, quando estivesse na proteção do templo, tudo mudasse. Esforçava-se por manter os olhos abertos, e os sentidos concentrados naquele aposento. Não queria que sua mente saísse dali, ainda.* Não temo. Sei que enquanto estiver sob sua proteção, eles não poderão me ferir. Não é isso que me preocupa. *Murmurou, cruzando as mãos no colo. Olhou as unhas pintadas de negro, distraidamente. Examinava o contraste das mãos morenas com o linho branco do vestido que usava. Concentrava-se naquelas coisas terrenas, corriqueiras, para não ter de pensar em coisas importantes. Suspirou, desistindo da tentativa. Apoiou as mãos na cama e se colocou de pé. Ergueu o rosto, num movimento com algo de majestoso, algo de... divino.* Não posso ficar aqui, escondendo-me. *Declarou calmamente. Esperaria que Seth se levantasse e entrelaçaria os dedos da mão direita aos dele.* Se eu sempre ceder aos ditames do meu corpo mortal, nunca voltarei a ser o que era. *Alisou o vestido, olhando-se ao espelho colocado na porta do armário. Passou um dedo pelo contorno dos olhos.* Mais tarde precisarei ceder a eles, mas não agora. Agora, precisamos chegar ao templo. Lá recuperarei plenamente as energias, e lá conversaremos. *Olhou os olhos dele. Naturalmente, pudera 'ouvir' o pensamento dele sobre a criatura que causava aquele tremor.* Não sei, Seth. Mas sei que Bastet está perto. Precisamos achá-la, e então seguiremos para o Cairo. O que me diz?
*Bastet ergueu de novo a cabeça, as vibrações e ondulações podiam ser sentidas por ela com facilidade, voltou os olhos felinos ao homem, não sabia exatamente como ele reagiria se soubesse que por todo aquele tempo, estava levando pires de leite para uma Deusa, porém encontrava-se sem muitas alternativas, Seth era teimoso e muito insistente. Olhou o pingente nas mãos do homem e novamente o cerceou devagar, esfregando-se nele, miou uma ou duas vezes antes de se afastar uns passos e saltar sobre uma pequena mureta, ficou de lá, olhando-o, agitou a cauda de um lado para o outro e tomou folego.* - O que você quer, Seth? *A voz de Bastet era sublime, quase um deleite a ouvidos humanos, como um perfume estonteante, ela olhava na direção de Rafael, que provavelmente se surpreenderia horrores ao ouvir a “gata” falar com aquela delicadeza e maestria, as palavras fluíam da boca da felina, que continuava em sua pose imponente sobre os destroços do antigo templo de Bastet, a cauda jamais parava de se agitar e ela jamais deixava de olhar Rafael, mas se concentrava em encontrar Seth no meio de toda aquela bagunça.* […] *O pingente na coleira brilhou, um brilho azul escuro, sabia que em breve teria de andar como um bípede, mesmo que não gostasse disso.*
*Seth ouviu calado, sentindo a mão de Ísis entrelaçando-se à sua. Por fim, disse.* Não há vontade sua que não seja cumprida. *Contudo, subir o Nilo demandaria proteção. E a única proteção que tinha eram os 7 dos 14 pedaços de sua Alma que restaurara desde que começara a procurar por elas há milhares de anos. Felizmente, um dos Dons que recuperara seria de grande utilidade. Pegou Ísis pela mão e a levou para o convés. O sol do Mediterrâneo não mais brilhava, vez que as nuvens negras que acompanhavam a embarcação, volta e meia iluminadas por relâmpagos, só traziam sombras consigo.* Eu sou o deus do caos e da destruição, da guerra e do deserto e, por Eras, comandei o Submundo, julgando as almas que me cabiam julgar... *desvencilhou-se gentilmente de Ísis com um sorriso no rosto e foi até a proa da embarcação, onde abriu os braços e sentiu a ventania da tempestade que se armava afagar-lhe o rosto. Noutro plano, Anubis se levantou, inquieto. Sabia o que o pai pretendia fazer e sabia que não poderia impedi-lo, mas poderia tentar. O filho se sentou no Deserto Escuro, o Reino dos Mortos. Não mais podia ver o pai, mas podia ouvir a sua voz. Ambos se digladiaram mentalmente, mas não tardou para que a voz de Seth soasse poderosa junto ao mar que rugia ferozmente. Era uma língua antiga, mas não tão antiga a ponto de Ísis não compreendê-la. E foi audível o suficiente para que os mortos escutassem o chamado. A primeira embarcação em frangalho, afundada há 72 anos, emergiu ao lado do iate. Depois, outra, do outro lado. A tempestade caía feroz, agora, mas o iate nã balançava. Em verdade, parecia parado, mas avançava veloz, acompanhado de uma esquadra de mortos-vivos. Na costa, também, as almas se levantavam. No Submundo, Anubis ordenava aos mortos que permanecessem, mas não pôde conter todos. Sem dúvida, Anubis não apreciava rebeliões em massa. O único barco da Marinha egípcia que se achava no caminho da Esquadra de Seth foi atingido por dois raios seguidos, o que contrariou todas as probabilidades, e afundou.