terça-feira, 24 de novembro de 2009

25-11-09 - Isis, Seth, Bastet, Anúbis

*Ísis não deu pela presença daquelas criadas que entraram correndo no quarto quando de seu desmaio, provavelmente convocadas por Seth. Inconsciente, não protestou com palavras ou gestos quando as criadas a ajeitaram na cama, com as costas para baixo - estava deitada de lado - e as mãos entrelaçadas sobre o abdome liso. Os cabelos negros estavam espalhados pelo travesseiro, e o rosto tranquilo indicava que naquele momento não sofria ataque algum, o que provavelmente queria dizer que Néftis só podia atacá-la quando estava acordada. Pelo menos era o que a deusa pensaria quando acordasse, visto que não fora testemunha daquele ataque de Seth direcionado a sua ciumenta ex-esposa. Ísis continuou adormecida por mais algum tempo, só abrindo os olhos depois da perda de consciência de Néftis e após o momento em que o corpo de Seth tombou junto ao seu. Olhou-o com ar espantado, passando a mão pelo rosto dele. Aquele sorriso lhe dizia que ele fizera alguma coisa, embora não soubesse o que. Devagar, com movimentos lentos, puxou o amado de modo a que a cabeça dele se apoiasse em seu colo macio. Então, chamou, bem baixinho.* Seth? Amado? *Esperou, inquieta, que ele despertasse ou lhe desse qualquer tipo de resposta indicativa de que a ouvira.*

*É difícil precisar o tempo que Seth permaneceu desacordado. Isto é, ainda que insconsciente, ele podia ouvir ecos aqui e ali de vozes poderosas num debate acirrado. O sorriso no rosto indicava uma possibilidade, mas ele mesmo não havia entendido o que se passou. Ninguém, em verdade, havia entendido direito. O dia seguinte traria dois encontros interessantes para cuidar do evento. O primeiro aconteceria em Vienna, na Áustria, e seria realizado pela Alta Cúpula da Camarilla, com o intuito de verificar se havia algum indício de antediluviano ou matusalém capaz de preconizar uma Gehenna decente. O segundo seria, por assim dizer, mais divino - literalmente. A verdade é que Seth não pisara no plano divino, tampouco chegara a ameaçar a estabilidade do império de Hórus, na sobrevida. Talvez somente o próprio Rá, que brilhava acima dos dois planos - quais sejam, o Submundo de Anubis e o Sobremundo de Hórus - havia entendido de pronto o que se passara. À exceção, é claro, daquelas entidades superiores, que prediziam o futuro e compreendiam a natureza peculiar do tempo e do espaço em absoluto. De todo modo, Seth havia vislumbrado uma passagem, ainda que pequena. A explosão de sua natureza, alimentada pela ira, foi de tamanha intensidade que reverberou no universo, rasgando tênue linha que separa a dimensão divina da dimensão terrena. O cataclisma que se fez no mundo não foi premeditado por Seth, é verdade. Foi apenas consequência de uma instabilidade incontrolável, uma ascensão de poder exponencial forte o suficiente para que Hórus ordenasse aos seus exércitos que pegassem as armas. Felizmente para os deuses, foi apenas um estrondo. Mas foi o suficiente para causar pânico entre aqueles que temiam o retorno do deus da destruição e iniciar um pequeno levante de cochichos a respeito de uma catástrofe divina vindoura. O plano divino certamente estaria em polvorosa.* ...? *Os olhos se abriram e, por um segundo ou dois, a escuridão da alma de Seth ainda podia ser perscrutada, até que sumisse por completo e a íris voltasse ao tom preto usual. Achava-se no colo de Ísis e o corpo todo doía. Era como se aquela descarga poderosa houvesse sido forte demais para o receptáculo de carne e osso. Mas nem pensou nisso ao ver diante de si o rosto de Ísis e a lembrança da preocupação o tomou novamente.* Ísis? *Levantou-se abruptamente, o corpo exigindo descanso.* Você está bem? O que ela fez com você? Ora aquela... *A lembrança odiosa de Néftis e a vontade de estripar-lhe era, aos poucos, o remédio ideal para a sua fadiga: o ódio alimentava a sua alma e restabelecia seu poder.*

*Após o desaparecimento entre a tempestade de areia criada por Seth, carregando Bastet no colo, Anúbis localizou-se em um local especial: Um galpão abandonado em Nova York, coberto, de cima a baixo, por simbolos, selos e runas, que deixavam o local, no minimo, impenetravel para quem já não o tivesse penetrado, e impossivel de se localizar - exceto pelos que já sabem aonde está. O galpão, apesar de grande, para que pudesse receber em suas paredes todos os simbolos sem que nenhum deles se sobreposse, era vazio, praticamente. Havia apenas uma mesa metálica, como que cirurgica, uma unica cadeira, e uma cama de solteiro, aparentemente confortavel, arrumada em um canto. Depositou Bastet sobre a cama, ainda coberta pelo manto que ele mesmo havia materializado, o manto que impedia que o corpo que Anúbis considerava tão particular fosse vislumbrado por outros olhos que não os seus. Disse-lhe que já voltava, e pediu-lhe que não saisse. E então, sentou-se sobre a cadeira, passou as mãos pelo rosto para limpar-lhe de uma sujeira inexistente, e puxou, de dentro das vestes arcaicas, um pingente. O pingente tratava-se de uma cruz ansata - a Ankh - feita de ouro - a carne dos Deuses, lapis-lasuli - o cabelo dos Deuses, e prata - os ossos dos Deuses. Segurou-o em sua mão por um breve instante, e então, o corpo caiu, inerte, como se desmaiado, sobre a cadeira. E Bastet sabia, que Anúbis não mais estava lá. Depois de quase um minuto o corpo se ergueu abrutamente, sugando o ar com violência. Olhou em volta de maneira nervosa, ignorando Bastet, e saiu. * ... *O Deus-Chacal da Morte inspirou profundamente, as narinas caninas fremindo no ar, diante do cheiro da terra que era sua, o submundo, o gigantesco e infinito deserto de areia negra, e céu arroxeado, onde se encontravam, além de tudo, também os Campos de Iaru, o local onde as almas julgadas para o bem passariam a eternidade em descanso, até decidirem por sua volta a terra. Já o aguardavam ali, no entanto. Dez anubites, altos monstros com cabeça de chacal, estavam parados em volta de um grande trono de roxa negra, que seria, assim que Anúbis lá sentasse, suspenso por duas hastes. E então, a caminhada começou. Ele não precisava dizer-lhes para onde iam. Os Anubites sabiam. Eles sempre sabiam para onde deveriam levar Anúbis. Antes, passaria pelo mais proximo: o palácio de Néftis, sua mãe. Anúbis não nutria, no geral, estima especial por Isis, sua madrasta, no entanto, havia feito um trato com a Deusa. E ela o havia quebrado ao atacar, mais uma vez, Isis. E, se algum principio real existia no coração do Senhor das Terras Assombradas, este dizia a respeito de não se quebrar acordos.* ... *O trono foi colocado com suavidade ao chão novamente, quando chegaram em frente ao palácio, e Anúbis desceu, os passos sempre calmos, sempre sem pressa. Sua pele, fora do invólucro de carne ao qual era compelido quando na terra, também era alto, mas a pele era mais escura, em um tom estranho de cobre, e tinha a musculatura mais desenvolvida. Se guiaria pelos caminhos que já conhecia, pois Néftis já havia sido avisada de sua presença, e, quando junto dela, não hesitaria ou faria rodeios. Lembraria a ela do trato que haviam feito. Lembraria a ela de que sua melhor sacerdote, a que a servia a mais de duzentos anos, apenas estava viva por consideração de Anúbis aos pedidos da mãe, e que ele havia lhe feito apenas um em troca, e isto não fazia muito tempo: Não ferir Isis. E ela o havia feito. Diria a ela que seria a ultima vez. E que na proxima, a alma de Met, a sacerdotisa, estaria livre para encontrar seu caminho. Na realidade, ele não esperaria uma resposta, antes de se afastar. Não fora ali em busca de respostas, promessas, ou sermões. Fora ali notifica-la da quebra de um contrato, e de que ele, como um Deus generoso, estaria dando a ela uma segunda - e ultima - chance. * ... *E dali se dirigia a Hórus, pois sabia que, naquele momento, os Deuses não mais estariam reunidos, e que, se desejava saber de algo, era a ele que deveria perguntar. A conversa foi longa, até mesmo. Anúbis mal falava, mas Hórus o fazia bastante - talvez gostasse do som da própria voz, e enrolava e fazia rodeios para responder as perguntas que lhe haviam sido entregues. Quando, por fim, Anúbis conseguiu o que queria, iniciaria a nova peregrinação para voltar. Hórus também havia feito perguntas. Anúbis também havia dado respostas. Verdadeiras? Não se pode dizer. *