* Agora vejamos se a minha deusa está certa quanto ao nosso promissor candidato a prisioneiro nessa porcaria de plano... *Enquanto a Esquadra avançava o delta do Nilo, a fim de subi-lo e atingir o Cairo em cerca de duas horas, Bastet falava. Literalmente, é claro. Raphael olhou da gata para a tigela de leite, depois para o radinho e depois para o amuleto. Sabia que deveria parar de beber, mas logo se lembrou que parara há mais de 20 anos. Não, a gata estava falando! A constatação foi suficiente para que ele levasse a mão ao peito e caísse, com um baque surdo, já morto por conta do infarto fulminante. Com a queda na rocha nua, um corte na têmpora do pobre velho fez com que o sangue escorresse, dando cor ao lugar. Ele ficou caído por cerca de três segundos. Depois, levantou-se, girou o pescoço e fitou a gata, aparentemente surpreso. Seus olhos, contudo, estavam negros, absolutamente negros. Ele sorriu um sorriso macabro, do tipo que só alguém que acaba de morrer e se levanta em seguida tem a capacidade de dar. Quando falou com a gata, contudo, sua voz não era a mesma. Era um soar de trovões, uma voz poderosa; falou numa língua antiga, num egípcio não falado nem mesmo pelos antigos faraós. Seth, por meio do corpo de Raphael, constatou francamente surpreso que Bastet não só estava ali, diante do velho, como tinha plena consciência de sua condição divina.* Bastet... a sua natureza reservada dá certo trabalho aos seus irmãos. Eu levei um bocado de tempo para achá-la. *O corpo alquebrantado de Raphael deu a volta na felina, sem contudo deixar de fitá-la.* Contudo, desta vez, não sou o único que deseja tê-la por perto. Ísis está comigo. E acredito que precisa de você. *O corpo fez um "crack". Aparentemente, a queda havia quebrado algum osso do velho Raphael, mas Seth, que agora o ocupava, não parecia atentar-se muito a isso.* Precisamos de você, Bastet.
Sim, eu sabia disso. Sabia que você atenderia meus desejos. *Isis se deixou levar por Seth até o convés, olhando a tempestade que rugia fora do barco. Olhou o céu sombrio, apertando a mão que segurava. Inspirou profundamente, sentindo o ar pesado, e observou calada tudo o que podia ver. Soltou lentamente a mão de Seth, como se não quisesse fazê-lo. Uma sensação de perda a incomodava agora, como se em breve fosse se ver privada de algo que era seu. Não sabia o quê, ou quem. As possibilidades eram tantas que não valia a pena pensar nelas agora. Isso não resolveria coisa alguma. Sentiu a perturbação de Anúbis, no outro plano. Achou estranho sentir algo que não era dirigido a si. Estaria recobrando algumas de suas antigas habilidades? Sorriu, sentindo os cabelos agitados pelo vento. Agora, não sentia mais medo. Sentia como se seus olhos se abrissem. Podia sentir coisas que não sentia antes. Ter certezas onde antes só havia dúvidas. Aproximou-se da amurada, andando calmamente. Foi até a proa do iate e abraçou Seth por trás. O queixo foi apoiado ao ombro dele, e ela olhava o mar, a costa, os navios, com um olhar límpido, desprovido de temor. Roçou o nariz na lateral do pescoço dele, antes de lhe falar ao pé do ouvido.* Está tudo certo agora. *Murmurou, suavemente.* Estou voltando a ser o que era antes. Quando chegarmos ao templo, não dependerei mais tanto da sua proteção... *Completou, voltando a ficar calada, e mantendo o queixo no ombro de Seth, seu companheiro imortal, para toda a eternidade.*
*Resignou-se a suspirar descontente ao ver o pobre Rafael reagir daquela maneira. Lamentou profundamente em silêncio, pois havia acabado de perder a única companhia agradável durante séculos e por puro descuido dispensado. Seth lhe devia uma agora, e iria pagar, ah se iria.* - Já imaginou que o que se dificulta a achar talvez não queria ser achado? *Respondeu azeda, sempre com seu humor felino alterado, não era das mais achegadas e muito menos dona de falsas gentilezas, era uma gata, pelos Deuses! Gatos não fazem sala, não fazem média e nem fingem ser amigos, e Bastet não estava longe disso. Saltou do lugar onde estava, afastando-se do corpo possuído do velho Rafael, não queria olhar para ele sendo feito de boneco por Seth, o homem não merecia isso, mas por hora, ela simplesmente não podia evitar. Suspirou profundamente, agitando sua cauda no ar, estava de costas e de costas ia ficar, e Seth deveria respeitar isso, Bastet tinha a paciência curta e os limites bem estabelecidos, fosse por que fosse, era uma gata de garras bem afiadas.* - Ísis? *Indagou ainda de costas ao morto-vivo, levantou uma das patas, lambendo-a despreocupadamente.* - Olhe a bagunça que aprontou, Seth, quem me trará o leite agora? *Como sempre, colocava suas necessidades a frente de qualquer assunto, antes de tomá-lo para si em um completo e compartilhar da exasperação alheia, primeiro os gatos, os demais, depois.* - O que vocês aprontaram dessa vez? Anubis está inquieto. *E ela sabia bem mais do que parecia, às vezes, era exageradamente vantajoso ser Bastet, tinha dois olhos, dois ouvidos e uma boca e os usava nessa proporção. Ouvir, ouvir, olhar, olhar. Falar, só quando necessário.*
*Sete sombras desceram pelas escadarias do templo subterrâneo, lado a lado, como soldados, marchando sincronizadamente. Usavam uma enorme máscara de chacal feita em aço, mas eram pretas, e cada um levava na mão direita uma foice militar. Sob a indumentária preta, uma pistola semiautomática. O corpo mole de Raphael se virou para os intrusos e depois para Bastet.* Não seja tão geniosa, eu não matei esse velhote. Eu lá tenho culpa se você me inventa de sair falando com um homem que mal se aguentava em pé? Eu bem sei, vez que sou eu quem sustenta suas pernas agora. Eu poderia usar o amuleto para falar com você, mas eis que você matou o pobre coitado do coração e agora eu posso usá-lo. *Os Sete Chacais se aproximavam, os passos sincronizados ecoando pelas galerias.* Bastet, por favor. Eu lhe ofereço tudo. Apenas venha ter conosco. Ao alvorecer de amanhã, estaremos em Abu Simbel. Eu lhe ofereço tudo, inclusive a privacidade e o silêncio que você tanto preza. Ah. E leite, é claro. *E, sentando-se, deixou inclinar a cabeça numa posição que julgou confortável para o defunto.* Os Sete Chacais a levarão até o porto, se assim desejar. *"Senão", pensou consigo mesmo, "eu terei que buscá-la".* Despeça-se deste velho... *disse, por fim, antes de deixar o corpo.* Era hora do julgamento dele, como você bem sabe. *E calou-se. O corpo sem vida de Raphael perdeu o brilho e foi, aos poucos, esfriando, como haveria de ser. Os Sete Chacais entraram na galeria, numa marcha precisa, alinhados, um ao lado do outro, constituindo uma visão assustadora para qualquer inimigo. Entretanto, ao se aproximarem da gata, fizeram uma meia lua e se ajoelharam, subservientes. Era verdadeiramente esquisito que sete vampiros poderosos se ajoelhassem diante de uma gatinha preta. Ainda que detivesse aquele olhar de desprezo por tudo o que lhe cercasse, parecia mesmo só uma gata. Curvaram as cabeças e aguardaram o comando de Bastet, fosse qual fosse.* Tem certeza? *Seth afagou a mão de Ísis, na proa do iate. Os navios, ao lado, navegavam em paz. Qualquer ataque doutro plano seria direcionado à Esquadra, mas não a Seth, tampouco a Ísis. Os mortos morreriam novamente por ambos.* Não vou deixá-la até que suas forças tenham se restaurado. E temo por esse seu... estado... *Referia-se claramente aos sintomas de uma gravidez inusitada.* Eu... eu não sei se é possível. Isto é... meu amor por você renderia frutos, é claro, mas... já? Ou melhor... *Seth, diante de Ísis, ficava idiota, é verdade. Parecia um sujeito qualquer, um humano prestes a saber que seria pai.* Como pode? Um filho de carne e sangue, filho de deuses? Não, não é possível. Ou é? Bastet saberia responder? *E, incrédulo, olhava ora para o ventre da deusa, ora para seus olhos.*
*Ficou calada enquanto Seth se comunicava com Bastet, apenas ouvindo na mente dele a comunicação com a deusa felina. Só abandonou aquela imobilidade quando sentiu o afago em sua mão. Os olhos, que pareciam vagos, recuperaram a vivacidade, e a deusa atentou às palavras do companheiro. Sorriu. Foi um sorriso algo complacente, daquela complacência que só uma mulher é capaz de ter diante de um homem. Estava muito calma agora. Soltou o abraço que a prendia a Seth por trás e passou para a frente dele, encostando-se na amurada de modo a poderem se olhar nos olhos. Ouviu as perguntas e preocupações dele até o fim. Em seguida, tomou uma das mãos dele e ficou segurando-a. Lentamente, encostou sua pequena palma à dele. Movimentava-se com languidez, sem pressa. Olhou as mãos unidas por longos momentos.* Eu sei que você não irá a lugar algum, meu amado. *Era a primeira vez que o chamava assim.* Isso me faz sentir mais segura. Mas não posso ser puramente dependente de você. *Segurou a mão dele e beijou-lhe a palma. Depois, pousou a mesma mão sobre seu ventre liso.* É possível. É provavelmente verdade. Ainda precisaremos saber, é claro. Talvez Bastet possa ajudar. Ou talvez nós tenhamos de esperar. De uma maneira ou de outra, nós saberemos. *Calou-se, acariciando a mão de Seth. Seus olhos negros brilhavam intensamente, enquanto ela encarava o deus.* Eu amo você. *Murmurou, suavemente.* Sabe disso, não é? Sabe que não vou abandoná-lo quando voltar a ser quem eu realmente sou, não sabe?