*Ísis suspirou, aliviada, quando Seth abriu os olhos. Já estava ficando inquieta com aquela inconsciência dele, de que não sabia a razão. Chegou a levar um pequeno susto quando o viu levantar daquela maneira abrupta, mas continuou deitada onde estava. Ao contrário dele, não tinha tanta facilidade para recobrar as forças de uma hora para outra. Voltou o rosto paraSeth e pediu com o gesto que ele se sentasse na cama. Somente quando ele o fizesse a deusa voltaria a falar.* Não se preocupe, Seth, por favor. Aconteça o que acontecer, você precisa manter o controle de seus sentimentos. Néftis, por mais que me deteste, não se incomodaria em gastar seu tempo me atingindo. É a você que ela quer atingir, e descobriu que a maneira mais fácil de fazer isso é me atacando. *Acariciava a mão dele, com aquele toque cálido e suave que, ela sabia, tinha o poder de acalmar seu companheiro.* Ela não consegue mais atacar meu corpo, desde que você pôs a Ankh em minha pele. Só lhe resta atacar minha mente, implantando nela imagens do que me faria se pusesse as mãos em mim. *A deusa estremeceu de leve, quase imperceptivelmente.* Não temos alternativa a não ser esperar. Quando eu tiver recobrado minhas forças por completo, irei ter com ela, ou a convidarei a ir ter comigo. *Murmurou, num tom incerto, de quem não sabia qual seria a reação às suas palavras.Naturalmente, não sabia que suas diligências não seriam necessárias devido às que Anúbis tomara no outro mundo. Enquanto falava a Seth, sentiu outra voz em sua mente. "Mãe", a voz dizia. Sorriu calidamente. Não sabia como, mas Hórus conseguira estabelecer uma conexão mental. "O que foi?", sua mente respondeu. "Tome cuidado. Com Néftis e com Anúbis. Por favor. Conversaremos em breve". Antes que pudesse responder, a conexão foi desfeita e a deusa retirou a mão de sobre o peito, onde ela fora parar inconscientemente.*

*Afagando o rosto da amada, Seth percebeu que, de fato, seu corpo restaria protegido, mas a Mente, como a deusa bem aduzia, estava exposta. Não tinha ciência do que se passava entre os deuses, vez que sua conexão havia sido cortada em absoluto com aquele plano, malgrado tenha Seth podido fazer tremer as fundações divinas. Não se importava, em verdade, se Anubis cuidaria da mãe, ou não. Não se importava se Ísis procurasse uma solução pacífica com Néftis - obviamente, ele não cogitava a possibilidade de Ísis vir a chocar-se com a deusa violentamente. De qualquer modo, ele queria, ele mesmo, destrui-la.* Você estará segura, querida. Logo a sua força estará restabelecida por completo e logo eu terei ascendido plenamente. Não haverá nada que possa tocá-la, eu lhe prometo. *E, acariciando o ventre da deusa, completou.* Nem à nossa criança. Agora, descanse... *Seth não captou a conexão mental entre Hórus, seu inimigo, e Ísis. O que foi bom. Em verdade, deveria cuidar de uma ou duas coisas. Cinco dos Sete Chacais montaram guarda no Abrigo, comandando os 600 homens convocados a proteger Ísis. O deus da destruição se virou e, numa nuvem de poeira, desapareceu.*

*E então, finalmente, voltava a terra dos humanos, aconchegando sua energia primordial dentro de uma fragil casca de carne, ossos, e orgãos. Havia levado mais tempo do que planejara - um dia inteiro se passara desde quando deixou Bastet no galpão. Enviara um Anubite para lhe avisar que demoraria, porém, não sabia se a Deusa-gato havia chegado a receber o recado. Depois acomodar-se dentro do invólocro, tudo era mais rapido. De uma forma estranha, Anúbis por vezes se perguntava se o mundo mortal fora criado justamente para dobrar-se aos desejos dos Deuses, porque... era tão facil! Mover-se de um ponto a outro do globo, mudar sua aparencia.. Era sempre facil demais. E foi pensando nisto que a porta do galpão se abriu, e por ela passou Anúbis, a fechando atrás de si. Observou o ambiente atento, em busca de Bastet. *

*Ísis se deixou acariciar por Seth, mantendo o silêncio depois que a voz de Hórus se calou em sua mente. Estava mais tranquila agora. As poucas palavras do filho a asseguravam de que a fúria dele não estava voltada para si. Talvez, apenas talvez, ele pudesse ser um aliado. Poucou a mão sobre a de Seth quando ele acaricious seu ventre.* Confio em você, amado. E descansarei. Não sairei daqui até que você volte. *Prometeu, querendo tranquilizá-lo. Assim que o deus sumiu de suas vistas, chamou uma das servas e pediu que fosse lhe providenciar o que comer. Não estava com fome, mas precisava se alimentar para manter seu corpo físico funcionando bem. Mandando que as outras mantivessem silêncio, fechou os olhos e começou a refletir sobre o que teria a fazer em relação à criança que esperava. Concluiu que não podia simplesmente voltar para o plano divino e deixar seu corpo mortal ali, não enquanto a criança vivesse dentro dele. Suspirou, e se concentrou na mente do filho. Alcançou-a logo, e passaria longo tempo conversando com ele, pedindo que fosse seu aliado no outro plano, ao menos no sentido de não deixar que lhe fizessem mal, e a visitasse logo que pudesse. Ele aceitou um pedido, e prometeu pensar sobre o outro, e novamente a conexão foi desfeita. A deusa se alimentou e mandou que as servas ficassem na sala, à exceção de uma, que recebeu ordens de estar sempre à disposição. Com a companhia da mulher encoberta, a deusa dormiu, recuperando mais as energias.*