*Bastet não respondeu as primeiras indagações dele, promessas para ela eram sempre promessas, feitas a todo momento por qualquer motivo bastardo. A gata passou a pata lambida pelo rosto, limpando-o com cuidado demorado enquanto Seth falava, não interessava-se muito pelos assuntos mundanos e tentava não se envolver ao máximo, mas às vezes, tudo parecia inclinar-se de maneira a fazê-la ter de tomar uma posição, afinal, ela era a noite que mesmo durante o dia, mantinha seu simbolo lá no céu, a Lua.* … *Em dado momento a felina olhou por cima dos ombros, lamentou-se mais uma vez pela errada decisão tomada e por fim, pôs-se a caminhar da maneira sutil e delicada de um felino.* - Espero que Anubis compreenda quem está recebendo em seus domínios. *Claro que falava de Rafael, claro que cobraria aquilo de Anubis, nenhum deles sabia, mas Bastet e Anubis estavam bem mais... Chegados nos últimos séculos, ninguém sabia por onde a gata ia e vinha, apesar dos boatos, nenhum dos Deuses podia confirmar nada, afinal, nunca tinham sido vistos realmente juntos. Era parte dos segredos. Os segredos de Bastet.* […] *Não dedicou-se a olhar as criaturas enviadas por Seth, passando por elas enquanto caminhava despreocupada.* - Está bem, Seth, está bem. Guarde suas lamentações para quando eu estiver entediada.*E passou a subir as escadas do templo, aparentemente, ela tinha concordado, mas era sempre difícil saber, Bastet era voluptuosa demais para se ter certeza.* - Ísis está contigo? Como ela está? *E tinha até certo afeto pela mulher. Ao seu jeito, claro.*
*Em milênios de dor e lamúria, Seth conhecia a felicidade agora, através das palavras daquela a quem sempre amou. A princípio, sabia que a deusa tinha todas as razões para odiá-lo e que trazê-la consigo importaria em dormir sempre com um dos olhos abertos - no sentido figurado, é óbvio, vez que Seth não dormia. Mas às palavras de Ísis, Seth pôde sentir um abrandamento no espírito e uma renovação que fê-lo sentir-se poderoso e corajoso o suficiente para destruir todo o panteão egípcio. O deus da tormenta se via, afinal, domado pela voz suave e pelo afago doce de Ísis.* Você... me ama? *Se pudesse, provavelmente Seth teria morrido do coração naquele instante. Era uma força de maldade, de ódio e destruição desde sempre e seu único amor era, afinal, seu. Beijou a deusa calidamente, o vento suave do Nilo acariciando o rosto de ambos, jogando-lhe os cabelos negros para trás, como se recebesse a Esquadra maldita que subia o rio até o porto do Cairo.* [...] *O Primeiro olhou para o Terceiro. Eles não tinham nomes agora, mas já tiveram um dia. Eram apenas Chacais. Não que o animal de Seth fosse um chacal. O chacal, em verdade, representava seu filho, Anubis. Mas os chacais eram frequentemente associados a Seth por conta de seu filho e por conta da natureza dos animais, destrutivas. Não há, é certo dizer, um animal que precisamente defina Seth. A destruição é uma idéia que o define melhor. De qualquer modo, o Primeiro Chacal olhou para o Terceiro que, mesmo sob a máscara, pôde perceber que o companheiro estava atônito. Era mesmo ridículo criaturas tão poderosas se ajoelharem diante de uma gatinha que, ainda por cima, acabou por deixá-los sozinhos, desprezando-os por absoluto. O Quarto Chacal se levantou, segundo a gata, cortesmente - o que o fez sentir-se um imbecil.* Hum... imperiosa? Munificentíssima e respeitabilíssima senhora? Então... er... iremos cuidar da sua escolta até o porto... *Os outros seis generais alcançaram também a gata, em respeitoso e constrangedor silêncio. Por Seth, eles estavam conversando com uma gata! O Quinto arfou, por alguns instantes, mas logo estufou o peito e continuou seguindo a gata enquanto deixava Seth falar pelos seus lábios.* Ísis está comigo. E em breve outros estarão. Não percebe, Bastet? Estamos nessa prisão de carne e sangue... não pertencemos a este lugar. Nossos irmãos nos prenderam aqui. Tudo bem, eu causei uma certa confusão... *eufemismo, por certo.* Mas que diabos VOCÊ está fazendo presa na Terra? E Ísis? E há outros ainda. Quem a enviou? Você se lembra? *A voz se calou. Não era algo a ser discutido na presença de servos, ainda que generais. Mas julgava ter dito o suficiente para despertar o interesse de Bastet. Em silêncio, assim, os Sete Chacais continuaram a seguir a gata.*
*Apenas concordou com a cabeça quando Seth lhe fez aquela pergunta. Só voltou a falar após aquele longo e cálido beijo.* Sim. No início, eu realmente só queria sua proximidade pelo que ela podia representar. Sua proteção, a possibilidade de voltar a ser quem eu sou, coisas assim. Considerações frias. Agora, não. *Sacudiu a cabeça, devagar, encostando-a depois ao peito do companheiro.* Agora, tudo é diferente. Eu tenho pensado muito, Seth. Muito mesmo. Agora, que não gasto mais tempo dormindo, tenho tido as noites para pensar. Pensei em tudo o que você tem feito por mim. Você cometeu erros, sim. Mas até um deus pode errar. *Suspirou, abraçando-o.* Agora, temos de ficar juntos. Por mim. Por você. Por Hórus e Anúbis, nossos filhos. E por este filho, feito do nosso amor, da nossa essência. *Fez um gesto negativo.* Eu estava errada. Preciso, sim, da sua proteção. Néftis vai tentar me atacar quando souber. A inveja dela não conhece limites. E eu não quero arriscar. E nem você. Lembre-se de que este foi o preço combinado da minha companhia. Algo que você não quer perder. *Soltando-se dos braços de Seth, a deusa morena se afastou dele e desceu para a cabine que dividiam. Esperaria ali, deitada na ampla cama, sem dar mais uma palavra exceto em resposta a quaisquer perguntas que Seth porventura fizesse. Não sairia dali enquanto os chacais não voltassem com Bastet. Além de saber que era uma aliada valiosa, sentia, pura e simplesmente, a falta da deusa felina.*
*Bastet dedicava-se pouco a olhar os chacais de Seth, dando a eles pouca importância ou importância nenhuma. Geniosa que só. Voltou a suspirar de maneira contida, a cauda pomposa revirando-se no alto como todo bom felino irritado faz.* - Bastet, senhores, Bastet. Ou se preferirem Ailuros. *Bastet então manteve à frente nas escadarias, ágil tratou de subi-las rapidamente, sendo até mesmo obrigada a ter de esperar lá em cima pelos guardiões de Seth, quanta burocracia desnecessária. Quando o Quinto lhe falou, tomando o lugar de Seth em sua narrativa, a gata expressou alguma surpresa, ainda mais diante do “eu andei aprontando” riria se pudesse, mas aquela forma não lhe permitia tais regalias. Ficou em silêncio quando se moveu- em direção a um dos chacais.* […] *Saltou com a maestria das patas habilidosas, saltou para o braço de um dos chacais, chegando a fincar as unhas para se segurar e quando o fez, moveu-se com todo o cuidado de um gato, até deitar-se esparramada e folgada sobre o ombro do chacal.* - Hm..? Como assim quem me enviou? *Indagou despreocupadamente, esticando-se sobre o ombro, a cauda, sempre pendendo de um lado para o outro.* - Estou aqui porque quero. *E talvez aquilo sim, chocasse Seth.*
*As portas da cabine se abriram para que Seth entrasse. Estava com o cenho franzido, igual ao dos curiosos que viam uma esquadra de navios fundear ante o porto do Cairo. As águas do rio estavam furiosas e, estranhamente, nenhum barco da marinha egípcia, fosse fiscalizador ou não, havia ido ter com os navios que compunham a esquadra. Os Chacais vieram com a noite, que encobriu a chegada de sete sujeitos que marcharam silenciosamente pelas docas e, depois, sobre as águas, até pisarem no iate. O que trazia a gata no ombro não parecia muito feliz, mas aguentou as garras fincadas na carne em silêncio.* Ísis... *Seth não dissera nada à deusa acerca do aduzido por Bastet: "estou aqui porque quero". Ele mesmo não entendera. Sabia que Bastet era esquisita, mesmo para uma felina, mas daí a enfiar-se numa prisão maldita como aquela? Se Bastet tinha meios de retornar ao plano divino, talvez ela fosse a fonte, o princípio da liberdade de Seth.* Querida, Bastet está aqui. *E, estendendo a mão para a deusa, convidou-a para o convés. O iate voltou a navegar, rio acima, juntamente com as outras embarcações, encobertas por uma neblina que se adensava. Os Sete Chacais se curvaram respeitosamente para a gata e, um a um, sumiram na neblina. O último, contudo, perguntou, visivelmente constrangido.* Ahn... a senhora gostaria de... sabe... uma tigela com leite?