*Ela não tinha movido um músculo, permaneceu lá. Deitada na cama como ele havia lhe posto, sem se mover nem um centímetro sequer. Estava olhando para o teto, entretida com o nada a sua frente, gostava daquele silêncio, da ausência de Seth e da ausência de confabulações e planos dos outros Deuses, gostava daquele modo de como ninguém podia encontrá-la e desejou intensamente nunca, jamais, e por todos e todos os séculos ser obrigada a deixar aquele lugar. E então a porta se abriu.* ... *Ela não se mexeu, as mãos sobre o ventre, os olhos abertos sobre o teto, ainda coberta com aquele estranho manto que Anúbis lhe ocultou, ainda do jeito que ele lhe deixou, ela apenas respirou fundo, os olhos fixos no nada.* - Anupu... *Sussurrou-lhe a voz doce de Bastet. E só então a Deusa moveu-se, ergueu vagarosamente o corpo, o manto escorregando-lhe pelas curvas sinuosas de seu corpo moreno, virou-se para Anúbis, os olhos azuis felinos focados na expressão do Deus. Anúbis e Bastet não era como Seth e Ísis ou como qualquer outro casal, Anúbis e Bastet não precisavam de palavras, não precisavam expressar a cada segundo o que queriam ou pensavam, Anúbis e Bastet eram a Canção... E o Silêncio. * ... *Ela deslizou como um anjo em passos suaves e sem som até Anúbis, segurou seu rosto com ambas as mãos, mergulhou em seus olhos até o fundo, até sentir-se afogar pelo negrume dos olhos do amante, até o ar perder-se e a necessidade de emergir surgisse e então voltou.* - Néftis. *Disse o nome da Deusa sem emoção e então franziu uma das sobrancelhas.* - Hórus? *Ficou um segundo em silêncio, deixando os dedos deslizarem pelo rosto humano de Anúbis, até as mãos repousarem em seus ombros.* - Proibiram- me? *Indagou, despreocupada.*

*Eram cerca de 150 veículos. Tanques, carros e motocicletas. O armamento pesado estava encaixotado. Magnólia da Prússia, um Chacal, não se parecia em nada com os homens que iam e vinham agitados, tentando mostrar à mulher que todo o equipamento estava adequadamente cuidado e que a manutenção era constante. Magnólia, uma loura da velha Prússia de 1,85m não tinha o mais escultural dos corpos, mas seu rosto era belo como só os nórdicos sabem ser. A alvura e a maciez de sua pele não davam o menor indício de que aquela fosse uma criatura secular. O outro Chacal, um Tremere que aparentava 17 anos de idade, cabelos longos e muito pretos, se aproximou da loura.* Seth está aqui. *O deus da destruição vestia uma indumentária branca, toda ela, de um branco absoluto. Era um terno completo, sem gravata, e da mais pura seda. Era impensável a possibilidade de um único grão de areia tocar o tecido e, de fato, tal evento parecia inexistir.* Hum... *O deus emitiu, enquanto fitava o enorme galpão que abrigava as armas, em algum ponto do deserto do Arizona, EUA.* Eu gosto das motocicletas. São melhores que as bigas. *Voltou-se para Magnólia.* Chacal, esta é a unidade...? *A voz da mulher soou veloz.* 143, meu Senhor. De um total de 350. *Seth tamborilou os dedos, pensativo. Sua Mente vagava pelo mundo, repousando somente no seio de Ísis e no seu ventre.* Precisamos de mais. *Os dois Chacais se entreolharam. O vampiro começou...* Mais, senhor? Acho que não... *E caiu sem vida.* Eu disse que precisamos de mais. Providencie. *E, dando as costas para Magnólia, saiu tranquilamente do galpão, desaparecendo, lá fora. O Chacal que tombou se levantou, arfante e em pânico.* Odeio o inferno! Quase 15 anos dessa vez! Quanto tempo se passou? *Magnólia deu de ombros.* Acho que não deu um minuto... Ele quer uma demonstração de força! *O vampiro deu de ombros.* Marchemos diante da Munificentíssima Ísis. Será uma unidade inteira, quase 3 mil homens. Vai impressioná-la. *Mas a loura continuou impassível.* Não. Ele quer um ataque direto. *Os olhos do Chacal se arregalaram.* Contra quem??? *[...]O Abrigo estava agitado. Embora houvesse sido construído para abrigar deuses, nenhum deus nunca de fato havia posto os pés ali antes. E os servos já não sabiam mais o que fazer para agradar Ísis. Duas kindred setitas discutiam acerca do melhor prato para servir a Ísis, uma desejando servir carne humana, outra desejando servir sangue de gado. As duas queimaram até virarem pó quando Seth pisou na sala: estavam falando alto demais. O deus da destruição caminhou a passos largos, sentindo sua força em abundância à medida que se aproximava do leito de Ísis. Vê-la deitada em sono profundo era como ver um oásis no deserto - em certo sentido, já que Seth não sentia sede, tecnicamente.* Ísis... desperte, meu amor... *E aguardou que a deusa lhe fitasse com aqueles olhos amendoados.* Estivemos em evidência por tempo demais. Mas eu tomei algumas precauções para que isso mude. Sobretudo após o incidente de ontem, não seria prudente ficarmos tão gritantemente aos olhos de... daqueles que não me querem bem. *Tocou-lhe o ventre e o beijou, deitando-se no colo da deusa.* Eu tenho muito, agora, a proteger. * "Mas preciso ter com Anubis e Bastet antes disso", pensou. Esperaria que a deusa o acompanhasse. Depois de ter com o filho e a nora, sairia de cena, tornando-se apenas mais um homem no mundo ao lado de sua esposa. Apenas um homem mortal. Aparentemente.*

*Interessante era, ver Bastet ali, deitada na cama, no mesmo lugar, na mesma posição. Anúbis poderia jurar até que o manto que a cobria não havia se movido sequer um centimetro para que lado fosse. Ficou a observa-la, distante, apenas parando ao lado da mesa de metal para retirar uma das luvas. Elas lhe atrapalhavam, as vezes. Gostava de sentir a pele de Bastet em seus dedos, e as luvas, por mais que parecessem tão confortaveis e necessarias, naquilo, lhe atrapalhavam. Levantou o rosto de volta a ela, após o breve segundo que eles a haviam deixado, quando ouviu a Deusa lhe chamando o nome. O olhar dele seguiu o manto, enquanto este, tão fluido quanto a mais pura agua, deslisava pelas curvas de Bastet. Voltou os olhos ao rosto dela, então. O sorriso costumeiro que tinha em seus lábios, tão comum, tão leve, que quase não tinha significado, ergueu-se sutilmente no canto direito, para logo voltar ao normal. Esperou por ela no mesmo lugar, os olhos acompanhando os passos felinos de sua consorte. Deixou que ela lhe tocasse o rosto. Ela podia tocar-lhe sem permissão. Uma das raras pessoas com tal privilégio. As mãos de Anúbis pousaram sobre a cintura de Bastet, a puxando para mais perto, enquanto mantinha os olhos abertos, aqueles poços de gelo negro e morte abertos para os mistérios que ela saberia desvendar. Suspirou brevemente, após a pergunta. * - Sim. *E pressionou os lábios contra a tés dela por um unico instante.* - Farei-me presente aos que me aguardam. *E o faria, porque seria necessário. Ele sabia que seria. E destes, haviam muitos. Magos, múmias, metamorfos, feiticeiros, e até mesmo os odiosos vampiros. Todos esperando por Anúbis, mesmo que não soubessem. Esperando por Anúbis, ou por algo que ele poderia lhes entregar.*

*Ísis estava descansando, mas ao sentir a presença de Seth no Abrigo, despertou, embora ainda mantivesse os olhos fechados e a respiração calma. Só os abriu quando ouviu a voz de Seth pedindo que despertasse. Abriu os olhos lentamente e pousou uma mão entre os cabelos de Seth, acariciando-o ali de leve, em coçadinhas suaves com as pontas dos dedos. Ouviu cada palavra que ele tinha a dizer, e assentiu, devagar.* Imagino que tenha razão, meu amado. *Murmurou, suavemente, sem interromper aqueles carinhos. Ouviu a mente dele dizer que precisaria ter com Anúbis e Bastet antes de se afastar daqueles que não lhe queriam bem, e voltou-se para a serva que estava em pé junto à porta.* Mande cancelar a refeição. Não a quero mais. *Ordenou, vendo a figura encoberta reverenciar os dois deuses e sair do quarto. Voltou-se depois para Seth, sempre mantendo os dedos entrelaçados nos cabelos do consorte, naquele carinho manso.* Quer ir agora, meu amor? *Indagou, referindo-se, obviamente, a ver Anúbis e Bastet. Não falaria ainda sobre a conversa com Hórus. Sentia que não era o momento. Sentia também algum receio sobre o que poderia acontecer quando deixasse o abrigo, mas abafou seus medos. Seth estava consigo, afinal.*

- O que pretendem? Me amarrarem em uma coleira...? *Ela sorriu, mesmo que não visse tanta graça no que estava dizendo, respirou fundo quando ele falou sobre ir a presença dos que o aguardavam, não gostava da idéia.* - Não podem me impedir, Anupu. Sabe disso. Sabem que só eu posso abrir e fechar a passagem. Nem Hórus, Nem Néftis e nem nenhum deles pode me impedir. Se eu fechá-la, nem Seth poderá mais abri-la. Claro... Que ele não sabe disso. *Respirou fundo, acariciando a face de Anúbis com tamanha contemplação que só era vista assim, quando encontravam-se a sós. Manteve-se perto dele, porque agora ele possuía o cheiro que ela conhecia. Tocou seu peito com o queixo, voltando a encontrar-se em silêncio para mais uma vez buscar as respostas dentro dos olhos de Anúbis.* - O filho... *Disse assim de repente.* - O filho de Ísis e Seth, Anupu. Não será como você. *E não existia uma razão para que aquilo fosse dito, mas ela disse.* - Ele é de carne e sangue... Assim... Assim como os homens, assim como os mortais que que Seth tanto despreza. Ele é de carne e sangue, porque foi gerado em carne e sangue. *Calou-se de novo, passando a ponta dos dedos sobre os cabelos de Anúbis.* - Se Ísis atravessar agora, a criança se despedaçará, Anupu. É isso que Néftis quer. Que Seth faça Ísis atravessar. Compreende?

*Seth parecia animado. Ísis podia vê-lo sorrir a todo instante, enquanto a levava três andares abaixo dos aposentos principais. Não podia deixar de vibrar a cada toque da amante, a cada instante que a via sorrir. Sua beleza eterna sobrepujava a carne e o desejo de deitar-se com Ísis. O amor que nutria pela deusa era algo atemporal e forte o suficiente para tê-lo lançado ao exílio, há quase cinco mil anos.* A Anhk que desenhei em tua carne... não é permanenten, nem tão eficiente quanto necessitamos que o seja. Para ocultar-se dos olhos daqueles que nos invejam, você vai precisar de algo mais.... *Calou-se, quando entrou no elevador para os andares inferiores.* Após sairmos daqui, eu lhe darei o que precisa. Servirá tão somente para que não mais possamos ser encontrados, fisicamente falando... não quer dizer que você estará imune, tampouco que não possamos ser encontrados com um pouco de insistência... ah, sim, e claro. Nossas conexões ainda existirão. *Falava da conexão que tinha com Ísis e da que pretendia utilizar para invocar Anubis, já que ignorava aquela que Ísis mantinha com Hórus.* Ah... Cá estamos... *Disse o deus da destruição quando as portas do elevador se abriram, revelando a Garagem. Assemelhava-se a uma enorme pista que sumia na escuridão. A iluminação atingia os três primeiros quilômetros da Garagem somente. Logo diante das portas do elevador, um Bugatti Veyron inteiramente preto reluzia.* Ísis, meu amor, você se lembra das bigas de guerra? *Abriu a porta para que a deusa entrasse no carro como um bom cavalheiro que era, deu a volta e se sentou no banco do motorista.* Motor. Ligar. *A ignição foi instantaneamente acionada. Seth engatou a automática, olhou para Ísis e, sorridente.* Pois é, esqueça as bigas. *Não houve solavanco, mas é certo dizer que, em 3 segundos, o carro já havia superado os 100km/h. Dentro da Garagem, visualizar o final da pista era impossível, o que insinuava um choque contra a parede de pedra iminente. Mas não foi o que aconteceu. Envolto em sombras, o carro desapareceu numa massa nebulosa. Seth e Ísis apenas puderam ver a escuridão da Garagem e, adiante, um ponto brilhante. O ponto foi se aproximando e, na verdade, era tal qual a saída de um túnel. Foi mais ou menos assim que o veículo surgiu rasgando a barreira espacial entre Abu Simbel e a Rota 66, nos EUA. O sol queimava a estrada e só havia o Bugatti Veyron nela, a exatos 260km/h. Nada mais divertido, é certo dizer, para um deus da destruição do que um brinquedo desses. Não olhou para Ísis. Deixou que ela tivesse suas próprias impressões, como os homens costumam fazer quando tem um veículo novo nas mãos - o que não implica interesse por parte delas... Enquanto dirigia, chamou por Anubis e Bastet.*