*Ísis estava quieta, pensativa, quando ouviu os passos firmes de Seth e as portas que se abriam. Sentou-se na cama, ajeitando os cabelos com as duas mãos. Afastou algumas mechas para trás das orelhas, afastando-as do rosto levemente desbotado. Ficou de pé, aceitando o apoio de Seth, e o seguiu para o convés. Ao ver Bastet, ajoelhou-se para ficar à altura da deusa. Sentiu vontade de segurá-la, abraçá-la, mas controlou aquela vontade absurda. Fez um movimento de cabeça em cumprimento a outra, e alisou-lhe respeitosa e carinhosamente os pelos do dorso, de forma breve.* Caríssima Bastet. *Murmurou, suavemente, em egípcio antigo.* É muito bom tê-la aqui, junto a nós. *Depois dessas palavras, Ísis se pôs de pé novamente e ficou encostada a Seth, observando Bastet. Esperava que ela dissesse algo, fosse um cumprimento ou a informação do que queria ou precisava.*
*A felina dedicou-se pelo caminho apenas a cochilar de maneira despreocupada, sempre prendendo as unhas quando achava que pudesse ser derrubada. De resto, não pronunciou-se mais, esperando pela chegada a presença de Seth, e quando o fez, saltou com leveza e delicadeza do ombro do Chacal, sentando-se e enrolado a cauda em volta das próprias patas. “Querida?” Ecoou na mente da gata, que dedicou-se apenas a olhar, certo, Bastet, talvez tenha ficado tempo demais fora para acompanhar as mudanças, olhou na direção em que Seth estendeu a mão, por séculos ficou sem ver ou falar com Ísis ou com qualquer outro “irmão”. Limitou-se a olhar.* - Oh, não, obrigada. Estou satisfeita por hora. *Por hora, e aquela palavra deveria ser bem destacada. Quando Ísis fez-se presente, Bastet limitou-se a olhar, ronronou de leve e esfregou-se na mulher para retribuir seu “olá”. Talvez estivesse mesmo na hora de assumir uma forma mais digna de conversa-se. Respirou fundo, descontente.* … *Os pêlos foram entrando para dentro do corpo, dando lugar a uma pele levemente morena, os cabelos negros e lisos caíram pelo rosto, estava abaixada – na mesma posição em que o gato se encontrava, “abraçando” o corpo visivelmente nú, possuía pouquíssimos adornos – odiava adornos, eram pesados e desnecessários. - quando por fim seu corpo tornou-se apenas carne e nada mais que carne, Bastet se ergueu, completamente nua e nada desconfortável com o fato, para ela, nada mais do que natural a nudez. A única coisa em seu pescoço era o colar que pendia ainda como uma coleira e no queixo uma especia de... Bom, não dava para saber o que era aquilo no queixo de Bastet.* - Quando desanimo, irmãos. *Resmungou, jogando os longos cabelos às costas, que lhe cobriam quase como um manto.* - Quanto desanimo, agora digam. O que desejam afinal? *E não dava a minima por estar nua, não dava mesmo.*
*Ísis, para Seth, era tudo. Até a eternidade no inferno - que para ele era traduzido como Terra - era suportável se a deusa estivesse ao seu lado. A verdade é que desde que a reencontrou, sob a máscara de uma decoradora londrina, passou a encarar a imortalidade no exílio de modo menos doloroso. A vingança, sua bandeira mais alta, pareceu ceder à vontade de ficar ao lado de sua amada, fosse na Terra, fosse em seu trono. Estar ao lado de Ísis, para Seth, era viver uma eternidade de admiração e encantamento. A deusa era de uma natureza tão diferente da sua que cada gesto, cada palavra era como um aprendizado. Os modos dóceis eram tão opostos à truculência de Seth que ele podia sentir que Ísis, de certo modo, o completava. Foi com afeto que ele observou a deusa se ajoelhar e afagar Bastet. A deusa sempre se passara por gato de modo que a visão não era tão bizarra assim aos olhos de Seth como seria aos olhos de qualquer outro. E isso incluia o resto da tripulação, que fora dispensada dos serviços e embarcaram nos outros navios, isto é, nos destroços de navios afundados e tripulados por um bando de almas condenadas. De todo modo, o iate era