- Não podem impedi-la, mas podem dificultar-lhe a vida, Ubasti. *Disse aquilo com um tom soturno, pesado, ainda mais do que sempre era. E o disse assim porque ele sabia. Sabia que era impossivel para eles impedi-la, efetivamente, de fazer a passagem, mas que podiam lhe dar problemas no mundo dos Deuses. Obviamente, estaria em segurança enquanto escondida na negra piramide que era a morada de Anúbis, ou qualquer outro local do submundo... Mas, uma passagem eterna no submundo, longe do sol do qual havia nascido, longe de seus dominios? Anúbis tinha quase plena certeza que não era algo que Bastet iria querer. Talvez pudesse convencer Hórus e os outros Deuses a permitir a passagem, desde que não fosse nada ensinado a Seth. Ela não o pretendia, de qualquer forma. E Anúbis o fazia de outro jeito, que lhes era desconhecido. Se o ensinamento tivesse de ocorrer.. Bem. Os dedos de Anúbis, os da mão enluvadas, lhe acariciaram o rosto ao momento em que ela encostou o queixo em seu peito, e lhe tocaram o pescoço da mesma maneira que fazia quando a Deusa se encontrava em sua forma felina, com as costas dos dedos da mão. E então, ela pode notar que ele se surpreendeu ao ver o assunto que era trazido a tona, mas nada foi dito. Ele ouviu com atenção, sem cessar, por um segundo, os toques. Quando ela terminou, levou um segundo para responder. * - Sim. *E foi essa, toda a sua resposta. Era interessante, aquilo que ela havia descoberto. Não perguntaria como. Nunca perguntava. Tais informações surpreendetes, quando vindas de Bastet, geralmente estavam certas. E então, ele piscou rapidamente, uma vez. Sentiu o chamado de Seth. Odiava aquilo. Odiava com todas as forças a sensação de que estava sempre, até mesmo naquele galpão, a um pensamento de seu pai. Mas era útil, e não podia negar. Um mal necessario, assim poderia ser colocado. * - Seth nos chama... *E então, lhe tocaria a testa com o queixo, e fecharia os olhos por um instante. Estavam a beira de uma rodovia. O rugir de um carro era ouvido, enquanto ele se aproximava, os faróis faróis distantes. Anúbis não gostava daquilo. Tecnologia. Era... deprimente. Deixaria Bastet ali, pedindo, com o olhar, que assumisse a forma felina para que seu corpo não fosse exposto. Ficaria parado no meio da rua, as mãos nas costas.*

*Ísis ficou calada até que entrassem no carro de Seth. Sua mente se revolvia com questões importantes enquanto ele ia até o assento do motorista. Respirou fundo e se assustou quando o veículo atingiu aquela velocidade absurda, e mais ainda quando parecia que ele iria bater na parede. Agarrou-se ao painel com as duas mãos, sustendo um grito. Relaxou quando viu que o carro apenas passou pelo local e entrou numa espécie de túnel. Olhava o que podia ver da estrada, as mãos nos vidros como as crianças. Desde que deixara o Abrigo, aquela segurança de que gozava ali foi-se esvaindo, até deixá-la novamente assustada. Pensava em Seth, e no que ele queria fazer, a saber, ir para o plano divino. E, agora, sabia que não podia ir, senão perderia a criança que estava gerando. A simples ideia lhe evocou a lembrança das imagens ameaçadoras de Néftis, que lhe provocaram uma leve náusea. Inspirou fundo, suor frio lhe porejando na testa. Recostou-se no assento e fechou os olhos, cruzando as mãos no colo e apertando uma à outra. Ficaria assim até que o carro parasse, apenas ouvindo em sua mente as perguntas inquietas de Hórus, sem forças para responder ou fechar sua mente ao escrutínio da de Seth.*

*Bastet lhe direcionou um sorriso apático, atípico da mulher que ele conhecia, se a tinham proibido de fazer a travessia quando desejasse, só tinha uma escolha: Ou voltar ao plano do panteão ou viver na terra até que toda aquela tormenta passasse. Ninguém podia impe-la veemente de fazer a travessia, não era algo que estava sobre o controle e vontades deles, mas as palavras de Anúbis pensaram em valia a decisão que precisava tomar; podiam lhe dificultar muito a existência.* ... *Ergueu sutilmente uma das sobrancelhas ao notar a reação de Anúbis as suas revelações, ponderou se tinha sido mesmo o melhor momento para revelá-las ao consorte, mas agora estava dito e o que estava dito... Bom estava. Fechou os olhos de leve quando ele lhe tocou a face com os dedos - ela não gostava muito do toque do tecido, Bastet odiava tecidos - mas ainda sim era o toque de Anúbis e assim, podia superar o tecido sobre as mãos do amante. Quando lhe tocou a testa com o queixo, pronunciando aquelas palavras, ela estava pronta para protestar, para revindicar a vontade de realmente não ir de encontro a Seth naquele momento, talvez... Talvez devesse guardar um tempo para si. Bastet gostava de ser admirada, tocada, amada. Mas odiava, definitivamente odiava ter de dividir o mesmo espaço com o ego crescente de Seth, porém, sequer lhe sobrou tempo, quando seus olhos se abriram diante da estrada.* ... *O corpo encolheu, dando lugar aos pêlos negros, aos bigodes brancos, a cauda pomposa, ao único brinco na orelha e a coleira. O felino sentou-se ao lado de Anúbis, os olhos cerrando-se levemente diante do farol alto, mas não pronunciou palavra alguma, apenas esperando.*

*Dos céus, o Bugatti era apenas uma formiga e menor ainda era o sujeito que, a alguns quilômetros, encarava o carro de frente. O falcão estreitou os olhos. A última imagem que transmitiu a Hórus, por meio de seus olhos, foi o veículo se aproximando a toda velocidade de Anubis. Depois, o falcão despencou, sem vida, arrebentando-se nas rochas do deserto do Vale da Morte, EUA. Hórus se levantou do trono dourado. Vinha comunicando-se com a mãe, temendo por sua segurança. Havia tomado as medidas, é claro, para evitar novamente que Ísis fosse ferida e que o trânsito entre os dois mundos fosse conspurcado: decidiu vedar o trãnsito provisoriamente. Não se tratava, é certo, só do perigo que a mãe corria, mas da influência que deuses com livre trãnsito, a exemplo do Senhor das Terras Escuras e sua consorte pudessem causar nos mortais e, mais que isso, na proximidade perigosa que poderiam vir a ter com Seth. O eco de seu poder, há alguns dias, gerara instabilidade e uma pequena crise institucional no seu reinado divino que só foi aclamado com as marchas constantes das Hostes Celestiais de Hórus, exibindo sua força para que todos os deuses se certificassem que estariam seguros numa eventual invasão. Hórus piscou uma ou duas vezes antes de retirar-se para o salão da guerra e praticar a esgrima, como fazia diariamente.* [...] *O veículo parou a alguns metros de Anubis. Seth não precisava perscrutar a Mente de Ísis para saber o que ela sentia ou pensava, salvo se a deusa se fechasse. No mais, era um canal aberto para o deus da destruição. Era, afinal, sua amante e, muito em breve, mãe de sua criança. Pôde perceber o medo da deusa, a aflição pela exposição e, principalmente, a eventual catástrofe que seria a perda da vida que carregava em seu ventre. Não disse nada, contudo. Com Anubis diante do carro, parado tal qual um fantasma, achou por bem tratar disso a sós com Ísis. Foi em silêncio, assim, que saiu do carro, deu a volta ignorando Anubis, abriu a porta do veículo para que Ísis saísse e, só então, se voltasse para o Senhor dos Chacais.* Este mundo é regido pelas leis do universo, como todos os demais. Cabe ao filho de Ísis cuidar para que a Terra progrida e para que o Sobremundo dos deuses permaneça glorioso, blablabla... Mas eu não sou deste mundo. Nem Ísis. Nem Anubis. E nem Bastet... Que jurava ter atropelado, aliás. Acho que errei. De qualquer modo, os olhos que vigiam este mundo - e, como todos nós sabemos, são muitos olhos - podem também nos ver. *Olhou para o inseto insolente, algo como um besouro do deserto que pousou no seu ombro, sujando-lhe o terno branco. O bicho queimou e desapareceu.* Eu não posso dar-me ao luxo de ver Ísis exposta à vontade de Néftis. *Olhou da deusa para Anubis, pensando na estranheza daqueles laços familiares que os ligavam.* A minha expulsão cortou toda e qualquer ligação minha com aquele plano. Não posso ser facilmente localizado, não podem captar a minha aura. Só o Falcão me percebe e aqueles servos de Hórus treinados para tal. A minha conexão mental só existe com meus familiares, que se resume a Anubis e... *Achou por bem não mencionar a ligação extrema que tinha com Ísis, embora fosse evidente.*...e, assim, devo desaparecer. Mas vou levar Ísis comigo. *Do bolso interno do paletó, tirou um punhal árabe enferrujado.* Este punhal foi feito com um fragmento da lâmina que retalhou meu irmão. Existem muitos por aí... *Disso, falar-se-á mais tarde.*...mas assim vocês poderão nos encontrar. Anubis saberá como fazê-lo. *Anubis certamente saberia: o ritual para invocar Seth, à moda antiga, consistia em sacrificar uma vida com uma lâmina impura e pronunciar as palavras egípcias corretamente.* Alguma coisa a dizer? Não, né? Provavelmente...*Seth já ia se afastando*... a gente vai se ver em breve. Tão logo eu rompa a barreira entre esta porcaria toda... e o meu trono por direito.

*Anúbis não gostava do sorriso apático em Bastet, tão diferente do provocativo, do malicioso, do esperto e sagaz que geralmente se encontrava dos lábios da Deusa. Não gostava, também, de impor a ela a presença de seu pai, homem do qual Bastet obviamente não gostava. Porém, ambos haviam sido fatos necessarios; o primeiro, para que ela não se encontrasse cercada pelos exércitos de Hórus, em um belo momento em que se encontrasse em seus dominios, e o segundo, porque... porque era necessário. De certa forma, estavam em guerra. Eram Deuses em guerra ali. E Bastet e Anúbis, ao menos ao que cabia ao Deus dos Mortos, estavam bem no meio dela. * ... *Anúbis ignorou o carro, assim como havia feito Bastet, que se sentava ao lado de seus pés. Sabia que Seth não lhe atropelaria. Sabia que, se tentasse, o maximo que sofreriam seria uma lufada de vento. Não havia nada a perder. Observou, atento, silencioso e parado como sempre, o carro estacionar, o cheiro forte e desconfortavel da gasolina e da borracha no ar, observou enquanto ele abria a porta para Isis, e quando começara a falar. Ouviu, atento, com a costumeira reação nenhuma. Estendeu uma das mãos impecavelmente enluvadas e recebeu o punhal, os olhos negros o delineando naquele momento. Interessante. Muito interessante. Bastet saberia, com grande possibilidade, o que se passava na mente de Anúbis. Não disse mais nada, apenas guardando o punhal no bolso interior do palitó.. Até que Seth estivesse quase dentro do carro, novamente. A voz de Anúbis sairia como sempre: Um vento polar, tão frio, mortifero e soturno, quanto uma noita nos polos. * - A propósito, meu pai.. E Isis. É interessante que saibam que a passagem para o outro mundo está velada. Ao menos para Isis, se presa tanto pelo feto que carrega. Ele foi concebido em carne, e em carne deve permanecer. Ou morrer. *Não alterou a face, não alterou a expressão. Estava apenas... dando um recado.*

*Isis manteve silêncio absoluto, apenas reverenciando Anúbis e Bastet com uma leve curvatura. Ficou apoiada ao braço de Seth, o rosto levemente descorado apoiado ao ombro do consorte. Ouvia com a maior atenção as palavras trocadas por Seth e seu filho, apertando de leve o braço dele quando falou sobre achar que havia atropelado a gata. Não o repreendeu verbalmente, no entanto, embora ele pudesse sentir em sua mente que a alusão a desagradava. Respirou fundo, empalidecendo mais quando Anúbis confirmou seus temores sobre a criança que esperava. Parou de andar e olhou para o filho de seu consorte. Uma mão pousou protetoramente sobre o ventre. Novamente, sentiu um mal estar puramente mortal. Sacudiu brevemente a cabeça, atordoada. Retirou a mão do ventre e a apoiou à porta do carro, sentindo tudo oscilar por um momento. Quando falou, esforçou-se por manter a voz firme.* Agradeço pelo aviso, Anúbis. *Murmurou, trocando mais de uma palavra com o deus pela primeira vez desde sua queda.* Imaginei que isso poderia acontecer, e já havia formado a intenção de permanecer neste plano até o nascimento de nossa criança. Mas, obrigada por... se importar. *Calou-se e mordeu o lábio inferior, incerta sobre o fato de Anúbis realmente se importar com a vida daquela criança, apesar de ser seu irmão.*

*Bastet sempre dava muita importância ao que Seth dizia, tanta importância que chegou até mesmo a bocejar, exibindo os dentes finos e branquelos, depois pôs as patas para frente, esticando-se preguiçosamente e então, começou a se esfregar nas pernas de Anúbis, sempre prestando muitíssima atenção nas exibições de Seth e em suas péssimas piadas.* ... *Pensou em tirar um cochilo enquanto ele falava e falava porque julgava fielmente que não ia perder muita coisa de importante, não dizia nada que ela já não soubesse o que não tivesse escutado antes, bocejou de novo, lembrando-se de uma canção que tinha escutado um tempo atrás: "Palavras como violência quebram o silêncio, vem destruindo o meu mundinho, doloroso para mim. Perfura através de mim, você não consegue entender. Oh, minha garotinha." * ... *Bastet olhou então Anúbis, olhou o Deus do submundo e lembrou-se do que tinham dito e feito, falado e acordado em outra noite quando Seth não notou a presença de Anúbis, quando ela, a Deusa-gato passou entre os planos encontrou-se entre os lençóis dele, o Deus do submundo, quando trocaram informações, temeres e anseios, quando ela foi dele e tão somente dele e dele para todo e todo sempre. E então... Bastet viu a decisão diante de seus olhos: "Tudo o que eu sempre quis, tudo o que eu sempre precisei. Está aqui em meus braços, palavras são bem desnecessárias, elas podem só machucar." Parou apenas para ouvir Anúbis falar.* ... *Olhou novamente para Seth, olhou para ele e apenas ele, não queria encarar Ísis agora.* - Eu... Ba-en-Aset, Deusa da Fertilidade, da dança, senhora da Lua e mãe dos filhos de Seline. Eu, a detentora das chaves dos portões e da passagem livre. Eu, aquela que transita pelos mundos sobre as patas de um felino. Eu, Ba-en-Aset. *E disse seu nome, disse o nome que era pronunciado lá, entre eles com orgulho e firmeza.* - Vedo aqui e agora, diante de Anúbis, diante de Ísis e diante dos olhos de Hórus, tua passagem, Deus Seth, tua passagem para o panteão, até segunda ordem. *Calou-se, os olhos felinos sobre Seth, a decisão estava feita. "Promessas são feitas para serem quebradas. Emoções são intensas, palavras são insignificantes. Os prazeres ficam e a dor também. Palavras são sem sentido e são esquecíveis. Tudo que eu sempre quis..." Bastet ergueu o corpo felino, para fazer sua última passagem, olhou de soslaio para Anúbis, esperando que ele entendesse que deveria ir também.* ... *E o corpo que Bastet usava caiu, inerte e sem vida, o pingente na coleira perdeu o brilho por completo, segundos depois o felino se levantou, um segundo confuso, antes de saltar e correr para a beira da estrada. Era só um gato.*