agora conduzido por Seth e era todo dos deuses. Seth, ao contrário de Ísis, não se ajoelhou para afagar a felina. Estava preparado para pisar-lhe a cabeça se temperamento de Bastet o irritasse o suficiente. Felizmente, a deusa tomou forma humana e o deus sorriu, antes de dizer:* O Dom que Anubis herdou de mim, como pode ver, nos protege. *Com um gesto abrangente, apontou para os navios, ao redor, numa procissão macabra até Abu Simbel. Seth não fazia idéia do efeito do nome de Anubis em Bastet, já que o exílio o deixara por fora das fofocas. E mesmo que não estivesse exilado, dificilmente daria bola para os relacionamentos do filho. Anubis, embora fosse filho de Seth, era um deus. E tratava o pai, assim como o pai tratava o filho, como outro deus. Não havia uma relação de subordinação ou coisa parecida. Assim era porque, no final das contas, todos eram deuses. Assim sempre fora, por todas as gerações, desde Rá.* E eu lhe digo, Bastet, que precisamos de proteção. Não falo de mim, especificamente. *E o braço circundou a cintura de Ísis.* Eu vivi sozinho neste lugar por tempo demais. Há quem diga que mereci. Eu discordo. *E antes que aquilo se tornasse um novo julgamento - novo, aliás, não, já que ele foi enviado ao exílio sumariamente, sem julgamento - prosseguiu.* De todo modo, é com Ísis que me preocupo. *E apontou a mesa em que tomaram café da manhã, que ainda se achava no convés. Não que convidasse Bastet à ceia, mas ao menos uma cadeira seria bem-vinda. A nudez da felina também não o incomodava, já que já vira um bocado de mulheres nuas em sua existência e, além disso, contemplava mais facilmente a aura divina de Bastet do que a carne que lhe revestia.* Você disse que veio à Terra porque quis...?
*Isis ficou de pé perto de Seth, permitindo docilmente que ele enlaçasse sua cintura. Também ela não se incomodou com a nudez de Bastet. Como deuses, tinham padrões diferentes daqueles pelos quais os humanos se pautavam. Acariciou a mão de Seth quando ele disse que era consigo que se preocupava. Inclinou o pescoço de modo a apoiar a cabeça ao ombro do companheiro, e esperou. Esperava tranquilamente que Bastet decidisse se continuaria ali, ou se iria se sentar junto à mesa. Fosse qual fosse a decisão da deusa, Ísis a acompanharia, sossegada e muito quieta. Em pé ou sentada, sempre manteria uma mão tocando a de Seth, como se quisesse garantir que ele ficaria ali.* Você sabe que não precisa se preocupar tanto comigo, Seth. *Murmurou com a doçura que lhe era usual quando não estava gritando e quebrando vidros. Voltou-se para Bastet.* Seth está preocupado por causa de Néftis. Ela tem feito tudo a seu alcance para me ferir, e agora... A situação é mais delicada. *Murmurou, sem se deter em maiores explicações. Conhecia Bastet. Se ela quisesse explicações, pediria por elas.*
- Poupe meus ouvidos, Seth! Eles são sensíveis. *Disse assim, sem papas na língua enquanto caminhava pela embarcação, aparentemente indiferente a cena que via, Bastet possuía por si só um comportamento bastante peculiar e como a maioria dos Deuses, não era lá a maior fã ou aliada de Seth, tinha suas idéias, suas conclusões e ninguém ia mudar o modo como pensava, não até que precisasse que fosse modificado. Circulou aleatoriamente pela embarcação chegando a bocejar enquanto Seth falava, quando viu a mão indicando a mesa arqueou uma das sobrancelhas.* … *Moveu-se, Bastet em sua forma humana era tão ou mais graciosa que sua forma felina, não fazia barulhos ao andar e andava tão depressa que às vezes era difícil acompanhá-la, porém antes mesmo de se aproximar da mesa, ela saltou e no ar, seu corpo tornou-se o grande felino negro de novo, caindo sobre a mesa de pé nas quatro patas, cheirou aqui e ali, nada de interessante para se mastigar.