*O deus da destruição se limitou a escutar em silêncio o recado gélido de Anubis, fitando vez ou outra o rosto moreno de Ísis, procurando disfarçar a preocupação. Não era como Anubis. O filho tinha aquele quê etéreo, como haveria de ser, já que era o Juiz e a imparcialidade deveria ser sua natureza. E o era. Não havia expressão em Anubis, ao contrário de Seth, que era a explosão em pessoa. Anubis era como o gelo, frio como a Morte deveria ser. Seu pai, ao contrário, era o fogo, que consumia aos outros e a si mesmo se furioso. E era fácil de queimar.* Eu... *disse por fim, lembrando-se do que Ísis vinha pensando.* ...ouvi dizer. *A aflição que sentiu ao ver Ísis colocar a mão sobre o ventre protetoramente durou pouco, eis que Seth tinha certeza que, de um modo ou de outro, tudo acabaria bem. E se não acabasse... não acabaria bem para ninguém. Não disse nada sobre Anubis importar-se ou não, mas, em seu íntimo, sorriu para o filho, grato pela intervenção.* Vamos embora, quer... *Mas agora, a gata tagarela voltou a falar. Seth ficou com uma imensa vontade de chutar-lhe para longe e ver até que ponto da rota 66 conseguiria atingir aquela bola de pêlos se ele chutasse com toda a sua força. Entretanto, o que ela disse foi o suficiente para que ele mudasse de idéia e se deliciasse por alguns segundos imaginando aquela criatura infernal sendo torturada de várias maneiras diferentes.* Você o q...? *O sol desapareceu lentamente, mas Seth não parecia alterado. Apenas encarava a gata. As nuvens negras que se formaram timidamente no céu se chocaram e um único relâmpago iluminou o deserto, com um estrondo ensurdecedor. E foi só. A gata havia partido. Os olhos de Seth deixaram transparecer um resquício de raiva e nada mais, indo de Ísis para seu ventre e da gata para Anubis. Por fim, respirou e deu de ombros.* Déjà vu. *Abriu a porta do Bugatti para que Ísis entrasse. O gato miou perdido, roçando nas pernas de Seth enquanto ele segurava a porta aberta para que a deusa entrasse. O deus revirou os olhos.* Querida, você gosta de gatos? Se disser que sim, este é seu. Senão, os pedaços dele serão do deserto. *Estava com a costumeira vontade de esganar Bastet, é claro, mas nada que fugisse ao normal. Ele já fora proibido de transitar entre os dois mundos antes. E, afinal, "promessas são feitas para serem quebradas. Emoções são intensas, palavras são insignificantes"... ele não tinha ainda a habilidade de Bastet e Anubis, mas já as tivera, vez ter sido ele mesmo como Anubis, certa vez: um Juiz. Um dia a recuperaria. E, ademais, não poderia partir sem Ísis. Tampouco poderia partir com ela e sua prole. Se ambos voltassem ao plano divino, a prole deveria ficar. Por ora, deveria preocupar-se com a segurança da amada e da criança. Pensou nisso ao dar a volta no veículo, entrar, sentar-se no banco do motorista e ligar o carro. Provavelmente, Anubis não mais estaria diante dele.*

*A face impenetravel de Anúbis não havia se desfeito com o mau-estar de Isis, ou com a gratidão que sentia vinda do pai, ou com o trovão que abalou o céu. Seu rosto apenas se moveu, apenas virou-se em direção a gata, os lábios entre-abertos de espanto, até os olhos negros levemente arregalados. Não era muito, mas.. Para alguém de face tão impenetravel como Anúbis, aquilo já era quase um surto. * - Ubasti.. *Murmurou, como se pedindo para que ela revisse sua posição, repensasse aquilo. A surpresa expressa na face do Senhor das Terras Assombradas deixava claro que não sabia nada sobre aquilo. Que não imaginava. E então, ela se foi, e o gato miou para longe. Anúbis, aparentemente desconcertado, virou-se para Seth e para Isis. Ele havia entendido o significado daquelas palavras, e todas as suas implicações. * - Eu.. *E então, como o Deus Soberano que tropessa na própria capa, Anúbis parecia ter ficado sem fala. Uma brisa mais forte, uma luvada de vento, cortou o ar, e o corpo de Anúbis foi levado, como se, na verdade, fosse feito de grãos de poeira. Devolveria o corpo ao lugar combinado, e iria atrás de Bastet.*

*A deusa continuou apoiada à porta do carro, observando a partida de Bastet - que lhe tirou ainda mais a sensação de segurança - e a subsequente partida de Anúbis. Quando Seth falou sobre o gato que antes abrigara a essência da deusa, foi até ele, com passos levemente vacilantes, e o apanhou nos braços. Pareceu-lhe pesado, mas não se queixou. Respirou fundo e encostou-se ao carro, inspirando o ar que ali havia várias vezes. Manteve-se calada por longos momentos, até que confiou em si mesma para falar. Largou o gato sobre o assento traseiro do carro e ocupou o dianteiro. Depois de alguma dificuldade, conseguiu reclinar o banco de modo a deixá-la praticamente deitada. Foi assim que ficou, a mão direita pousada sobre o abdome e a esquerda caída pela lateral do banco. Mesmo sentindo-se mal, como obviamente estava, a deusa conseguiu fechar a mente para o consorte, o que indicava que qualquer comunicação teria de ser feita verbalmente. Sentia a necessidade de falar, de ouvir a voz dele, como se aquilo fosse fazer as coisas ficarem, ou parecerem, melhores.*