* - Corrija: Você precisa de proteção, Seth meu caro, eu estou exatamente aonde queria estar. *Olhou então Ísis e moveu a cabeça em sinal de negativo com as palavras da mulher. Era a Deusa da Fertilidade, por Rá! Claro que sentia isso, mas nada disse, se Ísis não tinha falado, Bastet não ia comentar, a não ser claro, que fosse para alfinetar Seth.* - Vi porque quis, qual outra razão? Os mortais são tão divertidos, Seth! E você me tirou o melhor deles com sua chateação. *Ronronou um meio rosnado ou alguma coisa semelhante a isso naquele forma.* - Sabe quanto tempo vou demorar para arrumar outro? Sempre colocando seu nariz acima dos narizes alheios. *E então se sentou, sobre a mesa mesmo, o rabo voltando a enrolar-se sobre as patas.* -Néftis, a mal amada. *Resmungou ao acaso.* - Por ti, Ísis, até proponho-me a fazer algo em ajuda e auxilo, mas escute bem; por ti. *E olhou Seth com o canto dos olhos.*
*Calado, Seth esperou que Bastet se sentasse. Mas ela não se sentou, é claro. Tinha que dar uma maldita acrobacia e fazer aquele charme todo. O deus revirou os olhos. Bastet se parecia mais com a sogra do que com a irmã. Enquanto a gata fuçava por "algo para mastigar", Seth puxou uma cadeira para Ísis, mas não se sentou. Imaginou que ela se sentaria e, se assim fosse, ficaria em pé, ao seu lado, observando a gata ir e vir. Foi em silêncio que ouviu Bastet falar. E ela falava muito para um maldito gato. À insolência de Bastet, os olhos de Seth se estreitaram e a vontade de esmigalhar aquele monte de pêlos cresceu. Cresceu muito.* Eu não preciso de proteção. *Disse, por fim, e um pouco entredentes. Ainda que precisasse, é claro, jamais o diria. Ele era Seth, deus aclamado na guerra. Era guerreiro por excelência e Hórus o subjugou com a ajuda de mais três entidades. Quando ascendesse, estaria ainda mais forte. Que diabos a gata queria dizer?* Como veio aqui? O quê... divertidos? Eles morrem aos montes sem eu nem fazer nada. É uma catástrofe por dia quando eu estou de folga. Que diversão você vê neles? Eu só vejo o reflexo da destruição. Eu nem preciso mais empurrá-los para o caos porque já conhecem o caminho sozinhos. *Seth não poderia nunca ver a beleza na humanidade. Não existia para tal. Sua função era outra. Era no caos que via a beleza e só nele. De qualquer modo, em última instância, ele a via, a beleza. Só que sob outro prisma. Todos os deuses, afinal, podiam enxergar a beleza da humanidade, mas cada qual à sua maneira. Mal humorado, Seth cruzou os braços, esforçando-se para esboçar um sorriso idiota que tentasse disfarçar a vontade de pisar na calda de Bastet. Um dos punhos estavam cerrados. Sua natureza destrutiva estava à beira do colapso. Em milênios sem contato com nenhum outro deus, não estava acostumado à insolência. E isso certamente era algo com que deveria acostumar-se, sobretudo com o gênio terrível de Bastet por perto. Ísis acabaria por ser mesmo o instrumento apaziguador do conflito entre ambos, mitigando a vontade de Seth de fazer churrasco de gata.* Hunf... faça por ela, é óbvio. Eu bem sei me virar sozinho. Eu não esperava mesmo ajuda de você, deusa Bastet. Lembro-me bem da sua neutralidade... *Lembrava-se do dia do Exílio. Foram três que o seguraram pelos braços e os céus se agitaram tão violentamente que o Vale da Terra indundou por 40 dias e por 40 noites, episódio que foi registrado na Escritura dos escravos (Torá judaica, Arca de Noé), posteriormente. É certo que não contara com o apoio de nenhum deus, mas foi divertido governar o Submundo livre de todo o tormento imposto por Osíris por algumas Eras. O Exílio fora doloroso, ainda assim, e a memória que lhe vinha à tona, sobretudo a referência direta à neutralidade de Bastet atiçou o desejo de vingança, aplacável somente pela vontade de Ísis. Poderia começar o banquete divino com Bastet... os olhos faiscaram, desejosos.* Pergunto-me se você conseguiria fugir de chacais com todo esse tamanhão exagerado aí para uma gata...
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