*Bom, de resto, era apenas um gato - um gato que por acaso não parecia gostar muito da presença de Deuses- pois ficou bem afoito e nervoso quando jogado no banco de trás, procurando um lugar por onde escapulir.* ... *Seth não tinha compreendido, nem Ísis. Mas Anúbis e os outros Deuses sabiam do que Bastet tinha feito. A Deusa chegou ao Submundo - ia direto para lá antes de voltar aos seus domínios. - E assim o fez. Sendo recebida pelos servos de Anubis, - primeiro mulheres, porque como sempre, estava nua - e coberta para que pudesse atravessar os salões sem que os demais lhe olhassem, a cobriram por completo, ocultando até mesmo a face de Bastet, que foi seguida de perto - segurada - pelos ombros por duas das servas de Anúbis, a Deusa estava debilitada. Fechar as passagens necessitava de muito de seu esforço, ela estava esgotada, perdeu as forças nas pernas e tombou, as mulheres lhe seguraram, chamando Anubites para que levassem Bastet para os aposentos de Anúbis, eles se aproximaram devagar, sem saber se deveriam tocar a Deusa.* ... * "Bastet fechou as passagens." Sussurrou um deles para o outro e de sussurro em sussurro a noticia chegou a Hórus e Néftis. E a todos os outros deuses, pegaram-se curiosos. Hórus enviou servos para localizar Bastet, queria vê-la e queria vê-la já! Néftis estava curiosa e também desejava a presença da Deusa-gato, porém não desejava afrontar Anúbis, não agora.* ... *Os servos de Hórus não se demoraram a chegar, mas foram impedidos pelos Anubites de prosseguirem até que Anúbis retornassem e assim, fez-se o burburinho sobre as cabeças divinas, todos querendo ouvir Bastet. Dentro da piramide, os Anubites se abaixavam para erguer a Deusa. Houve silêncio total, Néftis não se pronunciava mais, para alivio de Ísis, Hórus sentou-se em seu trono, ansioso e aguardando. Os outros irmãos voltaram os olhos para o submundo, esperando... Esperando pelos olhos de gato se abrirem novamente.*

*Seth duvidava muito que Bastet pudesse trancá-lo lá para sempre. Bom, sua lógica era simples: fora trancado há cinco mil anos. Trancá-lo em absoluto era impossível... não era? Cogitou a possibilidade de uma prisão eterna. Havia Anubis, é claro, que transitava sossegadamente. Ele era um meio de acesso. Se a natureza de Anubis podia conduzi-lo entre os planos, a de Seth também poderia... afinal... já foi também o deus da destruição um Juiz. Tinha ele poder sobre os mortos e podia caminhar pelo Deserto Escuro. Bastava achar o seu Dom. Bastet não poderia vedar a passagem se Seth tivesse o poder novamente... poderia? Não... pensava que não. A menos que ela pudesse impossibilitar a passagem de Anubis também... mas... a gata não poderia, poderia? Bah, não poderia pensar nisso agora. Uma coisa Seth sabia: seu exílio não era eterno. E isso era certo. Há a criação. E há o fim. E o fim viria com Seth. E depois o reinício. E assim, sucessivamente. Pois tal era a dinâmica do universo. E Seth trazia consigo o peso do Fim. Estavam certos os setitas que esperavam nele o fim do mundo, o apocalipse ou a Gehenna. Não era mito. Era literal. Mas não era ruim. Era bom.* Ísis, você não parece bem... *O Bugatti fez pedaços de uma lagarta do deserto, mas nem sequer se desalinhou. Em alguns minutos, estariam em Houston, no Texas.* Você viu o que Bastet disse? Puah, francamente... *Deu uma gargalhada. Talvez fosse bom que Ísis não lhe explicasse agora as consequências das palavras de Bastet.* Mas nada me importa, meu amor, pois tenho você ao meu lado. Lembra-se do que me disse? Da prova do meu amor? Que se meu amor fosse verdadeiro, haveria frutos? Ei-lo. E meu amor por você só faz crescer. E é esse amor que me equilibra a natureza, que me propicia uma ascensão controlada e uma paz que nunca conheci... *Isso era verdade. O problema é que a ausência de Ísis era como a abstinência para Seth: o descontrole voltava absolutamente maior, a exemplo da explosão que tivera no Abrigo, fazendo o plano divino tremer.* Quando a noite vier, você estará comigo. Vamos nos ocultar dos olhos dos inimigos... *E era uma expressão curiosa para se utilizar com Ísis, sobretudo porque a deusa, ao contrário de Seth, não era habituada às Armas.*... e o mundo será nosso. *Em verdade, sob certo aspecto, ele já era de Seth, vez que o pretenso trabalho de Hórus em manter a Terra harmonizada não vinha dado muito certo nos últimos séculos. A presença de Seth na Terra fora o suficiente para algumas Cruzadas, um sem número de catástrofes naturais, duas guerras mundiais e um pacote de destruição e caos diários que davam baile nos servos do deus-Falcão - que agora estreitava os olhos aguardando pela manifestação de Bastet.*

*Anúbis chegou pouco depois - menos de cinco minutos, na verdade - mas com a velocidade com a qual as noticias e fofocas se espalhavam entre as bocas divinas, o mundo inteiro já repercutia ali. O Deus-Chacal foi obrigado a ignorar, no sentido mais literal possivel da palavra, servos e mensageiros de Hórus, Toth, e todos os outros Deuses, que lhe esperavam na divisa do submundo, onde suas passagens haviam sido barradas por, se não mais, centenas de Anubites, responsaveis pela guarda da entrada. Sua chegada até a pirâmide foi quase absurdamente veloz - os Anubites que haviam carregado seu trono chegaram a tal estado de cansaço devido a velocidade que lhes havia sido imposta, que Anúbis lhes permitira descanso, o que era coisa rara. Toda a pressão crescente sobre seu reino, sobre os portais de entrada para o imenso deserto, irritava Anúbis, que via-se dividido entre duas coisas: Correr para ver Bastet, pois sabia que o que havia feito certamente lhe cansara, e dizer, para todos, que fossem dali. A decisão foi tomada quando notou que as almas, juradas de paz e sossego nos Campos de Iaru, começavam a ficar agitadas, devido a toda aquela movimentação. Chamou pelo mensageiro oficial - que, por incrivel, não era um Anubite, e sim uma criatura com humanóide com cabeça de Urubu, e lhe sussurrou a mensagem que deveria ser levada, o mais rapido possivel, para todos os Deuses. * ... *Bastet já encontrava-se no quarto do Deus, sobre os lençóis de seda branca. Pelo que lhe havia sido avisado, a chefe das criadas, irritada com a postura indecisa dos Anubites, tomara para si mesmo a missão de levar Bastet até os aposentos, murmurando pelo percurso coisas como "pulguentos, sarnetos, malditos" e "Acham que Anúbis preferira vela jogada ao chão!". Anúbis entrou no quarto, agradeceu Ajax, a chefe das servas com um simples "Obrigado", e ela se foi. Anúbis retirou a grande cabeça de chacal, e a pôs sobre o criado mudo. Sentou-se na cama, ao lado da consorte, e dela retirou a cabeça de gato, pois sabia que Bastet preferia ficar sem tais apetrechos quando longe das vistas. Fizera tudo aquilo sutilmente. Tocou-lhe o pescoço com as costas dos dedos, deslisando a caricia até as maças do rosto. Não disse nada. Não precisava. O sorriso em seus lábios dizia tudo que precisava ser dito.* ...*A mensagem recebida por todos os Deuses, fora a seguinte: "Ninguém vê Bastet, por enquanto. Anúbis disse-lhes que, ou retiram os servos da entrada de seu reino, ou serão executados por perturbarem o descanço das almas. Pediu para lembrar-lhes - e essa parte o Abutre pronunciaria com sutil receio, para todos os Deuses - que são Divindades, e não camponeses. E que devem assim agir."*

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